domingo, 19 de abril de 2015

No meu copo 447 - Dão Borges, Tinta Roriz 2004; Dão Borges, Touriga Nacional 2005; Douro Borges 2005

Estava agendado que, na primeira ocasião, a equipa de dois das Krónikas Viníkolas faria uma prova comparada de dois tintos do Dão produzidos pela Borges. Já tivemos oportunidade de provar alguns tintos do Douro e também o Alvarinho, mas dos tintos do Dão só nos tinha calhado provar o Touriga Nacional, precisamente este de 2005 a que agora regressamos, e o de 2004, provado o ano passado. E, como quem não quer a coisa, já passaram 6 anos desde que provámos o de 2005...

A Sociedade dos Vinhos Borges produz os seus varietais do Dão na Quinta de São Simão da Aguieira, no concelho de Nelas. Tivemos oportunidade de provar pela primeira vez o Tinta Roriz, faltando conhecer o Trincadeira, também produzido no Dão.

Este Tinta Roriz de 2004, aberto algum tempo antes do repasto, apresentou uma cor rubi intensa, aroma a frutos vermelhos e especiarias, com algumas notas de fumo. Na boca mostrou-se com grande volume, pujante, robusto e adstringente, estruturado e com muita persistência. Teria ganho com a decantação mas optámos por deixá-lo ir libertando os aromas nos copos e na garrafa, enquanto fazíamos o paralelo com o Touriga Nacional. Só passada quase uma hora após a abertura é que começou a mostrar-se mais exuberante nos aromas, mais equilibrado na boca, a revelar sabores a fruta madura e a proporcionar um final mais aveludado. Conseguiu conjugar a pujança e a suavidade, impressões que igualmente tínhamos recolhido aquando da prova anterior do Touriga Nacional 2005.

Quanto a este, apresentou uma cor rubi com laivos violáceos, aroma floral com notas de frutos pretos e do bosque. Na boca mostrou uma boa estrutura, com taninos maduros e elegantes, menos pujante que o Tinta Roriz. Perdeu em robustez o que ganhou em equilíbrio e delicadeza. Estava no ponto certo para beber, embora fique por saber como seria a evolução a partir de agora. Talvez a comparação com a robustez do Tinta Roriz o tenha ofuscado um pouco, ou esta garrafa estivesse mais evoluída que a de 2004...

Já depois desta prova, tivemos oportunidade de voltar à carga com os vinhos Borges e repetir, mais uma vez, a prova do Touriga Nacional do Dão, juntando-lhe o Douro Reserva 2005 que também tinha sido objecto de prova em 2014.

Desta vez decantámos os dois vinhos, sendo que o Touriga Nacional do Dão confirmou as impressões da prova anterior, apenas evoluiu um pouco mais depressa com a decantação. Já o Douro Reserva, a provar que em cada garrafa podemos sempre encontrar algo diferente, desta vez surpreendeu-nos pela positiva, ao contrário da prova anterior: apresentou-se um vinho com aroma vinoso intenso, esturutrado e cheio, pujante, longo e persistente. Muito bem a evoluir lentamente após a decantação, sem perder a robustez inicial.

Em resumo, três vinhos a caminho dos 10 e 11 anos cheios de saúde, parecendo ter ainda muita vida pela frente, talvez mais no caso do Douro Reserva e do Tinta Roriz do Dão, que mostraram mais garra que o Touriga Nacional, o que também não surpreende tendo em conta as castas em confronto e, no caso do Douro Reserva, por se tratar de um vinho de lote, que normalmente permite obter vinhos com maior complexidade.

Nota: os preços indicados são à data da compra e após promoções.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Produtor: Sociedade dos Vinhos Borges

Vinho: Borges, Tinta Roriz 2004 (T)
Região: Dão
Grau alcoólico: 14%
Casta: Tinta Roriz
Preço: 11,69 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Borges, Touriga Nacional 2005 (T)
Região: Dão
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 16,80 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Borges, Touriga Nacional 2005 (T)
Região: Douro
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca
Preço: 11,60 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 15 de abril de 2015

No meu copo 446 - Tintos velhos da Bairrada (6)

Bairrada Sogrape Reserva 1995; Caves São João Reserva 2005; Frei João Reserva 2005


Voltamos aos clássicos da Bairrada, entre os dois resistentes deste blog, tripartida entre três vinhos e repartida entre dois nomes de peso: a Sogrape e as Caves São João.

Esta colheita de 1995 de um dos antigos Reservas da Sogrape, ainda com o rótulo branco original, tinha sido objecto duma prova em 2014, graças a umas garrafas que encontrámos na Garrafeira Estado d’Alma, em Alcântara, onde existe um autêntico maná para os apreciadores de vinhos velhos. Mostrou-se em excelente forma, com aroma profundo e intenso, aberto na cor e macio na boca, apresentou uma cor granada com nuances atijoladas, a denotar evidente evolução mas sem sinais de cansaço. Um ligeiro apimentado marca um final prolongado e elegante. A madeira, em que envelhece durante um ano, há muito que deixou de marcar o vinho, que ainda apresenta alguns sinais de fruta madura. Saúde notável para um vinho com quase 20 anos de idade.

Passando aos clássicos das Caves São João, avançámos 10 anos para duas das marcas tradicionais. O Caves São João Reserva, feito a partir de Baga da Bairrada e de Touriga Nacional do Dão, apresentou-se aromático, encorpado, macio e persistente, mas evoluiu para uma estrutura mais robusta e com taninos mais evidentes passadas 24 horas. De cor rubi profunda, aroma delicado e dominado por notas de frutos vermelhos, florais e alguma tosta proveniente do estágio de 10 meses em pipas de carvalho francês, é acima de tudo um vinho que prima pela elegância e pela complexidade e que, como é habitual, apresenta uma saúde notável, a mostrar que podemos contar com ele em pleno por mais uns bons anos.

A fazer páreo com este misto Dão/Bairrada, um Bairrada tradicional, o Frei João Reserva, que tantas provas notáveis nos tem proporcionado. Foi elaborado com uvas de Baga, Camarate e Cabernet Sauvignon provenientes da Quinta do Poço do Lobo. Estas foram vinificadas com desengace total, maceração pré-fermentativa, fermentação alcoólica com temperatura controlada e maceração pós-fermentativa. Estagiou durante 10 meses em pipas de carvalho francês.

