quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

No meu copo 503 - Vale Barqueiros Limited Edition Garrafeira 2007

A Herdade de Vale Barqueiros está situada na freguesia de Seda, concelho de Alter do Chão, a cerca de 30 km da capital de distrito, Portalegre.

A propriedade é composta por 122ha de vinha, 330ha de olival e uma área florestal composta por sobreiros e pinheiros mansos.

Os vinhos Vale Barqueiros não são dos mais fáceis de encontrar no mercado, apesar de serem normalmente bem conceituados. Das poucas vezes que tive oportunidade de provar estes vinhos fiquei muito bem impressionado pela sua estrutura e corpo, mas há muitos anos que não tinha oportunidade de provar nenhum. Recentemente, através de uma promoção recebida via Internet tive oportunidade de adquirir esta garrafa, cujo anúncio me despertou a atenção.

Elaborado a partir das castas Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, sob a batuta de Paulo Laureano, estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês, seguido de um ano em garrafa. Apresenta uma cor granada e mostra-se elegante, estruturado com taninos suaves, aromas de compota e frutos silvestres, com algumas notas de especiarias no final, longo e persistente.

Um vinho de qualidade inquestionável, embora talvez o preço seja algo elevado. Tendo em conta que custa o mesmo que o Esporão Reserva, a comparação é problemática.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Vale Barqueiros Limited Edition Garrafeira 2007 (T)
Região: Alentejo (Alter do Chão - Portalegre)
Produtor: Sociedade Agrícola de Vale Barqueiros
Grau alcoólico: 14%
Castas: Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Touriga Nacional
Preço: 14,98 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 24 de janeiro de 2016

No meu copo 502 - Reguengos Garrafeira dos Sócios 2003

Como não podia deixar de ser, para não fugir à tradição, depois dos monocasta do Esporão e dos Reservas da Sogrape, juntámos mais um exemplar de Garrafeira dos Sócios aos festejos de fim de ano. Vamos consumindo estas garrafas moderadamente e com parcimónia.

Surpresa? Nenhuma! Continua com o mesmo perfil a que nos habituou. O lote de castas mantém-se inalterável e fiel às origens e à sua própria tradição: Aragonês, Castelão e Trincadeira, tradicionalíssimas no Alentejo, constituem o trio inseparável há mais de 20 anos.

É macio, aveludado, de aroma profundo, bem estruturado e persistente, com madeira quanto baste, longo, longo longo... Para ir bebericando, saboreando e conversando com ele ao longo de um serão em que terá muito para dar e mostrar. E para ir tendo sempre de prevenção na garrafeira.

Finalmente, em 2014 houve uma colheita (de 2008) reconhecida com um prémio Escolha da Imprensa pelo júri da Revista de Vinhos. Foi exemplo quase único entre portas, a contrastar com as medalhas que traz lá de fora. E bem merece.

Para nós continua a ser uma referência entre os vinhos clássicos do Alentejo. É o “veludo” dentro duma garrafa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Garrafeira dos Sócios 2003 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: CARMIM - Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Castelão, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 14,49 €
Nota (0 a 10): 8,5

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

No meu copo 501 - Douro Sogrape Reserva 2000; Alentejo Sogrape Reserva 2000

Mantendo uma tradição destes 10 anos, assinalamos a passagem de mais uma centena, coincidente com a passagem do 10º aniversário, recuperando mais uma prova dos Reservas da Sogrape. Vamos apanhando as garrafas que podemos, aqui e ali, e vamos provando algumas regularmente. Neste caso juntámos duas colheitas de 2000, uma do Douro e uma do Alentejo, ambas já objecto de provas anteriores.

A curiosidade e a expectativa, no entanto, mantêm-se sempre elevadas, e mais uma vez não foram defraudadas.

O Reserva do Douro apresentou-se pujante, sem denotar muita evolução, com cor ainda muito carregada, algum frutado num aroma intenso e persistente, taninos firmes mas suaves, com final prolongado e macio. Está para durar.

