quarta-feira, 16 de Abril de 2014

No meu copo, na minha mesa 377 - Vinha do Putto 2009; Restaurante Salsa & Coentros

Há alguns anos, a convite dum familiar, conheci este restaurante, situado no bairro de Alvalade e quase em frente do Regimento de Sapadores Bombeiros da Avenida Rio de Janeiro, e não voltei a entrar lá desde então. Por circunstâncias diversas, agora passo várias noites por semana mesmo na esquina do restaurante no canto da rua. De tanto olhar para lá, e vê-lo sempre praticamente cheio, fui aguçando o apetite para lá voltar. Aproveitei uma ocasião de efeméride para ir lá fazer um jantar comemorativo em casal.

O ponto de partida deste restaurante, fundado por dois jovens cozinheiros provenientes de outros locais, é a comida alentejana. A carta é bem recheada no que respeita aos pratos típicos da vasta região: desde as entradas às sobremesas, passando pelas sopas e pelos pratos de caça, está lá um pouco de tudo o que caracteriza a cozinha alentejana.

Sendo eu um indefectível apreciador dos pratos de caça, a minha primeira escolha pendeu logo para o arroz de perdiz ou o arroz de lebre. Tratando-se de escolher dois pratos, e como não se esperava uma refeição muito volumosa, optámos por partilhar dois pratos: uma sopa de cação para entrada e um arroz de perdiz como prato principal. Ambos excelentes, muito bem apaladados. É difícil dizer qual dos dois estava melhor, porque não consigo encontrar defeitos em nenhum. O arroz de perdiz, claro, é uma das minhas paixões e estava malandrinho, cozido no ponto, perfeito.

Para terminar, outro doce incontornável entre a vasta oferta: uma encharcada de Mourão, com todos os requisitos.

Como a minha consorte não é grande consumidora, quando chegou à parte da escolha do vinho deparei-me com o problema habitual nestas circunstâncias: que vinho escolher e em que formato. À partida a opção iria recair sobre meia-garrafa, e havia diversas opções agradáveis. No entanto, vistos os preços e deparando-me com um vinho da casa praticamente ao mesmo preço das meias garrafas (variavam entre os 7 e 8 €), e sendo uma garrafa de 7,5 dl, acabei por escolhê-lo, sabendo que o que sobrasse na garrafa seria levado para casa. Tratava-se dum vinho de Carlos Campolargo, chamado Vinha do Putto e com o qual só me tinha cruzado há uns anos num winebar, na altura numa garrafa de branco.

Fiquei satisfeito com a escolha. Não sendo extraordinário, o vinho está bem concebido, é frutado com um toque inicial a amoras, bem estruturado e com alguma robustez, com final persistente mas arredondado. Não muito marcado pela madeira e sem que os seus 14% de álcool se sobreponham ao equilíbrio do conjunto. Não deslustra e tem um toque de modernidade que pode torná-lo apelativo para os mais resistentes aos tintos bairradinos.

Para os apreciadores da boa comida, de bom serviço e simpatia e, em particular, de comida alentejana, este Salsa & Coentros é um local que se recomenda e que merece ter sucesso. Uma equipa jovem, rápida, eficiente, atenciosa mas sem exageros nem demasiados salamaleques nem complicações faz um restaurante de ambiente descontraído onde o cliente se sente à vontade e é bem servido sem estar sempre a ser vigiado.

Em família ou em grupo, hei-de voltar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Vinha do Putto 2009 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Grau alcoólico: 14%
Castas: não indicadas; conforme os anos, todas ou algumas das seguintes: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Syrah e Merlot (indicação no site do produtor)
Preço: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante: Salsa & Coentros
Rua Coronel Marques Leitão, 12
1700-125 Lisboa
Tel: 21.841.09.90
Preço médio por refeição: 25-30 €
Nota (0 a 5): 4,5

sábado, 12 de Abril de 2014

No meu copo 376 - Paulo da Silva Colecção Privada 1990

Uma segunda visita à Wines 9297, para adquirir mais umas garrafas do Casal da Azenha 2010, que tanto agradou, deu-me a possibilidade de encontrar à venda um vinho do mesmo produtor que há cerca de 20 anos se tornou quase mítico nas nossas surtidas a alguns restaurantes: o Paulo da Silva Colecção Privada, que pudemos degustar com frequência durante a década de 90, até deixar de se ver os vinhos de Colares tanto nos restaurantes como nas prateleiras.