Apresentou uma cor a tender para o granada, aroma complexo com notas de frutos secos e vermelhos, taninos bem presentes e marcados mas macios, encorpado, robusto e persistente. Faz um interessante contraste com o Caves São João Reserva, tornando muito curiosa a prova comparada e alternada dos dois vinhos.

Em suma, dois belos representantes dos clássicos das Caves São João. Qual preferimos? Ambos!

Felizmente ainda há mais umas garrafas destas para beber.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Região: Bairrada

Vinho: Sogrape Reserva 1995 (T)
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 12,%
Castas: não indicadas
Preço: 7,50 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Caves São João Reserva 2005 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 11,90 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Frei João Reserva 2005 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 13%
Castas: Baga, Camarate, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,79 €
Nota (0 a 10): 8,5

sábado, 11 de abril de 2015

No meu copo 445 - Frei João 2006

Há anos (duas décadas, pelo menos) que o Frei João é um dos meus vinhos de referência para acompanhar fondue e bife na pedra. Desde o tempo em que havia poucas marcas, e grande parte dos produtores de referência da actualidade ainda nem sequer existiam, já este tinto de entrada de gama das Caves São João fazia as minhas delícias. O mercado foi crescendo, as opções foram-se alargando e o Frei João manteve-se sempre como uma referência segura. Teve pequenas alterações no perfil, algumas mudanças na sua composição (de que esta colheita é um exemplo, com Touriga Nacional, Merlot e Tinta Roriz a fazerem companhia à habitual Baga), mas a qualidade esteve sempre lá e a capacidade de envelhecimento também.

É espantoso como um vinho que se compra a menos de 3 € aguenta 10 anos ou mais em garrafa sem apresentar sinais de declínio, mostrando que está ali para durar. Já foram várias as colheitas de anos recuados que tivemos oportunidade de provar (1992, 1999, 2000, 2003), e a regra mantém-se: o tempo vai tornando os vinhos mais macios mas não lhes retira frescura, pujança, estrutura nem persistência. É assim que se abre uma garrafa duma colheita com 8 anos e não se dá pela idade do vinho, que se bate na perfeição com a carne e os molhos do fondue, bebendo-se com vontade de beber mais a seguir.

Sendo desde sempre uma das marcas emblemáticas das Caves São João, o Frei João deve ser um dos vinhos menos valorizados no panorama nacional. Porque vale certamente 3 ou 4 vezes mais do que aquilo que custa, razão pela qual temos sempre uns exemplares na garrafeira, sem receio de nos esquecermos deles pois temos quase sempre a garantia de que, quando formos abri-los, estarão em plena forma.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Frei João 2006 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 13%
Castas: Baga, Touriga Nacional, Merlot, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 2,29 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 7 de abril de 2015

No meu copo 444 - Trinca Bolotas 2013

A Sogrape continua a acrescentar novidades ao seu portefólio com o lançamento de novas marcas. Depois de o Papa Figos ter integrado a gama da Casa Ferreirinha, com uma referência a uma ave do Douro, chegou agora a vez da Herdade do Peso apresentar um novo rótulo, o Trinca Bolotas, numa homenagem ao suíno alentejano.

Este novo vinho entra na gama média, próximo do Herdade do Peso Colheita. Com um perfil robusto e algo agreste, em que o álcool está bastante presente e os taninos com muitas arestas, parece ser um vinho demasiado novo para consumir e a que falta tempo de garrafa.

Claro que após uma única prova deste vinho é prematuro tirar conclusões definitivas, pois esta foi a primeira colheita lançada no mercado, outras se seguirão e poderá haver alguns ajustes no perfil do vinho. No entanto, não convenceu grandemente e, principalmente, não pareceu acrescentar nada de relevante à gama da marca, pois o Herdade do Peso Colheita parece ser mais equilibrado e com uma relação qualidade/preço mais atractiva. Na generalidade, os vinhos provenientes da Herdade do Peso têm primado por uma qualidade elevada (impossível esquecer o fabuloso Alfrocheiro de 2000), pelo que fica a dúvida acerca do lugar onde este Trinca bolotas se irá encaixar.

A Sogrape sempre nos habituou a vinhos de qualidade acima da média e com excelentes relações qualidade/preço, pois “não sabe fazer vinhos maus” (a frase é nossa). No entanto, num portefólio tão vasto, que engloba várias regiões e dezenas de marcas que vão desde o Mateus Rosé ao Barca Velha, nem todos podem ser excelentes e haverá sempre alguns produtos menos bem conseguidos. Resta-nos aguardar por novas colheitas para fazer a contraprova.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Trinca Bolotas 2013 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Castas: Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonês
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 7

sexta-feira, 3 de abril de 2015

No meu copo 443 - Domaine Felix, Pinot Noir 2010; Château Grand Champ 2011

Num jantar caseiro com a companhia do Politikos, para acompanhar uns escalopes de vitela resolvi abrir dois vinhos franceses: um tinto da Borgonha que tinha na garrafeira há algum tempo e um de Bordéus que me foi oferecido aquando do jantar de apresentação dos vinhos franceses comercializados no LIDL, que decorreu no Hotel Ritz Four Seasons.

Abrimos as garrafas em simultâneo, para podermos ir comparando estes tintos de duas regiões emblemáticas na produção mundial de vinho. Foi uma prova interessante, porque nos permitiu verificar as enormes diferenças entre os perfis de vinho daquelas duas regiões.

O Domaine Felix mostrou as duas principais características que marcam a casta e a região: a leveza e pouca concentração do Pinot Noir, e a elegância e suavidade da Borgonha. Quase parecia um clarete. Para quem está habituado a beber vinhos poderosos e concentradíssimos, deve ser muito difícil gostar dum vinho destes. A verdade é que, apreciando este vinho com calma, percebemos a razão de haver tantos enólogos que são fãs dos tintos da Borgonha e que muitas vezes tentam encontrar um paralelo entre os seus próprios vinhos e os borgonheses. Dirk Niepoort tem a Borgonha como referência, Luís Pato compara o terroir da Bairrada com o da Borgonha e a casta Baga com o Pinot Noir, e há ainda quem diga que o Dão é a Borgonha portuguesa. Por alguma razão tantos querem ser como a Borgonha...

