sexta-feira, 27 de setembro de 2019

No meu copo, na minha mesa 791 - Marquês dos Vales Primeira Selecção branco 2017; Taberna da Maré (Portimão)


É um dos restaurantes da moda em Portimão. Situado na zona da antiga lota, vulgarmente conhecida como “debaixo da ponte”, fica num local onde os restaurantes típicos se sucedem porta-com-porta (melhor dito seria esplanada-com-esplanada) e onde no Verão os clientes se acotovelam a partir das 8 da noite, principalmente para comer sardinhas assadas.

Até já as televisões descobriram a Taberna da Maré, e a SIC Notícias foi lá filmar para o Boa Cama Boa Mesa, enquanto a SportTv levou lá dois jogadores do Portimonense para a apresentação das equipas da nova época. Em ambos os casos, procuraram os carapaus (ou sardinhas) alimados, prato muito típico da região.

Para uma refeição baseada na gastronomia típica (com comida normal e não recriações estapafúrdias com espumas, camas e a fumegar...), a Taberna da Maré é, hoje por hoje, um dos locais a visitar. Come-se principalmente na rua (há uma esplanada de cada lado) o que permite ir apreciando o movimento dos passantes e dos funcionários que entram e saem do restaurante em grande azáfama.

A ementa tem muito por onde escolher, sendo os pratos à base de peixe a grande especialidade. Dentro destes, há um que pela sua originalidade desperta a atenção: chama-se “filetes pirilau com açorda”. O dito pirilau é o nome por que é conhecido um pequeno peixe de forma oblonga e que faz estes deliciosos filetes, que fazem lembrar os de peixe-galo.

Também a açorda de acompanhamento é uma especialidade, e recomenda-se vivamente para quem é apreciador do petisco.

A carta de sobremesas também é generosa, sendo que, coisa rara, a mousse de chocolate é verdadeiramente uma delícia, feita com todos os matadores. Sabor irrepreensível e consistência no ponto exacto, nem demasiado rija nem amolecida.

Das duas vezes que tive oportunidade de lá passar aconteceram ambas em Agosto, no pico da época de veraneio, pelo que o serviço pode tornar-se demorado e problemático.

Igualmente problemática é a gestão das mesas: só são aceites reservas até às 20:00, a partir daí é por ordem de chegada e pode ser demorado. Em grupos numerosos, só se sentam quando estão todos presentes, pois há sempre mais alguém à espera de mesa. Portanto o melhor é chegar bem cedo, e com sorte fica na esplanada.

No meio desta azáfama, várias pessoas nos atendem sempre com um sorriso. O serviço é tão eficiente quanto possível nesta época. Em Agosto no Algarve é melhor ir com paciência para as falhas que possam surgir. E quando a afluência aperta, é o próprio dono que vem para a rua orientar a distribuição dos clientes pelas mesas.

Falta falar do vinho. Em Roma sê romano, e embora houvesse outras hipóteses garantidas (como o inevitável Planalto), optou-se por um vinho da Quinta dos Vales de Estômbar, ali mesmo ao lado em Estômbar. Embora as castas tenham potencial, a verdade é que o vinho não convenceu grandemente. Frescura na boca quanto baste mas alguma falta de acidez, tornando-o algo linear a tender para o chato. A prova anterior deste vinho tinha sido bem mais convincente, com um outro lote de castas. A mudança de castas não parece ter melhorado nada.

Por algumas experiências recentes, parece haver um problema com a acidez dos vinhos algarvios. Têm tendência a ser lisos e tornar-se pesados e enjoativos. Aliás, já não é a primeira nem a segunda vez que isto acontece em lotes com Antão Vaz, até mesmo no Alentejo. Não basta mudar a casta de local para os resultados serem brilhantes.