Aproveitando a ocasião, trouxe duas garrafas deste outro exemplar de outra época, tratando desde logo de abrir uma delas. E deve dizer-se que o vinho não desiludiu minimamente. Apresentou uma cor rubi carregada, sem sinais de demasiada evolução nem na cor nem no aroma, que se mostrou ainda com alguma frescura, com bouquet profundo e aromas terciários a libertarem-se após algum tempo no copo. Na boca apresentou alguma delicadeza, com estrutura média e alguma persistência.

Sem dar mostras de declínio, pareceu estar para durar, pelo que pode ser uma aposta para aguentar mais uns anos na garrafa. E como recentemente têm estado a aparecer algumas garrafeiras a apostar em vinhos velhos, talvez venhamos ainda a repetir com outras colheitas. Ainda há poucos dias descobri na garrafeira Estado d’Alma, em Alcântara, um verdadeiro maná de vinhos antigos a preços irresistíveis...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Paulo da Silva Colecção Privada 1990 (T)
Região: Colares
Produtor: António Bernardino Paulo da Silva
Grau alcoólico: 12%
Castas: João de Santarém, Tinta Miúda, Periquita
Preço: 5,90 €
Nota (0 a 10): 7,5


PS: O contra-rótulo menciona na composição as castas acima indicadas, sendo que actualmente se considera que a Periquita era a antiga designação da casta Castelão e João de Santarém era a mesma designação nas regiões de Ribatejo e Estremadura. Apesar desta incongruência, mantivemos a menção às designações indicadas na garrafa.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

No meu copo 375 - Casal da Azenha 2010

A região demarcada de Colares tem sido teimosamente resistente ao desaparecimento, um pouco à semelhança da micro-região do generoso de Carcavelos.

Em tempos idos, algumas décadas atrás, teve a sua época de notoriedade, mas a pouco e pouco estes vinhos produzidos paredes meias com a serra de Sintra foram-se tornando cada vez mais raros nas prateleiras. Praticamente dois nomes mantiveram a região afastada do completo esquecimento: a Adega Regional de Colares e António Bernardino Paulo da Silva, um produtor sediado em Azenhas do Mar. Nos últimos anos outros produtores (re)descobriram a região e começaram a apostar na produção de vinho no célebre chão de areia. Destacam-se a Fundação Oriente e o Casal de Santa Maria.

Na época em que se encontrava vinho de Colares à venda no comércio ou nos restaurantes, os vinhos da marca Paulo da Silva passaram pelas nossas mesas em variadíssimas ocasiões. Recentemente, na minha primeira visita à garrafeira Wines 9297, para provar o Quinta do Corujão, por entre conversas diversas e dispersas fiquei a saber que o próprio Paulo da Silva tinha por lá passado e deixou umas garrafas deste Casal da Azenha de 2010. Um vinho recente mas com um rótulo ainda a lembrar tempos antigos.

O preço era apelativo, e a garrafa também. Como não sabia se aquela era exemplar único, resolvi trazê-la e não me arrependi. Num jantar de bifes, apetecia-me abrir qualquer coisa para acompanhar a carne e a curiosidade de experimentar esta quase raridade fez com que a escolha recaísse precisamente neste exemplar de Colares. Sabe-se que os vinhos de Colares costumavam primar por alguma aspereza em novos, mas que depois de amaciados se tornavam extremamente elegantes. Era essa a memória que tínhamos dos antigos vinhos de Paulo da Silva, e confirmou-se. O vinho apresentou-se muito macio na boca, elegante e suave, com um aroma profundo e exuberante. Final de persistência média a mostrar taninos macios.

Acaba por ser um vinho que de alguma forma surpreende, dado que não sabemos muito bem o que esperar dele. Já há bastantes anos que não provava um tinto de Colares, sendo que o último não o fora nas melhores condições, pelo que não tinha sido uma boa aferição para os vinhos da região. Este reencontro agradou-me bastante, e já tratei de pedir a reserva de mais garrafas do mesmo.