O Château Grand Champ, sem indicação das castas mas presumivelmente contendo Cabernet Sauvignon, mostrou-se mais encorpado e algo rústico, mais “roufenho”, digamos assim. Com alguma adstringência evidente e taninos bem marcados, talvez precise de tempo em garrafa para amaciar, mas ficou claro que não era um vinho do mesmo gabarito do borgonhês. Em todo o caso também deu para perceber como é diferente da generalidade dos vinhos portugueses. Será preciso, contudo, subir um patamar para entrarmos num nível qualitativo que permita aquilatar de real qualidade dos tintos da região, de que este vinho é apenas um representante da gama baixa.

Voltaremos, certamente, aos vinhos destas regiões quando a ocasião se proporcionar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Domaine Felix, Pinot Noir 2010 (T)
Região: Saint-Bris - Borgonha (França)
Produtor: Felix et Fils – Saint-Bris-Le-Vineux
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Pinot Noir
Preço: 7,29 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Château Grand Champ 2011 (T)
Região: Bordéus (França)
Produtor: Yvon Mau – Gironde-sur-Dropt
Grau alcoólico: 13%
Castas: não indicadas
Nota (0 a 10): 7

segunda-feira, 30 de março de 2015

No meu copo 442 - Espumante A. Henriques 70 anos 2006; Martini Brut

Aproveitando a ocasiões festivas que sempre vão ocorrendo ao longo do ano, resolvi abrir um espumante que tinha adquirido com a Revista de Vinhos, o A. Henriques em edição comemorativa dos 70 anos, e um que já conheço de outras ocasiões, o Martini Brut.

Relativamente ao primeiro, com muita pena minha devo dizer que me decepcionou. Achei-o pouco aromático, pouco elegante e pouco suave. Rústico e desinteressante. Ainda por cima tinha comprado duas garrafas, dado que a expectativa era relativamente elevada, dado que a Bairrada é um dos berços dos bons espumantes nacionais. A Revista de Vinhos incluiu-o nos melhores do ano na sua gala anual, colocando-o no patamar imediatamente a seguir aos prémios de excelência, mas a prova que fiz não me convenceu nem confirmou esse juízo. É pena, mas nem sempre se pode estar de acordo...

Quanto ao Martini, não sendo nada de extraordinário é um dos que me têm agradado, por isso tenho repetido a compra. É fresco, aromático, elegante, tem boa acidez e boa mousse, deixa uma sensação agradável no fim de boca e apetece sempre beber mais um pouco. Por isso, nesta versão ou noutra parecida, também o temos nas nossas escolhas, pois até agora, desde a primeira compra, nunca desiludiu.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Espumante A. Henriques - Aniversário 70 anos 2006 (B)
Região: Bairrada
Produtor: Caves da Montanha
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: não indicadas
Preço com a Revista de Vinhos: 8 €
Nota (0 a 10): 5

Vinho: Espumante Martini Brut (B)
Produtor: Martini & Rossi (Itália)
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: não indicadas
Preço em hipermercado: 7,98 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 26 de março de 2015

No meu copo 441 - Reguengo de Melgaço, Alvarinho 2013; Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2013

Dois vinhos da região dos vinhos verdes, sendo que um deles, ainda do tempo da polémica com a casta Alvarinho, tem denominação de Regional Minho. Para o caso pouco importa, pois o mais importante é aquilo que se usufrui do que está dentro da garrafa.

Já não provávamos o Reguengo de Melgaço há bastante tempo. A última prova não tinha sido relatada aqui no blog, mas este vinho merece ser referenciado. Não é dos Alvarinhos mais caros e é bastante bom. Muito aromático, macio, de corpo médio, com muita frescura na boca, com uma bela acidez pontuada por ligeiras notas citrinas e tropicais. Com muito boa relação qualidade/preço, é um daqueles que merecem estar nas nossas sugestões.

Quanto ao Quinta da Aveleda, é um regresso pois já tínhamos provado as colheitas de 2011 e 2012, esta ainda não há muito tempo, pelo que não encontrámos nada de novo nem surpreendente. Leve e suave, floral, muito focado na fruta, é um vinho que se bebe sempre com agrado e de que é fácil gostar. Pelo preço que custa, nunca nos deixa ficar mal.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Reguengo de Melgaço, Alvarinho 2013 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Hotel do Reguengo de Melgaço
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 9,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2013 (B)
Região: Regional Minho
Produtor: Aveleda
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: Loureiro, Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

domingo, 22 de março de 2015

No meu copo 440 - Quinta do Mouro 2006

Este é um dos nomes que se têm imposto no panorama dos vinhos alentejanos, não só pelo perfil dos vinhos mas também pelo perfil irreverente, e contra os padrões estabelecidos, do produtor.

Produzido na zona de Estremoz (sub-região de Borba), actualmente berço de um elevado número de vinhos com grande cartaz tanto no Alentejo como no país, é um vinho com o perfil de alentejano clássico, concentrado, intenso, com notas de compotas e frutos maduros, taninos firmes mas já arredondados. Na boca apresenta-se pujante, robusto e encorpado, a pedir comidas com alguma potência. Notas de madeira que não incomodam, bem integradas no conjunto, ajudam a dar-lhe muita complexidade.

Muito fechado no início da prova, requer que lhe demos tempo para respirar e para se mostrar – uma característica frequente nos grande vinhos, que não mostram tudo o que são logo no primeiro contacto.

É um belo vinho, que mais uma vez tem o preço como principal obstáculo, pois a qualidade é digna de todos os encómios. Em todo o caso, é um daqueles que justificam que se perca o amor a duas dezenas de euros porque vale a pena experimentá-lo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Mouro 2006 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Miguel Viegas Louro
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço: 22,98 €
Nota (0 a 10): 8,5

quarta-feira, 18 de março de 2015

No meu copo 439 - Quinta dos Carvalhais Único 2005

Inicialmente muito fechado e austero, um portento de concentração. Tem uma cor carregada, a fazer lembrar o vinho do Porto. Só a decantação o libertou da prisão dos aromas na garrafa.

Ao evoluir começa a mostrar alguma elegância, mostrando uma enorme persistência, taninos firmes mas elegantes.

Não é um vinho fácil de provar, e muito menos de comprar, por aquilo que custa. É antes um vinho desafiante, programado para altos voos, que precisa do tempo certo e da ocasião para que possa ser apreciado em todo o seu esplendor. A Sogrape anda à procura do seu Barca Velha do Dão, e este foi talvez o que mais se aproximou, mas ainda lhe falta algo para lá chegar...