Quanto ao Reserva do Alentejo, antecedente da marca Herdade do Peso, esteve notável mais uma vez. Estruturado, robusto, aroma vinoso intenso, com nuances de frutas vermelhas e pretas, ligeiro apimentado e muito vivo e vibrante na prova de boca. Respira saúde. Tudo no sítio.

Em suma, um regresso em excelente forma, que nos deixa sempre com água na boca para a próxima prova, daqui a mais alguns meses, ou daqui a um ano, ou quando calhar...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Sogrape Vinhos

Vinho: Douro Sogrape Reserva 2000 (T)
Região: Douro
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço: 13,33 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Alentejo Sogrape Reserva 2000 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Preço: 13,33 €
Nota (0 a 10): 8,5

domingo, 17 de janeiro de 2016

Adegga Wine Market Lisboa 2015

A edição de final de ano do Adegga Wine Market, no início de Dezembro passado, permitiu rever ou visitar alguns produtores e novidades que não puderam ser provadas no Encontro com o Vinho e os Sabores em Novembro.

Desta vez, acedendo a um amável convite enviado pela organização, desloquei-me ao Hotel Altis Lisboa (nova localização do evento) para uma visita diferente do habitual. Em vez de cirandar por tudo o que era sítio e provar em quantidade, resolvi concentrar-me apenas numa meia-dúzia de produtores e aí provar tudo o que era possível. Estavam presentes 52 produtores, mas não visitei mais do que seis...

Passei pela banca dos vinhos Soalheiro, pela Sogrape, pela Casa da Passarela, pela Real Companhia Velha... Com pouco tempo disponível para estar no evento e muita conversa entabulada com outros passantes que vou reencontrando regularmente nestes eventos, falei mais de vinhos do que provei, porque estes momentos também são propícios para trocar impressões, rever ou estabelecer contactos, falar sobre o que se provou e o que está para vir. Mas o que provei foi bom.

De realçar o sucesso cada vez mais evidente desta iniciativa liderada pelo André Ribeirinho, que muito justamente foi incluído na lista dos nomeados de Aníbal Coutinho para Personalidade do Ano. O Adegga Wine Market tem vindo cada vez mais a destacar-se como embaixador dos vinhos portugueses não só dentro como também fora do país, e pelo andar da carruagem não vai ficar por aqui. E, claro, não esquecendo a grande inovação tecnológica, já vinda de edições anteriores, do “copo inteligente” que nos permite registar todos os vinhos provados no evento.

Votos de sucesso para 2016 é o que aqui vos deixamos.

Kroniketas, enófilo esclarecido

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

500 provas - Resumo de vinhos

Foram estes os vinhos provados durante a quinta centena de posts.

Espumantes

Espumante A. Henriques 70 anos 2006 - 5
Martini Brut - 8
Murta Extra-Bruto rosé 2011 - 7,5
Quinta da Murta Brut Nature branco 2011 - 8


Rosé

Douro
Vallado, Touriga Nacional 2014 - 8
Vinha Grande 2013 - 8

Dão
Casa da Ínsua 2013 - 4
Casa da Passarela, O Brazileiro 2014 - 7,5

Bairrada
Colinas 2013 - 3

Tejo
Fiúza, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional 2013 - 7,5
Quinta da Alorna, Touriga Nacional 2013 - 8

Península de Setúbal
Periquita 2013 - 6,5


Brancos

Verdes
João Portugal Ramos, Loureiro 2013 - 6,5
Palácio da Brejoeira, Alvarinho 2012 - 9
QM, Alvarinho 2012 - 8
Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2012 - 7
Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2013 - 7,5
Reguengo de Melgaço, Alvarinho 2013 - 8
Soalheiro, Alvarinho 2013 - 8,5
Soalheiro, Alvarinho 2014 - 8,5

Douro
Bons Ares - 8
Duas Quintas - 7,5
Planalto Reserva 2013 - 7,5
Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2014 - 8
Quinta de Cidrô, Sauvignon Blanc 2014 - 8,5
Tavedo 2013 - 7
Tons de Duorum 2014 - 6
Vila Real Reserva 2013 - 7,5

Távora-Varosa
Terras do Demo seco 2013 - 7

Dão
Casa da Ínsua 2014 - 7,5

Beira Interior
Beyra 2012 - 7
Beyra 2014 - 7

Bairrada
Frei João Reserva 2009 - 6,5
Marquês de Marialva Reserva, Arinto 2013 - 7,5