Dos vinhos de Colares que se pode dizer o mesmo que temos vindo a repetir acerca do Dão e da Bairrada: ainda bem que continua a haver quem faça estes vinhos diferentes, clássicos, fora de moda, para podermos beber vinhos com personalidade, estrutura, persistência e aroma, e não apenas os maçadores, monótonos e já quase insuportáveis “vinhos da moda”.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Casal da Azenha 2010 (T)
Região: Colares
Produtor: António Bernardino Paulo da Silva
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: não indicadas
Preço: 4,90 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

No meu copo 374 - Marquês de Marialva Reserva 2006

Segundo dados oficiais, a Adega Cooperativa de Cantanhede, fundada em 1954, é o maior produtor de vinho da Bairrada, com uma produção que representará 30 a 40% da produção global da região.

Os seus vinhos tintos com denominação DOC Bairrada, baseados na casta Baga, apresentam um perfil clássico e assentam em duas marcas de referência, o Conde de Cantanhede e o Marquês de Marialva. Posicionam-se habitualmente entre as gamas média e baixa de preços, conseguindo-se por valores bastantes acessíveis vinhos ainda assim agradáveis e fáceis de beber, mesmo para aqueles consumidores mais receosos em relação à adstringência da Baga.

Os exemplares que já aqui tivemos oportunidade de aqui descrever (ver a etiqueta AC Cantanhede na secção Contra-rótulos) confirmam esta tendência. Neste caso tratou-se dum exemplar adquirido em 2009, e que passados estes anos apresentou-se de perfeita saúde, amaciado pelo tempo mas com boa estrutura e aroma frutado ainda jovem, persistência média, cor rubi aberta e sem sinal de declínio.

Pelo preço que custa, é uma boa compra e um vinho que não deslustra dentro do padrão mais tradicional da região. É um dos que mantemos normalmente nas nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Marquês de Marialva Reserva 2006 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Adega Cooperativa de Cantanhede
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Baga (90%)
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 31 de Março de 2014

No meu copo 373 - Reguengos Garrafeira dos Sócios 2002

Depois dumas ensaboadelas dos chatíssimos, maçadores e monocórdicos “vinhos da moda”, de vez em quando sabe bem sair da modernidade e retomar os clássicos que repousam na garrafeira.

É o caso deste, uma referência incontornável nas nossas escolhas há muitos anos. Uma vez por ano, ou até mais espaçadamente, lá vamos abrindo uma ou duas garrafas para ver como ele está. Sabendo o risco que podemos correr em mantê-los tanto tempo guardados, a verdade é que na maior parte dos casos a espera compensa. E esta compensou, e de que maneira...

Desta vez houve o cuidado de decantar o vinho com cerca de uma hora de antecedência, colocá-lo na rua para arrefecer pois a temperatura interior estava algo elevada, e esperar pela hora de servir. Um dos aspectos que desde logo se notou foi a total ausência de qualquer depósito no fundo da garrafa, pelo que o vinho apresentou uma total limpidez após a decantação da totalidade do conteúdo.

Na cor, mostrou uma tonalidade granada não muito carregada, brilhante mas sem demasiados laivos de evolução, tão característicos pelo acastanhado que aparece na orla do vinho. Nada disso, nenhum sinal de envelhecimento precoce. O que cheirámos e provámos foi um vinho pleno de saúde, com um aroma tranquilo e profundo, um bouquet que se libertava lentamente, uma estrutura firme na boca mas com grande equilíbrio e macieza. Poderia estar ali para durar mais uns anos, mas mostrou estar num ponto óptimo de consumo.

Mais uma vez muito bem, não nos desiludiu e mostrou compensar a espera e as expectativas que nele sempre depositamos. Um clássico que vale sempre a pena revisitar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Reguengos Garrafeira dos Sócios 2002 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: CARMIM - Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Castelão, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 12,99 € (adquirido em 2009 - este preço já não corresponde aos valores actuais)
Nota (0 a 10): 8,5

quinta-feira, 27 de Março de 2014

No meu copo 372 - Cortes de Cima 2008; Aragonês 2005; Syrah 2008



Tendo em stock alguns vinhos deste produtor sediado na Vidigueira, escolhi uma ocasião em que fosse possível fazer uma prova comparada de várias garrafas. Estes estavam guardados há alguns anos, portanto com tempo para repousar e evoluir o suficiente para mostrar o que podem valer. De fora ficou um Homenagem a Hans Chrisitian Andersen 2007, para ocasião futura.