Tínhamo-lo conhecido há uns anos numa prova na Wine O’Clock, e o tempo de garrafa moldou-lhe o perfil, retirando-lhe alguma pujança e fazendo sobressair mais a elegância. Passado este tempo é, sem dúvida, um belo exemplar da Touriga Nacional no seu melhor registo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta dos Carvalhais Único 2005 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 49,09 €
Nota (0 a 10): 9

sábado, 14 de março de 2015

No meu copo 438 - Paço dos Cunhas de Santar, Vinha do Contador 2005; Quinta de Cabriz, Touriga Nacional 2004

Tínhamos estes vinhos há alguns anos na garrafeira, juntamente com outros de gama alta, e achámos que era chegada a hora de abri-los. Já tínhamos provado o Vinha do Contador branco e tinto noutras ocasiões, nomeadamente nalguns encontros do #daowinelover. Nesta prova fizemos uma parelha entre dois produtos da Dão Sul já com alguma idade.

O Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador apresentou-se encorpado e estruturado mas bastante equilibrado. No primeiro ataque mostrou-se bastante recolhido, mas foi-se libertando e surpreendeu pela exuberância aromática e persistência. Muito volumoso e vigoroso na boca, com as notas de madeira muito discretas a dar complexidade e personalidade ao conjunto. Um grande vinho, como já se sabia, que a idade ajudou a domar. Precisa de tempo para se libertar, é um vinho para degustar lentamente ao longo duma noite e ir descobrindo toda a sua complexidade e panóplia de aromas.

O Quinta de Cabriz Touriga Nacional (ainda com a designação antiga, onde constava a palavra “quinta”) apareceu inicialmente discreto e algo simples no aroma, parecendo ficar ofuscado pelo parceiro de ocasião, mas foi abrindo lentamente com o passar do tempo e terminou com alguma exuberância aromática. Apresenta uma cor granada intensa mas é algo pesado na boca, tornando-se um pouco cansativo na prova. A Touriga Nacional impõe-se com as suas características florais mas o teor alcoólico confere alguma doçura que acaba por ofuscar o resto do conjunto. Aliás, é uma característica que parece manter-se neste vinho pelos anos fora, e que quanto a mim o penaliza na comparação com os outros monocasta do universo Dão Sul, e em particular os da Casa de Santar. Não é dos vinhos mais atractivos da casa neste segmento.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola

Vinho: Paço dos Cunhas de Santar, Vinha do Contador 2005 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Alfrocheiro, Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço: 44,80 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Quinta de Cabriz, Touriga Nacional 2004 (T)
Grau alcoólico: 15%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 14,18 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 10 de março de 2015

No meu copo 437 - Serras de Grândola: Verdelho branco 2013; Cepas Cinquentenárias tinto 2012

E de repente, donde e quando menos se esperava, surgem dois belos vinhos. Aliás, poderíamos mesmo dizer: um belo vinho e um belíssimo vinho! Foi no Mercado de Vinhos do Campo Pequeno que deparei com este produtor dos arredores de Grândola, algures na serra a meio caminho entre Melides e a praia da Galé. Estamos em pleno Baixo Alentejo mas, graças às originalidades da nossa legislação, trata-se de vinhos regionais da Península de Setúbal, que se prolonga até Santiago do Cacém...

Mas, quer seja no Alentejo ou na Península de Setúbal, a casta Verdelho é uma das que dão cartas na produção de vinhos brancos. Na prova que tive oportunidade de fazer no Campo Pequeno, junto da banca do produtor, o vinho desde logo me agradou bastante, sendo uma completa surpresa, e tendo em conta as minhas origens resolvi comprar uma garrafa deste branco e uma de tinto, em parte para ajudar a divulgar um produtor praticamente desconhecido.

A prova decisiva, contudo, fez-se em casa, na companhia de um prato de peixe no forno, e a surpresa ainda mais se acentuou. Mostrou-se um vinho guloso, com excelente acidez, muita frescura, boa estrutura e final longo, daqueles de que apetece beber sempre mais um copo. E mais uma vez encontrei no copo um branco que nada tem a ver com os brancos pesados e enjoativos dum passado recente mas que já parece longínquo... A altitude e a proximidade do mar (cerca de 15 km em linha recta) contribuem decisivamente para o perfil deste vinho, mas há que dar mérito a quem o fez. O segredo para o sucesso parece ser mesmo esse: aproveitar as zonas mais frescas, próximas da costa ou em altitude, usar castas que transmitam boa acidez ao vinho, e assim se obtêm brancos de elevado nível! É assim que, mesmo na planície e no interior, a Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, ou João Portugal Ramos, em Estremoz, produzem brancos com este tipo de perfil...

Ficou-se também a saber que estamos em presença duma empresa que se dedica ao enoturismo e ficou o convite para passarmos por lá. Mas para já, o que mais me interessa é saber como voltar a adquirir este belíssimo vinho!

Depois veio o tinto, descrito como de cepas cinquentenárias. Resultante duma combinação de castas pouco usual, apresentou-se muito fresco, frutado, macio, encorpado, estruturado e persistente, com notas predominantes de fruta madura e ligeiro vegetal. Pareceu ser um bom tinto para tempos mais quentes e pratos de carne não muito pesados nem condimentados. Outra boa relação qualidade/preço.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Península de Setúbal
Produtor: Monte da Serenada

Vinho: Serras de Grândola, Verdelho 2013 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Verdelho
Preço: 7,50 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Serras de Grândola, Cepas Cinquentenárias 2012 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Baga, Bastardo, Camarate
Preço: 7,50 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 6 de março de 2015

No meu copo 436 - Os novos vinhos da Quinta da Murta



A Quinta da Murta é um dos produtores sediados em Bucelas que se especializaram na produção de vinhos brancos com a casta rainha da região, o Arinto. Contudo, tem pouca visibilidade em comparação com os dois pesos-pesados da região, a Quinta da Romeira e a Enoport, que absorveu as antigas Caves Velhas.

Recentemente foi reformulado o portefólio de vinhos disponibilizados pela Quinta da Murta, com o alargamento da oferta de brancos, a introdução de um tinto e dois espumantes.