Algo tem de ser corrigido para poderem ganhar outra visibilidade. Curiosamente isto não acontecia com o Alvor Singular, que tive oportunidade de provar vários anos e sempre se mostrou bastante agradável e com vivacidade (agora está a ser produzido pela Aveleda com a marca Villa Alvor). Mas o panorama mais geral não parece ser este. Têm a palavra os viticultores e os enólogos, e espero que o caminho não seja o regresso aos insuportáveis excessos de madeira e de álcool e às sobrematurações, porque disso já tivemos que chegasse.

Kroniketas, enófilo itinerante

Vinho: Marquês dos Vales Primeira Selecção 2017 (B)
Região: Algarve (Lagoa)
Produtor: Quinta dos Vales - Agricultura e Turismo
Grau alcoólico: 12%
Castas: Viognier, Arinto, Antão Vaz
Preço: 7,5 €
Nota (0 a 10): 7

Restaurante: Taberna da Maré
Travessa da Barca, 9
8500-755 Portimão
Telef: 282.414.614
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4

terça-feira, 24 de setembro de 2019

No meu copo 790 - Post Scriptum 2016

Dentro do vasto portefólio de vinhos da Symington Family Estates, onde simultaneamente cabem os vinhos do Porto e os vinhos de mesa produzidos a solo ou em parceria com Bruno Prats, algumas marcas correm mais ou menos em paralelo dentro dos universos Chryseia e Quinta do Vesúvio.

O projecto Chryseia nasceu em 1999 da parceria com Bruno Prats com o objectivo de produzir vinho à maneira de Bordéus. Nesta gama de vinhos inclui-se o Post Scriptum, com uvas provenientes da Quinta de Roriz e da Quinta da Perdiz, na zona do Cima Corgo.

Elegante, aromático, suave, apresenta notas de fruto maduro e concentrado, com boa acidez e grau alcoólico moderado, mostrando-se um vinho prontíssimo a beber devido ao seu equilíbrio.

Nos tempos que correm, em que se passou pelo exagero do álcool, da extracção e da madeira (e em que o Douro foi das zonas onde mais se notou esse exagero), saúda-se a presença dum vinho em que nada está em excesso e que por isso se pode usufruir na sua plenitude.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Post Scriptum 2016 (T)
Região: Douro
Produtor: Prats & Symington
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço: 11,29 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Na minha mesa 789 - Maria do Mar (Portimão)




Este foi descoberto há um ano, mas já tem algum prestígio. É um espaço diferente, com um conceito diferente: todos os petiscos são baseados em conservas de peixe, uma indústria que foi florescente na cidade nas décadas de 60, 70, 80...

No pós-25 de Abril, como outras actividades que entraram em crise devido às mudanças socioeconómicas, a indústria das conservas de peixe foi decaindo até se tornar apenas uma recordação para o Museu ou para atracções turísticas. O local onde durante décadas pontificou a fábrica de conservas Feu, na chamada “estrada da Rocha” (a estrada que era a principal ligação entre a cidade e a praia da Rocha) está agora ocupado com uma construção de condomínios de férias.

O que este pequeno espaço (não alberga mais de 30 pessoas) situado na tradicional Rua Direita (quase em frente à tradicional Carvi) evoca é precisamente a época áurea da indústria das conservas de peixe, oferecendo ao cliente um conjunto de opções que passam pelas bruschetas, tibornas e hambúrgueres, baseados em sardinha e cavalas.

Todos os petiscos são servidos com uma boa dose de vegetais (sobretudo alface), muito alho, cebola e azeite. Os temperos mediterrânicos tradicionais.

Vale a pena experimentar, mesmo que para isso seja preciso esperar um bocado na rua. Como não há reserva de lugares, é preferível ir cedo.

É um local diferente onde se deve ir de espírito aberto para novas experiências.

Kroniketas, gastrónomo itinerante

Restaurante: Maria do Mar
Rua Direita, 89
850-626 Portimão
Preço por refeição: 10 €
Nota (0 a 5): 3,5

domingo, 15 de setembro de 2019

No meu copo 788 - Frei João Clássico branco 2016

Foi a segunda colheita deste branco das Caves São João que recebeu a designação “Clássico”.