Em 2012 estive numa prova das Cortes de Cima na Delidelux, com 5 tintos e um branco, que no conjunto se mostrou um pouco decepcionante para aquilo que se esperava. É que este é, juntamente com o produtor referido no post anterior (Herdade da Malhadinha Nova), um dos produtores conceituados entre os mais modernos do Alentejo, sendo inclusive alvo de grandes encómios na imprensa especializada. A verdade é que, tal como aconteceu com a prova do Monte da Peceguina (e como já tinha acontecido noutra prova deste produtor também na Delidelux), começa a instalar-se em mim a sensação de que existem alguns produtores que caíram em graça, granjearam fama à sombra da qual cimentaram o nome, mas cujos produtos não o justificam. Começo a ter esta sensação também com as Cortes de Cima, depois de ter provado estes três vinhos, tendo confirmado esta mesma impressão numa recente prova na Wine O’Clock.

Não é minha intenção desmerecer o trabalho dos produtores e enólogos (quem sou eu, um amador, para o fazer?), mas enquanto consumidor que paga aquilo que prova, tenho direito à minha opinião que vai influenciar a minha decisão de compra...

Sobre estes três tintos há que dizer alguma coisa... O Cortes de Cima 2008, o standard da casa, digamos assim, pareceu um vinho normal. Equilibrado, medianamente estruturado e frutado, apresentou um fim de boca curto, aroma discreto e sem grande persistência.

Na posterior prova na Wine O’Clock, com a colheita de 2010, a sensação colhida foi a mesma. Tendo em conta que o preço de venda apresentado, 10,95 € (em feiras de vinhos consegue-se baixar 1 ou 2 euros), o pensamento que ocorre é algo como isto: por este preço, prefiro comprar um Casa de Santar Reserva, um Duas Quintas, um Vinha Grande, um Vila Santa ou um Casa Cadaval...

Seguiu-se a prova do Aragonês 2005. Este sim, mostrou um carácter alentejano, com boa estrutura e persistência, aroma exuberante e profundo, com predominância de frutos vermelhos e notas de especiarias. Na boca apresenta outra complexidade, com a fruta bem integrada numa estrutura de taninos firmes mas suaves. Envelhecido 7 meses em barricas de carvalho americano. Adquirido em 2010 a 9,98 €, o preço de referência apresentado na prova na Wine O’Clock para a colheita de 2011 vai para os 16,95 €! Aí já dá que pensar, porque estamos no patamar do Esporão Reserva... O mesmo se passa, aliás, com o Trincadeira 2011, também apresentado na mesma prova e com o mesmo preço. São os dois varietais que mais apresentam um carácter de Alentejo, embora me pareçam claramente inflacionados.

Finalmente, passámos ao Syrah 2008, também provado na Wine O’Clock com a colheita de 2011. E novamente a sensação repetiu-se nas duas ocasiões. Ao contrário dos grandes encómios do enólogo da casa, e ao contrário de alguns especialistas que apregoam o grande sucesso desta casta no Alentejo, este vinho pareceu-me, agora como antes na prova da Delidelux, linear, sem acidez, com pouca estrutura, chato... Poderia mesmo chamar-lhe uma verdadeira xaropada. E pelo preço que custa agora (o valor apresentado foi de 13,95 €), seguramente não voltarei a levá-lo para casa. Definitivamente, não é a referência para o Syrah em Portugal, apesar do grande sucesso do Incógnito que pôs o nome da casa nas bocas do mundo com base nesta casta. Mas essa será a excepção. Quando comparo este Syrah com o da Quinta do Monte d’Oiro, qualquer semelhança é mera coincidência.

Na Wine O’Clock pudemos ainda provar um Petit Verdot e um Homenagem a Hans Christian Andersen, também já provados na Delidelux, sendo o Petit Verdot o único verdadeiramente surpreendente e que promete um grande futuro em garrafa. Mas a 32,50 €, dificilmente entrarão na lista de compras, porque aqui estamos a falar de vinhos mais caros que o Quinta da Leda e o Duas Quintas Reserva...