Juntamente com alguns dos elementos do habitual grupo de comensais, tivemos oportunidade de provar alguns dos vinhos da Quinta da Murta, numa refeição baseada num leitão de Negrais que acompanhou todos os vinhos provados.

Começámos e terminámos com espumante, um para entrada com o leitão e outro para as sobremesas. Pelo meio, introduzimos primeiro o tinto e depois os vários brancos.

Numa apreciação global, pode-se dizer que os vinhos agradaram na generalidade, embora com algumas disparidades entre os vários vinhos provados. Alguns agradaram claramente, outros suscitaram algumas reservas. Nada de anormal.

Resumidamente, apresentamos a seguir uma apreciação das impressões recolhidas.

Região: Bucelas
Produtor: Quinta da Murta


Murta, Touriga Nacional e Syrah tinto 2011 – 14%
Algo fechado na abertura, requeria decantação. De cor carmim aberta, com corpo médio, aroma algo especiado com predominância e frutos vermelhos e compota, boca algo adstringente no início, no ponto certo de consumo.
Nota: 7,5

Murta espumante Extra-Bruto rosé 2011 – 12,5% - Touriga Nacional
Bolha fina, agradável, aromático, elegante, aroma ligeiramente floral e final persistente.
Nota: 7,5

Quinta da Murta Brut Nature branco 2011 – 12% - Arinto
Boca equilibrada, suave, macio e com boa acidez.
Nota: 8

Murta Wine of Shakespeare branco 2012 – 13% - Arinto
Menos acidez que o Arinto habitual, boca média, redondo mas algo chato.
Nota: 7

Quinta da Murta branco 2012 – 13% - Arinto
Feito com uvas Arinto da quinta e compradas noutras propriedades. Perfil a fazer lembrar os antigos Caves Velhas, muito superior ao Murta seco, menos frutado.
Nota: 7,5

Quinta da Murta Clássico branco 2012 – 13,5% - Arinto
Feito com bâtonnage e com mais madeira que o anterior, a pedir comida mais untuosa. Boa estrutura e final persistente. Bem equilibrado.
Nota: 8


Em resumo, vinhos interessantes e que merecem ser revisitados e alguns deles adquiridos. Não deixam ficar mal os pergaminhos dos melhores Arintos de Bucelas.

Kroniketas e mais uns quantos

segunda-feira, 2 de março de 2015

No meu copo 435 - Casa Cadaval Vinhas Velhas, Trincadeira 2007

Voltamos ao Ribatejo, para visitar outro produtor de referência, a Casa Cadaval, também há muito implantada no mercado com os seus tintos monocasta. Neste caso, já tínhamos provado há cerca de um ano o Cabernet Sauvignon; agora foi a vez do Trincadeira, a outra casta tradicional dos tintos varietais da casa, tal como o Pinot Noir.

Sendo uma casta que parece ter vindo a perder terreno nos encepamentos no sul do país, e quase desaparecendo dos vinhos monocasta, os registos mostram, contudo, que ainda é uma das mais plantadas e largamente maioritária a par do Aragonês. É certo que não será das castas mais fáceis de trabalhar pelos enólogos, mas também temos visto nos últimos anos que quem se impõe são aqueles que fazem frente às dificuldades e trabalham com elas levando o seu barco a bom porto, em vez de enveredarem pelo caminho mais fácil dos vinhos com as “castas da moda”, que todos fazem e que a breve trecho se tornam verdadeiras pragas no país… É pena que ainda não tenham percebido que tudo o que está na moda acaba por passar de moda…

Que dizer, então, desta casta fora de moda? Este vinho apresentou-se encorpado, com um aroma algo herbáceo e de couro, estruturado e prolongado. Boa presença de taninos, final intenso mas redondo, pujante e persistente. Mostrou também estar num patamar de evolução em que já não irá melhorar, mas muito longe de decair. Continua a ser, para nós, um daqueles clássicos em que vale a pena apostar e que merece estar nas nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Casa Cadaval Vinhas Velhas, Trincadeira 2007 (T)
Região: Tejo (Muge)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 13%
Casta: Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 9,45 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

No meu copo 434 - Grand'Arte, Touriga Nacional 2008

Voltamos aos vinhos monocasta de Lisboa e Vale do Tejo, e voltamos à região de Lisboa para revisitar a DFJ, uma das empresas que continuam a apostar nos tintos de casta única.

Neste caso abrimos uma garrafa de Touriga Nacional de 2008, que tinha sido adquirida em 2009 com um dos números da Revista de Vinhos. Cerca de 6 anos e meio depois da colheita, portanto. Apresentou-se um vinho robusto, poderoso, complexo, bem estruturado na boca e com final prolongado. Taninos bem presentes conferem-lhe alguma adstringência, denotando que ainda poderia repousar mais uns anos na garrafa, pois estava muito vivo e com algumas arestas por limar.

Não é o mais típico Touriga Nacional, fugindo um pouco às notas violáceas, conquanto tenha mostrado que estava ali para durar e bater-se com pratos de carne bem temperados e exigentes.

Não sendo encantador, não deixa ficar mal a nova vaga de vinhos da renovada região de Lisboa, mostrando que é possível obter aqui vinhos com perfis muito diversos mas de qualidade inquestionável e que podem projectar o nome da região para um patamar bem acima. Os agentes do sector têm feito por isso.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Grand’Arte, Touriga Nacional 2008 (T)
Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: DFJ Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Na minha mesa 433 - La Brasserie de l'entrecôte

  

Conheci este restaurante há uns 20 anos, nem sei bem quando. Só existia um, o original, na Rua do Alecrim junto ao Largo Camões, ao Chiado. Fui lá algumas vezes com o tuguinho e com o saudoso Mancha e desde sempre, sendo nós uns carnívoros incorrigíveis, aquele entrecôte coberto com o molho especial cheio de especiarias fez as nossas delícias. Aliás, foi por esse prato, único na ementa, que o restaurante se tornou conhecido.

Passaram-se mais de 10 anos desde a última vez que lá fui. Entretanto foram aparecendo outras instalações do mesmo restaurante. A primeira que vi foi na marina de Cascais. Depois tomei conhecimento de outra no Campo Pequeno numa visita a um certame qualquer, e entretanto fiquei a saber que há outra no Parque das Nações e mais um no Centro Comercial Amoreiras. Isto só em Lisboa, pois ainda há mais um no Porto. É o sinal dos tempos. Se até a tradicional Portugália já tem cervejarias por tudo quanto é sítio, até em centros comerciais...

