quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Na minha mesa 782 - Marisqueira Martroia (Setúbal)



Uma incursão às margens do Sado levou-nos à marisqueira Martroia, próximo dos limites da cidade em direcção à Arrábida.

Trata-se dum espaço moderno, não muito amplo (com espaço para cerca de 50 pessoas), de ambiente relativamente reservado no dia em que lá estive (um domingo à noite). Presume-se que em horários mais movimentados a casa fique cheia e o panorama mude radicalmente.

No que interessa relativamente ao que nos levou lá, parece ser um maná para os fãs de marisco. Há um pouco de tudo, inclusive uma tábua de marisco que inclui desde choco frito a ostras… Há várias opções interessantes para grupos numerosos e comilões.

A ocasião, com 3 pessoas, não era propícia para grandes comezainas, pelo que os pedidos foram contidos. Choco frito (obrigatório) com batatas fritas, camarões ao alhinho, ameijoas à Bulhão Pato e pão torrado foram os petiscos escolhidos e foram perfeitamente satisfatórios, em quantidade e qualidade. Seguiu-se ainda um folhado com gelado e frutos silvestres.

Para acompanhar bebeu-se um singelo BSE, que fez o seu papel sem problemas.

Para primeira experiência, que não pode ser tomada como definitiva, as impressões foram boas. Parece ser um local que mereça uma visita mais demorada e ser explorado com mais detalhe. Pelo menos a ementa promete.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Marisqueira Martroia
Rua da Saúde, 116
8500-492 Setúbal
Telef: 937.033.862
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 10): 4,5

domingo, 18 de agosto de 2019

Atrelados à Ravasqueira - III Edição (2ª parte)



O segundo dia começa com o pequeno-almoço na mesma sala onde se jantou na véspera. Seguir-se-ão as visitas guiadas, que constituirão outro ponto alto da nossa passagem por lá.

O percurso começa pelas várias casas que por ali existem, desembocando na sala dos Atrelados, que alberga uma vasta colecção de coches desde o tempo na monarquia, impecavelmente conservados. Existem modelos de todos os tipos e feitios, até alguns chamados coupé, uma designação que ainda hoje se mantém para os automóveis. Alguns detalhes que podemos observar naqueles veículos viajaram até aos nossos dias, tendo alguns conceitos surgido nestes modelos.

As corridas de atrelados eram uma paixão antiga dos proprietários, tendo a empresa conseguido sagrar-se campeã mundial em 1996, em Waregem (Bélgica), e vencido a Taça Ibérica de Atrelagem em 2006 em Portugal.

O percurso segue para as vinhas, que começaram a ser plantadas em 1998. Em 2001 realizou-se a primeira vindima e em 2003 foi lançado o primeiro vinho com a marca Monte da Ravasqueira, da colheita de 2002.

São 45 hectares dedicados à vinha em 29 talhões 8 tipos de solo diferenciados. Passamos pela famosa Vinha das Romãs e durante este passeio é-nos chamada a atenção para a quantidade e relevância de produtores de vinho sediados sensivelmente ao longo dum eixo longitudinal que vai desde Montemor-o-Novo até Elvas, passando pelas sub-regiões de Évora, Borba, Redondo e Reguengos.

De facto, estas quatro sub-regiões, numa área de aproximadamente 50 km de alto por cerca de 40 km de largo, concentram uma parte significativa dos produtores e dos vinhos mais emblemáticos do Alentejo, incluindo-se aqui alguns que estão fora da área de denominação DOC, como a Tapada de Coelheiros (ver mapa em cima).

Significa isto que, nesta faixa, existirão condições muito particulares para a produção dos vinhos mais típicos do Alentejo. Não por acaso, aqui surgiram algumas das primeiras adegas cooperativas e metade das sub-regiões demarcadas da região.

Em 2017 houve um reposicionamento de algumas marcas no mercado, com criação de novas gamas e ajustamento de preços. Foi com essas novas gamas que ainda fomos presenteados antes de dar por finda a jornada. Cada um dos convidados presentes teve direito a 8 garrafas de vinho para levar para casa, das gamas Clássico, Superior e Seleção do Ano. Desses vinhos teremos oportunidade de falar em seguida, pois uma tal quantidade justifica um artigo separado.

No final desta visita, só nos resta agradecer à equipa do Monte da Ravasqueira que nos acompanhou, a simpatia com que fomos tratados e tudo o que nos proporcionaram – alojamento, alimentação, transporte, visita e ofertas! Não poderíamos esperar mais.

Uma palavra especial de agradecimento à Carlota Burnay, que estabeleceu os contactos e fez os convites.

Quanto aos outros convivas, um cumprimento para todos os que já conhecia e tive oportunidade de rever, e para os que conheci de novo, e que proporcionaram um animado convívio.

Obrigado por partilharem este mundo tão interessante, e que tão bons momentos tem proporcionado.

Kroniketas, enófilo itinerante

sábado, 17 de agosto de 2019

Atrelados à Ravasqueira - III Edição (1ª parte)


Mais um evento que ficou lá para trás, e que agora em período de férias é tempo de pôr em dia.