Tal como na colheita anterior, revelou-se um vinho bem estruturado, com um toque mineral e algum floral num aroma contido e não muito exuberante. Versátil, para pratos de carne e peixe com alguma complexidade mas não demasiado pesados.

O branco típico de meia estação, um pouco no perfil todo-o-terreno.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Frei João Clássico 2016 (B)
Região: Bairrada
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico:
Castas: Cercial, Bical
Preço: 14 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 10 de setembro de 2019

E pur si muove*


Tal como a Terra em 1633, o mundo vínico português move-se.

Primeiro foram as castas que começaram a migrar, de norte para sul, principalmente (Touriga Nacional, Touriga Franca, Alvarinho...), de sul para norte e até das ilhas para o continente (Verdelho).

Mais recentemente foram os próprios produtores que começaram a migrar para fora da sua região de origem. Para além de algumas marcas que já eram multi-regiões (como a Borges, a Aveleda, a Dão Sul/Global Wines e acima de todas as Sogrape), começámos a assistir a uma nova vaga de investimentos fora da sua “zona de conforto”. O Esporão já tinha adquirido a Quinta das Murças no Douro e João Portugal Ramos já se tinha associado a José Maria Soares Franco para expandir a sua produção para o Douro Superior com o projecto Duorum na Quinta de Castelo Melhor.

Mas agora tudo mexe. A Aveleda, com sede em Penafiel e maior produtor na região dos Vinhos Verdes, e também com produção no Douro e na Bairrada, viajou para o Algarve, onde já produz um vinho chamado Villa Alvor na Quinta do Morgado da Torre, um velho conhecido pelo vinho Alvor Singular (vi a nova marca à venda mas não comprei). A Sogrape, que já estava estabelecida na zona da Vidigueira com a Herdade do Peso, saiu da planície para a serra de São Mamede tendo adquirido a Richard Mayson a Quinta do Centro, nos arredores de Portalegre, mas antes já tinha entrada na região de Lisboa com a compra da famosa Quinta da Romeira, em Bucelas, à Wine Ventures. Quase ao mesmo tempo, também a Fundação Eugénio de Almeida saiu da planície de Évora e da Adega da Cartuxa para a serra e comprou a Tapada do Chaves à Murganheira.

Mas não é tudo, porque o apelo da serra de São Mamede parece ter tomado de assalto a fileira do vinho, com um terceiro player a estabelecer-se ali pela mão da Symington, na nova Quinta da Fonte Souto. E assim temos três novos produtores a fazer vinho em Portalegre!

Mas também há quem migre para norte. A Casa Ermelinda Freitas deixou as areias de Palmela e expandiu-se para os Vinhos Verdes, com a aquisição da Quinta do Minho, em Póvoa de Lanhoso, à Super Bock. Percurso semelhante fizeram os irmãos Serrano Mira, que da planície de Estremoz, onde há séculos a família detém a Herdade das Servas, partiram para a aquisição da Casa da Tapada, em Amares.

Certamente há mais destes movimentos migratórios para referir, mas estes foram os que pude acompanhar quando foram noticiados. Perante tal dimensão de investimentos (só a Aveleda está a investir 7 milhões de euros para incluir um projecto de enoturismo na Penina), é com elevada expectativa que aguardo pelos novos vinhos que irão surgir. Os vinhos do Algarve estão a precisar dum novo fôlego (falaremos disso num próximo post), e os de Portalegre têm gozado de mais fama do que proveito, pois a produção tem muita qualidade mas a quantidade é limitada – a Tapada do Chaves e a Adega de Portalegre (também recentemente renovada com novos proprietários) são os mais conhecidos mas são quase vinhos de nicho, e os restantes têm um alcance muito limitado.

Aguardemos, pois, pelo que os novos investimentos nos vão trazer. Pelo que se conhece dos nomes citados, espera-se qualidade garantida.