Aproveitando o dia dos namorados destes resolvi ir jantar a um destes restaurantes. Telefonei para o do Parque das Nações a reservar mesa numa 4ª feira para o sábado seguinte, e estava esgotado! Tentei então o do Campo Pequeno, e lá conseguimos uma mesa para quatro.

A ementa está ligeiramente estendida, com um bife de seitan em alternativa ao entrecôte, e na entrada existe agora uma alternativa à salada de alface e rúcula, constituída por salmão fumado. Todos optámos pela salada tradicional e pelo entrecôte com molho brasserie.

O segredo deste bife, regado com um delicioso molho, para além da qualidade superior da carne reside no tempero usado no molho, com 18 condimentos e especiarias. Para acompanhar apenas batatas fritas, em palitos fininhos e tenros, que se vão comendo sem dar por isso. As doses são generosas, de tal forma que ainda sobrou carne...

Para sobremesa vieram um sorbet de limão e um bolo fondant de chocolate com gelado.

Serviço irrepreensível, rápido, eficiente, atencioso, tudo corre sobre rodas. A decoração deste restaurante incide em fotos de Paris a preto e branco, a fazer jus à inspiração francesa do bife. Nada como visitar o site do restaurante para descobrir as variantes entre as diversas instalações.

A garrafeira, não sendo muito vasta, cobre opções suficientes para todas as preferências. Para acompanhar a refeição escolheu-se um Paço dos Cunhas de Santar 2010, que já conhecíamos e esteve perfeito com o prato. Como não há meias-garrafas e o vinho não foi suficiente, acabou-se por pedir um reforço a copo: um de branco Quinta de Bajancas (Douro) e um de tinto Herdade da Pimenta (Alentejo), que complementaram a função a preceito.

No final sai-se plenamente satisfeito e saciado, e assim se terminou em amena cavaqueira um dia dos namorados algo diferente.

Se gosta de bifes de vaca e ainda não experimentou este restaurante, reserve algum dinheiro e quando puder experimente. Verá que não se arrepende.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: La Brasserie de l'entrecôte
Localização: Campo Pequeno
Lisboa
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 4,5

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

No meu copo, na minha mesa 432 - Domingos Soares Franco Colecção Privada, Verdelho 2012; Vinha Grande tinto 2011; A Travessa do Rio (Lisboa)

  

No final do ano voltei a fazer uma incursão a um restaurante que frequento de vez em quando, A Travessa do Rio, em Benfica, para mais uma excelente refeição em grupo. Após várias indecisões nos pedidos, estes acabaram por recair em apenas dois pratos: um arroz de lagosta e um bife do lombo com pimenta acompanhado de batatas fritas e esparregado, apenas para mim e para o Pirata. E como o bife causou impacto! Os restantes comensais ficaram de olhos (e papilas também) arregalados com a suculência deste bife, que estava simplesmente divinal! Quem comeu o arroz de lagosta ficou com pena de não ter escolhido o bife...

Como habitualmente neste restaurante, tivemos um belíssimo repasto, bem comido e bem bebido, mantendo o nível a que nos habituou.

Quanto aos líquidos, a primeira opção foi para um branco enquanto nos entretínhamos com as entradas. A escolha recaiu num monocasta da José Maria da Fonseca, o Domingos Soares Franco Colecção Privada Verdelho 2012, que nunca nos deixa ficar mal. Com excelente acidez e aroma em que predomina um misto de frutos citrinos e tropicais, esta colheita apresentou-se com um grau alcoólico mais baixo que as anteriores, mantendo uma boa persistência e frescura e tornando-se mais leve e mais suave, muito guloso e apelativo. Apetece sempre beber mais um copo, e por isso houve que repetir garrafas.

Para o bife do lombo com pimenta escolhemos um Vinha Grande 2011, também uma aposta sempre segura. Esta versão apresentou-se um pouco mais robusta que o habitual, com muita concentração e álcool um pouco excessivo, tornando a prova inicial algo agreste. Foi necessário dar-lhe tempo para arejar e amaciar um pouco, quando se começaram a notar os aromas a frutos vermelhos, arbustos e folhas do bosque. Os taninos estão bem presentes e muito vivos, embora sem se tornarem demasiado agressivos, e a madeira está muito discreta sem marcar o vinho. Talvez dois ou três anos na garrafa o tornem mais elegante, dando-lhe um perfil mais próximo daquele a que nos habituou, em que predomina a elegância e a suavidade. No entanto não deixou de constituir uma boa escolha, que ligou perfeitamente com a carne.

Em suma, um restaurante e dois vinhos que não deixaram os seus créditos mal vistos, proporcionando um fecho de ano em beleza.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: A Travessa do Rio

Vinho: Domingos Soares Franco Colecção Privada, Verdelho 2012 (B)
Região: Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca Vinhos
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Verdelho
Preço em feira de vinhos: 8,95 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Vinha Grande 2011 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Franca, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 8,45 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Na Wines 9297 (3) - Caves São João

  
  

Aproveitei um fim de tarde mais aliviado para me deslocar novamente à Wines 9297, para mais uma prova de vinhos das Caves São João, que nos últimos meses tem sido presença assídua em provas em Lisboa. No entanto, os vinhos são tão encantadores que, mesmo já conhecendo quase todos os que são apresentados nas provas, é sempre um prazer renovado voltar a prová-los.

Desta vez em prova estiveram um espumante Quinta do Poço do Lobo, na colheita mais recente, assim como o Quinta do Poço do Lobo Arinto-Chardonnay. O espumante está muito agradável, suave e refrescante, enquanto o Poço do Lobo, com as mesmas castas e alguma madeira, mostra alguma estrutura sem deixar de ser macio e com boa acidez. No capítulo dos brancos ainda houve oportunidade de provar o Porta dos Cavaleiros 1979, do qual foram abertas 3 garrafas e todas estavam diferentes, com estádios de evolução muito díspares. Duas delas bastantes oxidadas, outra muito mais elegante e jovem.

Nos tintos esteve o clássico Caves São João Baga-Touriga Nacional, com a nova rotulagem que substituiu o antigo rótulo de cortiça. Um vinho ainda com muito para evoluir e amaciar, pois estava muito vibrante e ainda algo adstringente.