Tejo
Fiúza, Alvarinho 2013 - 7,5
Fiúza, Sauvignon Blanc 2014 - 8
Ninfa, Sauvignon Blanc 2013 - 8

Lisboa
Lybra 2014 - 8
Tágide, Chardonnay 2012 - 3

Bucelas
Bucellas, Arinto 2013 - 7,5
Bucellas, Arinto 2014 - 7,5
Bucelas Capital do Arinto, Seleção da Confraria Reserva 2014 - 5
Bucelas Caves Velhas Garrafeira Branco Seco 1998 - 8,5
Murta Wine of Shakespeare 2012 - 7
Prova Régia, Arinto 2013 - 6,5
Prova Régia Reserva, Arinto 2013 - 8
Quinta da Murta 2012 - 7,5
Quinta da Murta Clássico 2012 - 8

Península de Setúbal
Domingos Soares Franco Colecção Privada, Verdelho 2012 - 8,5
Quinta de Camarate seco 2013 - 7,5
Serras de Grândola Edição Especial 2014 - 8
Serras de Grândola, Verdelho 2013 - 8

Alentejo
Esporão, Duas Castas 2013 (1) e (2) - 8
Esporão, Verdelho 2011 - 9
Esporão, Verdelho 2013 - 9
Marquês de Borba 2013 - 7,5
Reguengos Reserva 2011 - 7
Vila Santa Reserva 2012 - não classificado

Algarve
Foral de Portimão 2013 - 6
Lagoa Estagiado 2012 - 6
Porches 2012 - 7,5
Quinta da Penina 2012 - 8
Quinta da Penina 2013 - 7,5
Salira 2012 - 7


Tintos

Douro
Borges Reserva 2005 - (1) - 6 e (2) - 8
Borges Reserva 2008 - 7,5
Cedro do Noval 2006 - 8,5
Evel 2012 - 7
Messias Reserva 2004 - 8
O. Leucura 200 Reserva 2008 - 8,5
O. Leucura 400 Reserva 2008 - 8
Vila Real 2012 - 7
Vila Real Grande Reserva 2009 - 6
Vinha Grande 2011 - 8
Vinha Grande 2012 - 8

Dão
Borges, Tinta Roriz 2004 - 8,5
Borges, Touriga Nacional 2005 - 8
Cardeal Reserva, Touriga Nacional 2009 - 8
Fonte do Gonçalvinho 2012 - 8
Meia Encosta 2013 - 6,5
Paço dos Cunhas de Santar, Vinha do Contador 2005 - 9
Quinta da Giesta 2011 - 5
Quinta de Cabriz, Touriga Nacional 2004 - 8
Quinta de Saes 2012 - 7
Quinta dos Carvalhais Único 2005 - 9

Beira Interior
Beyra 2012 - 7

Bairrada e Beiras
Campolargo, Baga 2010 - 8
Caves São João Lote Especial 2010 - 8
Caves São João Reserva 2005 - 8,5
Follies, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2007 - 8
Frei João 2006 - 8
Frei João Reserva 2005 - 8,5
Pato Rebel 2009 - 8
Quinta das Baceladas 2003 - 8
Quinta das Bágeiras Reserva 2010 - 7,5
Quinta de Foz de Arouce 2007 - 8
Quinta do Poço do Lobo Reserva, Cabernet Sauvignon 2003 - 8
Sogrape Reserva 1995 - 8

Tejo
Casa Cadaval Vinhas Velhas, Trincadeira 2007 - 8
Companhia das Lezírias 2008 - 7,5
Fiúza, Cabernet Sauvignon 2012 - 8
Fiúza, Touriga Nacional 2012 - 7
Padre Pedro 2007 - 7,5
Padre Pedro Reserva 2005 - 7,5