Estamos no Monte da Ravasqueira, no coração do Alentejo, em Arraiolos, distrito de Évora. Em termos geográficos, é quase o centro de toda a região transtagana, com Évora a ficar mais ou menos a meio caminho entre o ponto mais a sul, no distrito de Beja, e o ponto mais a norte, no distrito de Portalegre.

Trata-se dum evento denominado “Atrelados à Ravasqueira”, para o qual fui convidado juntamente com um grupo de enófilos, jornalistas e bloggers... mas não é apenas mais um evento para provar vinhos, porque este tem mais que se lhe diga: inclui transporte de ida e volta (que por sinal não utilizei porque aproveitei a ocasião para ficar mais algum tempo na região), jantar e prova de vinhos, serão musical, visita à herdade e alojamento até ao dia seguinte, e pode-se levar companhia. É uma espécie de pacote de enoturismo completo!

Estamos no Outono, pelo que a chegada faz-se já de noite. Somos desde logo recebidos amavelmente recebidos pelo simpatiquíssimo João Vilar, responsável de marketing e vendas, que nos guia desde logo para os nossos aposentos e nos indica para onde nos devemos dirigir em seguida. O transporte colectivo ainda não chegou...

Já com todos os presentes, passamos à sala de refeições, onde o portefólio de vinhos da empresa está exposto, e onde vamos provando daqui e dali enquanto se debica algumas entradas. Aqui conhecemos toda a equipa presente (nomeadamente o enólogo Pedro Gonçalves), e entre conversas vai-nos sendo contada a história deste empreendimento, deste a sua aquisição por D. Manuel de Mello em 1943 para casa de família, bem como as diversas valências da propriedade, em que a produção de vinho é apenas uma das facetas, a par com a criação do Cavalo Lusitano e a participação em prova de atrelagem.

Começa-se pelo espumante Grande Reserva, mas um dos destaques é o rosé MR Premium, um vinho de qualidade superior e com uma complexidade pouco habitual dentro do género. O preço de venda ao público (mais de 25 €) corresponde...

Outro dos destaques é o conhecido Vinha das Romãs, que teremos oportunidade de degustar durante o jantar que se vai seguir daí a pouco.

Neste servimo-nos dos líquidos e dos sólidos à discrição, e como não se trata duma prova orientada, com vinhos específicos para cada prato, vão desfilam brancos e tintos como o Viognier, o Sauvignon Blanc, o Touriga Franca e o já referido Vinha das Romãs, entre outros. Para cada prato, dois ou três vinhos diferentes à procura das melhores harmonizações e daqueles que melhor expressam o carácter da região, enquanto as conversas fluem à volta da mesa onde se sentam 20 mastigantes. As notas de prova terão de ficar para outra ocasião...

Já adiantados na hora, e depois duma deliciosa sobremesa de chocolate e dos cafés, dois cantores (um português e um espanhol) acompanham-se à guitarra e animam o resto do serão.

Mais logo é hora de nos dirigirmos aos quartos com casa de banho privativa, decorados à moda rústica mas com requinte. Tudo está escrupulosamente preparado para nos sentirmos em casa. Amanhã o programa continua.

Kroniketas, enófilo itinerante

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Quinta do Sanguinhal - Vinhos de Ouro à prova



Quinta de São Francisco tinto, o vinho com denominação DOC Óbidos mais vendido em Portugal e nos mercados de exportação, granjeou até hoje mais de 60 medalhas, tendo obtido 98 pontos no San Francisco International Wine Competition em 2017.

Para assinalar este feito, a Companhia Agrícola do Sanguinhal promoveu um encontro com alguns convidados para apresentação de vários vinhos da gama da Quinta do Sanguinhal (localizada no Bombarral), acompanhados da degustação de alguns petiscos.

Foram provadas 5 colheitas das últimas três décadas do Quinta de São Francisco tinto, com a presença do enólogo Miguel Móteo (formado na UTAD) que fez a apresentação dos vinhos. Foi também apresentada a restante gama da Quinta de São Francisco, nomeadamente licorosos, aguardentes e colheita tardia.

Fundada em 1871, a Quinta de São Francisco tem a maior área de vinha das propriedades da Companhia Agrícola do Sanguinhal – cerca de 50 ha num total cerca de 100 ha, incluindo a Quinta das Cerejeiras e a Quinta do Sanguinhal. A história desta última está ligada a um nome famoso no mundo dos vinhos, Abel Pereira da Fonseca, que em 1926 fundou a Companhia Agrícola do Sanguinhal, actualmente gerida pelos seus descendentes.

Todos os vinhos, das três marcas, com a designação “Quinta” são produzidos como DOC Óbidos. As quintas do Sanguinhal e das Cerejeiras têm solos argilo-arenosos. Actualmente são produzidos 7 tintos da Quinta de São Francisco, com predominância da casta Castelão, com estágio em madeira.

Relativamente aos vinhos provados, segue-se um pequeno apontamento com as impressões colhidas acerca dos mesmos.