Continuando na senda dos vinhos comemorativos dos 100 anos da casa, provou-se o Caves São João 93 anos de história, um Touriga Nacional do Dão, concentrado, aromático, estruturado, com potencial para envelhecer uns 20 anos. Comprou-se uma garrafa que promete muito para daqui a uns anos...

No capítulo dos vinhos antigos, um Porta dos Cavaleiros 1985, que após algum arejamento apareceu com toda a suavidade típica do Dão, mas para mim a grande estrela foi, mais uma vez, o Quinta do Poço do Lobo Reserva 1995. Simplesmente delicioso! Já tínhamos provado uma garrafa num repasto, e parece que agora ainda gostei mais dele. Tivemos oportunidade de provar diversas colheitas deste vinho nos últimos eventos e sempre nos encantou. Irresistível, e os preços são imperdíveis!

Como habitualmente, valeu a pena fazer um esforço para comparecer. Vale sempre. As Caves São João, agora que têm vindo pouco a pouco a trazer para o mercado os seus vinhos antigos, estão de novo em grande!

Obrigado à gerente Célia Alves por mais esta belíssima prova que nos proporcionou.

Kroniketas, enófilo esclarecido

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Daowinelover - The best of Dão


Decorreu no passado dia 31 de Janeiro mais um evento por iniciativa do grupo #daowinelover, novamente no restaurante Claro, desta vez com o tema “The best of Dão”. O objectivo era que cada produtor presente levasse alguns dos seus melhores vinhos, que poderiam ser degustados ao longo da tarde em prova livre, até à chegada dos acepipes para forrar o estômago, lá mais para o anoitecer.

Já houve outros encontros com produtores que desta vez não estiveram presentes, tendo sido notadas algumas ausências de alguns produtores habituais. Da lista de presenças indicada na imagem não compareceu Júlia Kemper.

Quase à última hora surgiram arranjar duas vagas com que já não contávamos (quando nos apercebemos da realização do evento as inscrições já tinham fechado), e assim a dupla que vai mantendo este blog mais ou menos vivo pôde deslocar-se ao local para fazer as despesas das provas e das conversas.

Dos produtores presentes tivemos oportunidade de provar quase tudo. Nos brancos não nos faltou nenhum, enquanto dos tintos saltámos alguns, pois a ingestão de álcool, ainda que em quantidades reduzidas, já estava a fazer sentir os seus efeitos lá para o fim da tarde.

Mais do que entrar em considerandos específicos sobre cada vinho, que nestas ocasiões não gostamos muito de fazer, o que há a destacar é a elevada qualidade dos vinhos presentes. Nos brancos o destaque foi para o contingente de monocastas feitos de Encruzado, que curiosamente nos permitiu verificar como diferentes produtores podem fazer vinhos tão distintos a partir da mesma casta. Nuns casos mais mineral, noutros mais frutada, nalguns casos mais estruturada e noutros casos mais suave. Uma casta multifacetada, mas que marca os vinhos de forma indelével. Muito interessante a comparação de duas colheitas, 2009 e 2013, da Casa de Mouraz, em que gostámos mais da mais antiga, com excelente evolução e muita macieza. Destaque também para uma amostra de cuba dum 2014 ainda não rotulado da Quinta das Marias, também um Encruzado que encantou toda a gente.

Nos tintos havia desde colheitas muito novas até outras com mais de 10 anos, havendo mesmo um Garrafeira de 1997 das Terras de Tavares. O que se realça, contudo, mais do que no evento dedicado apenas à Touriga Nacional, é que nos vinhos de lote e, sobretudo, nos vinhos com alguma idade, está bem patente toda a elegância a suavidade que era habitual caracterizarem os tintos do Dão. Alguns dos que provámos fizeram lembrar os que bebíamos nos anos 90, quando ainda não tinha chegado a moda dos superfrutados, superconcentrados e superalcoólicos. Aliás, uma parte significativa dos produtores apresentou precisamente vinhos de lote e de colheitas com alguns anos.

Pudemos assim apreciar alguns dos melhores e mais representativos vinhos do Dão, numa jornada descontraída e agradável, onde reencontrámos uma boa parte dos comparsas habituais. Mais uma vez obrigado aos organizadores do costume, Pingus Vinicus e Miguel Pereira, e ficamos à espera do próximo.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

No meu copo 431 - Quinta de Pancas, Cabernet Sauvignon 2007

Depois da prova do Cabernet Sauvignon em versão ribatejana da Fiúza, provámos a versão estremenha da Quinta de Pancas, uma das marcas há mais tempo implantadas no mercado nesta versão monocasta.

Ligeiramente apimentado, com um certo aroma a pimentos verdes (o tal...), apareceu macio e algo delgado no início, parecendo pouco encorpado. Depois desenvolveu aromas e estrutura, mostrou-se robusto e persistente e com potencial para durar ainda mais tempo em garrafa, ainda com uma certa adstringência a marcar o conjunto. Na comparação com a versão ribatejana da Fiúza, preferimos aquela, pois mostrou-se mais equilibrada.

Este Quinta de Pancas, embora mais robusto, esteve demasiado marcado pelo tal aroma a pimentos verdes, que se impôs de certa forma no conjunto. Tendo em conta a idade do vinho, provavelmente já não iria melhorar.

De notar que recentemente verificaram-se algumas alterações estruturais de fundo na Companhia das Quintas, onde se enquadrou a venda da emblemática Quinta da Romeira, em Bucelas. Não sabemos o que se vai seguir, mas no momento em que este post é publicado, tanto quanto sabemos, a Quinta de Pancas continua a pertencer ao universo da Companhia das Quintas. Qualquer desactualização desta informação não é da nossa responsabilidade, pelo que pedimos a devida compreensão aos leitores.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta de Pancas, Cabernet Sauvignon 2007 (T)
Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: Quinta de Pancas - Companhia das Quintas
Grau alcoólico: 13%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 7,45 €
Nota (0 a 10): 7,5

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

No meu copo 430 - Fiúza: Alvarinho 2013; Cabernet Sauvignon 2012; Touriga Nacional 2012

Aproveitando uma das ocasiões festivas do final de ano, fizemos uma abertura de garrafas da Fiúza para provar 3 vinhos monocasta, um branco e dois tintos.