Lisboa
Aurius - 9
Grand’Arte, Shiraz 2007 - 7,5
Grand'Arte, Tinta Roriz 2005 - 7,5
Grand'Arte, Touriga Nacional 2008 - 7,5
Murta, Touriga Nacional e Syrah 2011 - 7,5
Quinta de Pancas, Cabernet Sauvignon 2007 - 7,5
Quinta de Pancas Selecção do Enólogo 2005 - 8
Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2004 - 9,5
Têmpera - 9

Colares
Collares V. S. 1994 - 9

Península de Setúbal
Adega de Pegões Colheita Seleccionada 2009 - 7,5
Adega de Pegões, Touriga Nacional 2008 - 7,5
Dona Ermelinda Reserva 2011 - 6
Hexagon 2005 - 9
Periquita Reserva 2010 - 7,5
Rovisco Pais Reserva 2009 - 8
Serras de Grândola, Cepas Cinquentenárias 2012 - 7,5
Serras de Grândola, Cepas Cinquentenárias 2013 - 8

Alentejo
ACR Reserva 2010 - 8
Adega de Borba Reserva, Rótulo de Cortiça 2008 - 8
Conventual Reserva 2003 - 7,5
Esporão, Alicante Bouschet 2005 - 8,5
Esporão, Aragonês 2004 - 8
Esporão, Quatro Castas Reserva 2003 - 8,5
Esporão, Quatro Castas 2011 - 8
Esporão, Touriga Nacional 2005 - 7,5
Esporão, Trincadeira 2005 - 8,5
Herdade do Perdigão Reserva 2005 - 8,5
Horta da Palha, Touriga Nacional 2008 - 6
Julian Reynolds 2006 - 8,5
Monsaraz Millennium 2014 - 3
Monte da Ravasqueira Reserva 2011 - 5
Poliphonia Reserva 2012 - 8
Porta da Ravessa Reserva 2013 - 7
Quinta do Mouro 2006 - 8,5
Reguengos Reserva 2005 - 8
Serros da Mina Reserva 2009 - 7,5
Trinca Bolotas 2013 - 7
Vila Santa, Trincadeira 2011 - 8

Algarve
Foral de Portimão, Colheita Seleccionada 2011 - 7
Lagoa Estagiado 2012 - 7,5
Lagos 2012 - 6
Quinta da Penina Reserva 2010 - 7,5
Quinta dos Lopes 2008 - 8
Tapada da Torre 2007 - 7,5


Estrangeiros

Brancos
Tormaresca, Chardonnay 2013 (Itália) - 7,5

Tintos
Château Grand Champ 2011 (França) - 7
Chianti Melini 2014 - 7,5
Domaine Felix, Pinot Noir 2010 (França) - 8,5

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

No meu copo 500 - Esporão: brancos e tintos, monocastas, duas castas e quatro castas

Duas Castas 2013; Verdelho 2013; Aragonês 2004; Alicante Bouschet 2005; Touriga Nacional 2005; Trincadeira 2005; Quatro Castas Reserva 2003




Chegámos a um número redondo, que nem estava nas previsões que viéssemos a atingir. E, para assinalar condignamente este meio milhar de posts dedicados a vinhos provados à mesa, – que aliás coincidem no tempo com o 10º aniversário deste blog, com o aniversário recente de um dos escribas e também com o início de um novo ano –, nada melhor que aproveitar esta série de festejos acumulados para tirar o pó a algumas relíquias que têm esperado pacientemente pela sua vez na garrafeira ao longo de vários anos. Escolheu-se assim um painel de vinhos exclusivamente provenientes da Herdade do Esporão, seguindo o critério de escolhas dos monocastas, ou com nomes afins.

Recuando cerca de 20 anos no tempo, foi em meados da década de 90 do século XX que eu e o saudoso Mancha começámos a encontrar nas prateleiras os primeiros vinhos monocasta da Herdade do Esporão – que na altura eram também dos primeiros que se viam produzidos em Portugal – baseados nas três castas que têm constituído a base do lote para o Esporão Reserva (com pequenas variações pontuais), com rótulos bem distintos para cada um deles: o Aragonês, com rótulo bege, o Trincadeira com rótulo cinzento claro e o Cabernet Sauvignon com rótulo vermelho vivo. A breve trecho o tuguinho também já estava metido nesta pandilha, sem imaginarmos que passadas duas décadas viríamos a escrever sobre o acontecimento... .