  • 1994 – 50.000 garrafas. Mais de 80% Castelão. Laivos acastanhados, aberto, alguma doçura, boa acidez e vivo na boca, aroma limpo, algum balsâmico
  • 1997 – Bastante vivo e prolongado, aroma ainda intenso
  • 2000 – Mais redondo e liso, um toque especiado no final. Um toque de Cabernet Sauvignon em destaque
  • 2005 – Touriga Nacional e Aragonês. Algum balsâmico, canforado
  • 2010 – 100.000 garrafas, muito redondo e suave, mas algo curto e liso
  • 2014 – Concentrado, fechado, pouco exuberante
  • 2015 – Bastante intenso na prova de boca, explosão de aromas e sabores. O vinho mais em destaque na prova.
  • Licoroso branco seco – Fernão Pires, Arinto e Vital. Cor alaranjada
  • Licoroso tinto – Doce de cor tawny velho, âmbar, com mistura de castas: Tinta Miúda, Castelão, Aragonês, Touriga Nacional
  • Colheita Tardia – Cítrico, limonado. Provado e referido noutro post


No final ainda fomos presenteados com uma garrafa do Quinta de São Francisco Colheita Tardia, que entretanto já tivemos oportunidade de provar e referir noutro post.

Passado já este período sobre o evento, é ainda tempo de agradecer à equipa da Companhia Agrícola do Sanguinhal pela recepção que nos foi proporcionada, bem como a visita às instalações da Quinta e pela oferta.

Uma palavra especial para o consultor de comunicação Nuno Nobre, que teve a gentileza de me enviar o convite.

A todos muito obrigado, e há um Quinta de São Francisco à espera de ser bebido...

Kroniketas, enófilo itinerante

Companhia Agrícola do Sanguinhal
Apartado 5
2544-090 Bombarral

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Masterclass Arinto - Quinta das Carrafouchas



Quinta das Carrafouchas, localizada ao pé de Loures, na região demarcada de Bucelas.

Algures no tempo, numa Primavera recente, tive oportunidade de ali me deslocar, às portas de Lisboa, onde pude conhecer o enólogo Hugo Mendes, produtor recente dos vinhos HM Lisboa que têm merecido rasgados elogios da crítica especializada.

O evento foi organizado pela Emília Freire e contou com a presença de vários enófilos que conheço destas andanças por provas e blogues, e pretendeu-se conhecer uma gama alargada de vinhos à base de Arinto, com destaque para os elaborados na sua região de excelência.

Ao longo da tarde foi possível provar diversos petiscos com diferentes vinhos que nos mostraram as várias facetas que o Arinto pode ter. Provaram-se vinhos, literalmente, desde o Minho (Covela - Edição Nacional) ao Algarve (Cabrita - Native Grapes).

Mais do que a descrição dos vinhos, que num evento desta natureza tem pouca relevância, a parte mais interessante é a percepção de como a casta de comporta em função do terroir e dos métodos de vinificação.

Há características que são dominantes, naturalmente sempre presentes. Em qualquer região, o Arinto funciona, de modo praticamente universal, como casta melhoradora.
A acidez está sempre presente e traz vivacidade para onde por vezes ela falta. As notas cítricas e minerais, tanto no aroma como no sabor, são outras características que aparecem de forma mais ou menos universal.

Por outro lado, percebe-se que são vinhos que resistem bem ao tempo. Alguns anos de envelhecimento em garrafa não tiram personalidade à casta, pelo contrário. A este propósito, Hugo Mendes referiu até o modo como o envelhecimento dos vinhos é referido noutros países: growing em Inglaterra, élevage em França, crianza em Espanha, o que significa que consideram que os vinhos estão a crescer enquanto envelhecem.

Também esse aspecto foi visível nos espumantes provados, um Quinta da Murta 2013 (11,5%), de Bucelas, e um Vale das Areias 2014 (12%), um regional Lisboa produzido na Labrugeira. A acidez é sempre um factor importante nos espumantes, e neste caso tornou-se bem evidente. Também o grau alcoólico é relevante, pois os vinhos produzidos têm predominantemente um grau moderado, longe de outros vinhos pesadões e enjoativos. E mesmo quando o álcool sobe, o vinho mantém a personalidade graças à sua acidez.

A relação com a madeira, como acontece dum modo geral com os brancos, tem de ser gerida com pinças, e talvez neste caso ainda mais. Um excelente exemplo é o Morgado de Sta. Catherina, da Quinta da Romeira, que atinge os 14º de álcool (o mais alcoólico em prova) e que no entanto consegue manter um registo muito vivo, com uma explosão de aromas e sabores a que se junta um volume de boca adicional que lhe é dado pelas notas de madeira.

Poderíamos juntar outro tanto texto ao que já está escrito para exaltar as qualidades do Arinto, mas a sua universalidade no país fala por si. A parte mais interessante desta prova, mais do que descobrir novidades, foi mesmo passar pelas várias nuances que os vinhos vão adquirindo. E a certeza de que é uma casta que se comporta bem em qualquer local, que dada a sua versatilidade não perde o seu ADN quando muda de região.

Obrigado à equipa da Quinta das Carrafouchas por nos ter recebido, ao Hugo Mendes pela aula e à Emília Freire pela organização.

Kroniketas, enófilo esclarecido