O Alvarinho, uma casta que tem migrado do Minho para todo o sul do país, apresentou-se suave e elegante na boca, com boa acidez, alguma mineralidade e aroma algo discreto. As notas tropicais habituais na casta quando vinificada na região dos Vinhos Verdes não estavam muito presentes e não mostrou grande exuberância, embora não deslustrasse. Um vinho agradável, sem ser excelente.

Depois passou-se aos tintos, onde experimentámos um Cabernet Sauvignon e um Touriga Nacional. O primeiro fez muito melhor figura que o segundo, embora fossem do mesmo ano.

De cor carregada, encorpado e bem estruturado, macio e pouco adstringente, aromático, persistente e longo, mostrou estar óptimo para beber, embora pudesse aguentar mais tempo em garrafa, mas estava num ponto óptimo de consumo. Mostrou todas as qualidades do Cabernet Sauvignon sem revelar nenhum dos seus defeitos. Dos famosos pimentos verdes, nem sombra; antes apresentou notas de frutos vermelhos e pretos bem maduros, com um final marcado por alguma especiaria. Bem integrado com a madeira, sem que esta se sobrepusesse ao conjunto, dando-lhe apenas o equilíbrio e a estrutura necessárias e suficientes. Muito bem. Justificou estar nas nossas escolhas.

Quanto ao Touriga Nacional, apresentou-se ainda demasiado jovem para consumir. Com predominância floral e a compotas, com as habituais notas a violetas, mostrou-se algo áspero, rugoso e pouco harmonioso, com os taninos a precisar de arredondar arestas na garrafa. Tem potencial para melhorar, ficando por saber onde poderá chegar. Em todo o caso, não pareceu poder chegar tão alto como o Cabernet Sauvignon.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Fiúza & Bright

Vinho: Fiúza, Alvarinho 2013 (B)
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Fiúza, Cabernet Sauvignon 2012 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,12 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Fiúza, Touriga Nacional 2012 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Na minha mesa 429 - Restaurante Bem-Haja (Nelas)

     
 

No regresso a casa, uma passagem há muito desejada por um dos restaurantes de referência da região: o Bem-Haja, em Nelas. Cheguei cedo, com o restaurante ainda vazio. Sentei-me numa mesa perto da entrada, mas estrategicamente colocada junto à janela.

Sala ampla, em tons de pedra e decoração onde predomina o vermelho, com duas mesas de buffet logo depois de franqueada a porta de vidro que dá acesso à sala de refeições: uma com entradas, queijos e doces, e outra com sobremesas. A meio da sala, uns degraus que dão acesso a outra sala, para fumadores, onde existe ainda outra porta de vidro que guarda a vasta garrafeira.

A ementa é vasta e aliciante, mas desde logo somos aconselhados com as sugestões do dia. E como era a sugestão do dia, lá optei pelo inevitável cabrito assado no forno, acompanhado com batatinhas assadas, arroz de miúdos e esparregado. Muito bom, apaladado, e uma meia dose em quantidade que não consegui terminar.

Mais uma vez tive de optar pelo vinho em formato reduzido. Não havendo meias-garrafas, foi-me colocada a opção do vinho a copo (por 3,5 €), tendo à disposição o Pedra Cancela, que curiosamente tem a adega situada a poucas dezenas de metros dali. Assim fiz, e ainda tive de pedir um segundo cálice para acompanhar a refeição.

Finalmente, uma visita ao buffet de sobremesas, onde escolhi umas colheradas de arroz doce e um bolo de chocolate com textura de mousse, muito bom.

Ambiente discreto e requintado, alegre e vivo, mas recatado. Tudo se passa sem espalhafatos, discretamente e quase em silêncio. Serviço rápido, simpático e competente. Confecção irrepreensível em todas as vertentes.

Estamos a falar dum restaurante já de nível acima da média, mas pela qualidade que apresenta o custo da refeição não é excessivo. Compreende-se a procura que tem, e quando de lá saí já a sala estava praticamente cheia, com a chegada de vários grupos, em que predominam as famílias.

No final saí plenamente satisfeito e só apeteceu dizer... bem-haja. E ficou a vontade de voltar, naturalmente.

No regresso a casa, e estando em Nelas, ainda tive tempo de descobrir onde é o famoso Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão e tirar umas fotos, que estão no final deste post.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Bem-Haja
Rua da Restauração, 5
3520-069 Nelas
Telef: 232.944.903
Preço por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4,5


  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Na minha mesa 428 - Restaurante 3 Pipos (Tonda)

  
 

No caminho de ida para Viseu, para a entronização dos novos confrades, fiz uma pausa no trajecto para almoçar no restaurante 3 Pipos, em Tonda, a caminho de Tondela.

Ambiente familiar, quase rústico, pratos regionais e caseiros, variados. Serviço rápido, simpático e competente. Além do inevitável cabrito, tínhamos como opção um arroz de míscaros e alguns pratos bastante apelativos, mas o funcionário que me atendeu recomendou-me o arroz de míscaros. Assim fiz e não fiquei nada mal servido.

O arroz veio malandrinho, caldoso, com bocadinhos de carne e os famosos míscaros laminados, muito bem temperado. Não resisti a esvaziar a travessa até ao fim.

Já saciado com o prato principal, não deixei de olhar para a montra de doces, na sala de entrada, que estava bastante bem recheada. Havia uma mousse de chocolate bastante atractiva, mas optei pelas Trapalhadas, que acaba por ser o mais ou menos tradicional doce às camadas, que se vê um pouco por todo o lado com as mais diversas designações.

Não querendo beber muito vinho, uma vez que tinha a viagem para completar, pedi ½ jarro de vinho da casa, que agradou. Suave e macio, um tinto típico do Dão por 3 €. Serviu para a função.

Para além da sala onde me sentei, há uma outra sala maior, mais para dentro, que estava repleta e bastante mais barulhenta que a primeira. Na sala de entrada, bastante espaçosa e onde está situado o balcão, fica localizada, à direita, a loja do restaurante, onde se pode comprar vinho e outros produtos regionais.

No final, uma refeição calma, agradável e satisfatória, em ambiente ameno e representativo da boa gastronomia da região. Este 3 Pipos é bom, não é caro e recomenda-se.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: 3 Pipos
Rua de Santo Amaro, 966
Tonda
3460-479 Tondela
Telef: 232.816.851
Preço por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5