Tivemos oportunidade de comprar e provar várias colheitas dos primeiros anos (1991, 1992, 1993 e por aí fora...) de forma paralela e, com algum humor, chegámos a comparar o perfil de cada casta com os instrumentos de uma banda: o Aragonês, mais vivo e adstringente e de aroma intenso e especiado, era como a guitarra eléctrica, que se destacava nos solos; a Trincadeira, com o seu carácter vegetal, mais estruturada, discreta e redonda, era como o baixo, que muitas vezes passa quase despercebido mas que, se não estiver lá, se sente a sua falta, pois é quem dá o suporte de fundo ao conjunto; e o Cabernet Sauvignon, com um aroma marcante a frutos vermelhos e pretos maduros e algum apimentado, era como um teclado de sintetizador, que mantinha um som constante a preencher os espaços vazios e a ligar todas as partes do conjunto. E assim fomos aprendendo a conhecer as características de cada casta isoladamente, tendo-se posteriormente juntado ao painel o Bastardo, com um rótulo de cor antracite, a Touriga Nacional, com rótulo azul-escuro, a Syrah, com rótulo preto e finalmente o Alicante Bouschet, já nos anos 2000, com rótulo grená.

Com o passar dos anos, o lançamento no mercado destas 7 castas tintas a solo foi variando conforme as colheitas, tendo ainda na passagem de século ocorrido um período de alguns anos em que os vinhos eram lançados em garrafas de meio-litro, durante o qual surgiram também os primeiros monocastas brancos – tivemos oportunidade de provar o Arinto e o Roupeiro de 1999, com rótulos esverdeados, claro e escuro. Alguns dos monocastas deixaram de ser produzidos (o primeiro foi o Cabernet Sauvignon), sendo paulatinamente substituídos pelas novas castas emergentes e “importadas” de outras regiões.

Durante este percurso surgiu também aquele que foi durante vários anos o vinho do Esporão que mais nos encantou e que aqui referenciámos frequentemente: o Quatro Castas Reserva – com uma filosofia diferente, em que o lote podia variar todos os anos, era (e é) sempre composto pelas melhores quatro castas tintas de cada ano e sempre em partes iguais. Chegámos a colocá-lo num patamar equivalente ou mesmo superior ao Esporão Reserva, tal a personalidade, estrutura e perfil aromático deste vinho!

Depois, já em pleno século XXI, a estratégia comercial da casa para os vinhos monocasta mudou completamente, a rotulagem também, tomando o aspecto que ostenta actualmente, com apenas uma ou duas letras em destaque representando as iniciais da casta, mas sobretudo o que mudou foram os preços: para os tintos monocasta, o valor duplicou, subindo para a fasquia dos 22 a 24 €, o que o coloca no patamar do Duas Quintas Reserva, por exemplo. E com a nova estratégia comercial da casa, também nós mudámos a estratégia de compra, guardando (até agora) os últimos exemplares das antigas versões e comprando algumas relíquias em promoção, e deixando as novas apenas para abordagens esporádicas e muito pontuais, de que o único exemplo que apresentámos até agora foi um Petit Verdot, entretanto acrescentado ao poretfólio da casa, e que foi adquirido num passeio à herdade. Foi também neste período que se consolidou a nova marca Duas Castas, para os brancos, seguindo a mesma filosofia do Quatro Castas para os tintos – castas variáveis conforme o ano, embora no caso do branco as percentagens de cada casta possam não ser iguais – e que o espantoso Verdelho se impôs definitivamente como um dos melhores brancos nacionais.

E depois deste longo intróito, o que há para dizer, afinal, acerca dos vinhos? Pouca coisa. Nestes posts de balanço e de mudança de centena importa-nos, muitas vezes, elucubrar mais sobre a filosofia dos vinhos provados, da nossa relação com eles e da razão da escolha, por isso escolhemos sempre vinhos muito marcantes para nós: os do Esporão, os antigos Reservas da Sogrape, os tintos velhos do Dão ou da Bairrada, ou ainda o igualmente marcante Reguengos Garrafeira dos Sócios, verdadeiro compagnon de route dos tintos do Esporão na nossa aprendizagem vínica; no fundo, as verdadeiras relíquias que mais marcaram o nosso percurso enquanto enófilos.