Kroniketas, enófilo itinerante

* “E no entanto ela move-se!”
Frase atribuída a Galileu Galilei, que a teria murmurado entre dentes quando teve de abjurar perante o tribunal da inquisição, em 1633, a sua tese de que a Terra girava à volta Sol e não o contrário, como era crença na época, para não ser queimado na fogueira.

sábado, 7 de setembro de 2019

No meu copo 787 - João Pires 2018

Este vinho já foi uma referência nos brancos da Península de Setúbal mas, entretanto, parece ter perdido boa parte do seu encanto.

Há muitos anos que o bebo, mais frequentemente no Verão e com pratos a pedir vinhos leves e frescos onde ele cumpria o seu papel com bastante competência. Mas com o aumento do portefólio da Bacalhôa, o lançamento de muitas novas marcas e a disseminação da produção por várias regiões, o João Pires parece ter perdido o comboio e ficado para trás. Vulgarizou-se, em suma.

Do João Pires de há uma década restam essencialmente as notas florais do Moscatel e um paladar fresco e equilibrado, mas o aroma está algo curto e discreto.

Na boca, a intensidade e a acidez também são medianas.

Enfim, se as expectativas não forem muito elevadas, bebe-se ainda com algum agrado, mas sem surpresa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: João Pires 2018 (B)
Região: Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca Vinhos
Grau alcoólico: 12%
Casta: Moscatel Graúdo
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Na minha mesa 786 - O Teodósio (Guia - Albufeira)



É tempo de falarmos dum restaurante que é um verdadeiro caso de sucesso há mais de 25 anos. Trata-se do Teodósio, na Guia, a meia-dúzia de quilómetros de Albufeira.

A Guia é uma povoação que é atravessada pela famosa Estrada Nacional 125 e que se tornou conhecida basicamente por dois factores: o parque aquático Zoomarine e o famoso frango da Guia. Mas tarde viria a surgir o Algarve Shopping e também ali perto cresceu a vinha de Cliff Richard, que entretanto já mudou de mãos.

Mas o verdadeiro caso de estudo é este Teodósio - O Rei dos Frangos, que criou o célebre prato que ficou conhecido simplesmente como frango da Guia.

Ali à volta os restaurantes que anunciam ter “frango da Guia” pululam como cogumelos, e pelo país fora o nome foi exportado como “franguinho da Guia”, “frango tipo-Guia” e outras imitações, que são isso mesmo: imitações. Mas é no Teodósio que os clientes caem em peso, tornando por vezes um verdadeiro pesadelo tentar arranjar uma mesa para jantar. Muito antes das 8 da noite, e sobretudo no Verão, são às dezenas as pessoas em lista de espera para se sentar, que se acumulam no exterior dos dois lados do edifício. Há quem tenha paciência para esperar mais de uma hora e meia para comer uns pedacinhos de frango assado (na realidade deveria chamar-se pinto) com batatas fritas e salada. Nas fotos de baixo, podemos ver o aspecto duma das salas num dia de Agosto, às 19 h e às 19:30...

Mas qual é, afinal, a razão para tamanho sucesso? Porque fazem as pessoas dezenas de quilómetros para comer frango naquele local? Porque, até prova em contrário, aquele franguinho é diferente, tem outro sabor e é acompanhado por uma salada de tomate que também não tem igual noutros locais. A simplicidade daquele prato é desarmante, mas é isso que faz o seu encanto. E mesmo sabendo que podem apanhar uma seca monumental, as pessoas continuam a ir lá e esperar horas...

Costuma dizer-se que raramente a cópia é melhor que o original. Pois é isso que acontece com o Teodósio: este é o original, os outros tentam copiar. Mas como se pode constatar passando lá à porta, sem grande sucesso.

Vale a pena ir lá? Vale sim senhor. Mas de preferência, seja para almoçar ou jantar, vá cedo. Muito cedo.

Kroniketas, gastrónomo em trânsito

Restaurante: O Teodósio – Rei dos Frangos
Rua do Emigrante, 50
Guia
8200-440 Albufeira
Telef: 289.561.318
Preço por refeição: 15 €
Nota (0 a 5): 3,5