Vamos apenas deixar aqui alguns apontamentos curtos, deixando as restantes conclusões para o leitor em função das fichas de cada vinho.

Duas Castas 2013 – Já provado anteriormente, apreciação feita aqui.

Verdelho 2013 – Como habitualmente em grande nível, encantando os presentes como noutras ocasiões. Acidez, aroma tropical intenso com algum citrino, estrutura, vivacidade e persistência. Excelente!

Aragonês 2004 – Robusto e estruturado, amaciado pelo tempo mas ainda longo e vivo. Com menos idade era um dos mais exuberantes em termos de corpo e aroma.

Alicante Bouschet 2005 – A nova coqueluche dos tintos alentejanos, aqui também já amaciada pelo tempo mas a mostrar porque é cada vez mais uma presença constante nos lotes: robusto, estruturado, longo, persistente, taninos firmes e vivos.

Touriga Nacional 2005 – Algo linear na prova, com o floral a marcar o conjunto mas a denotar pouca vivacidade.

Trincadeira 2005 – Mais um belo exemplar duma casta emblemática do Alentejo mas que parece ter-se tornado mal-amada por alguns enólogos. Estava lá tudo o que tem de melhor: estrutura, aroma, corpo, elegância, final longo, persistente e suave. Um dos melhores tintos da noite.

Quatro Castas Reserva 2003 – Depois de percorridos todos os monocastas ainda disponíveis, e depois de tantas colheitas, mais antigas e mais recentes, já provadas, este velho companheiro ainda foi capaz de nos surpreender. Já não apresentou a vivacidade de outras garrafas, mas as características que têm feito as nossas delícias desde há mais de uma década ainda lá estão. Corpo e exuberância aromática notáveis, taninos ainda bem firmes mas redondos e elegantes, mantendo tudo no sítio! Mais uma vez se confirmou que já tem muito pouco que ver com as novas versões modernaças...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Esporão

Vinho: Duas Castas 2013 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Gouveio (70%), Antão Vaz (30%)
Preço em feira de vinhos: 7,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Verdelho 2013 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Verdelho
Preço em feira de vinhos: 7,98 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Aragonês 2004 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Aragonês
Preço em feira de vinhos: 10,89 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Alicante Bouschet 2005 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 10,89 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Touriga Nacional 2005 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 10,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Trincadeira 2005 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 10,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Quatro Castas Reserva 2003 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 12,54 €
Nota (0 a 10): 8,5

domingo, 3 de janeiro de 2016

No meu copo 499 - Chianti Melini 2014

Uma visita a um restaurante italiano no Algarve (Bulli & Pupe, Praia da Rocha) proporcionou a oportunidade para provar um vinho italiano. Normalmente nos restaurantes de culinária estrangeira, havendo essa opção, prefiro optar por vinhos do mesmo país.

As opções não costumam ser muitas nem variadas, mas dentro do que havia escolhi um tinto Chianti, um dos mais afamados do país.

Sabe-se como os tintos italianos nos podem reservar todo o tipo de surpresas. Desde os vinhos mais abertos, leves e aguados, a outros mais robustos e encorpados, não conhecendo a fundo os produtores pode-se encontrar um pouco de tudo.

Os Chianti que tenho provado têm-se mostrado, contudo, ao contrário, como foi o caso deste: apresentou-se concentrado, com uma cor granada, encorpado, estruturado, persistente e frutado. Muito longe, portanto, de alguns outros algo deslavados.

Um vinho que se bate bem com pratos de carne bem temperados; estava mesmo a pedir algo como um ossobuco. Mas ficará para outra ocasião. A verdade é que este Chianti Melini agradou perfeitamente, e cumpriu na plenitude a sua função à mesa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Chianti Melini 2014 (T)
Região: Toscana (Itália)
Produtor: Melini - Poggibonsi
Grau alcoólico: 13%
Castas: Sangiovese (75%), outras (25%)
Preço: 8 €
Nota (0 a 10): 7,5