Em resumo, o mercado manda, decide, e em função disso os produtores fazem os preços a que conseguem vender os seus vinhos. Mas há vinhos de certos produtores que me fazem lembrar aquela anedota que falava num restaurante de 2ª, com preços de 1ª e serviço de 3ª... É o que me parecem alguns dos novos produtores famosos do Alentejo...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Cortes de Cima

Vinho: Cortes de Cima 2008 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional e Petit Verdot
Preço em feira de vinhos: 8,94 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Cortes de Cima, Aragonês 2005 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Aragonês
Preço em feira de vinhos: 9,98 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Cortes de Cima, Syrah 2008 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Syrah
Preço em feira de vinhos: 10,61 €
Nota (0 a 10): 5

domingo, 23 de Março de 2014

No meu copo 371 - Monte da Peceguina 2010

Os poucos encontros que tive até à data com os vinhos desta casa não me deixaram particularmente encantado. A Herdade da Malhadinha Nova tem vindo a afirmar-se no panorama dos novos vinhos alentejanos, com uma forte componente de enoturismo (que chega ao requinte de incluir um SPA) a ajudar a alavancar o nome da casa.

Este Monte da Peceguina 2010, à semelhança de uma prova de outra colheita do mesmo vinho, mostrou o mesmo perfil de moderno frutado, mas continua a não me mostrar nada de particularmente novo ou aliciante. Aliás, já quando estive numa prova na Delidelux também fiquei com a sensação que as pretensões e os elevados preços praticados na casa não têm correspondência naquilo que se pode beber. Na sua maioria são vinhos de preços proibitivos que não justificam aquilo que custam.

Claro que este vinho é bom, é bem feito, segue todos os cânones da modernidade. Tem o tal perfil adequado para agradar aos fanáticos dos “vinhos da moda”. É fácil de beber, tem fruta para dar e vender e por isso salta imediatamente ao nariz quando o aproximamos do copo. Mas continuo a não lhe descobrir os encantos que se apregoam, nem aos outros vinhos da casa. Se calhar sou eu que ainda não os compreendi...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Monte da Peceguina 2010 (T)
Região: Alentejo (Albernoa - Beja)
Produtor: Herdade da Malhadinha Nova
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon
Preço: 9,5 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 19 de Março de 2014

No Chafariz do Vinho - Prova de vinhos da Real Companhia Velha





Na passada semana tive a feliz oportunidade de receber um convite para estar presente no Chafariz do Vinho - Enoteca, propriedade de João Paulo Martins de que já aqui falámos algumas vezes, para uma prova alargada de vinhos da Real Companhia Velha, na qual esteve disponível um portefólio alargado composto por cerca de 30 vinhos, entre brancos, tintos, um rosé, um espumante e vinhos do Porto.

Entre enófilos, jornalistas e outros profissionais, enquanto se provava, conversava e se complementava a prova com alguns acepipes que estavam à disposição nas mesas, pude ir trocando impressões sobre os vinhos da empresa com dois dos representantes da casa: o director de enologia Jorge Moreira, cujo nome saltou para a ribalta pela sua produção em nome pessoal do famoso Poeira, e Pedro Silva Reis, director de marketing e filho do presidente da administração com o mesmo nome.

Correndo o risco de ter mais olhos que barriga, fui percorrendo os diversos brancos, a começar pelo espumante Séries, um lote de Pinot Noir e Chardonnay que não marcou muitos pontos entre os presentes, seguindo pelo branco Séries Arinto. Esta gama, como foi explicado, pretende funcionar como experiência para possíveis entradas de novas marcas na gama Quinta de Cidrô. Gostei do Arinto, mas parece que os homens fortes da casa não ficaram convencidos com ele... Depois passei pelos mais tradicionais e das gamas mais baixas, neste caso o Evel e o Porca de Murça Reserva, duas marcas com longa história na casa. O Evel fazendo jus à origem do seu nome (Leve escrito ao contrário), o Porca de Murça com alguma falta de aroma.

Seguiu-se então o périplo pelos monocasta da extensa gama da Quinta de Cidrô, até terminar no topo da casa, a mais recente marca produzida na Quinta de Carvalhas e chamado simplesmente Carvalhas. E começando já pelo fim, há que dizer que estamos perante um branco fantástico, de aromas finos e elegantes e simultaneamente estruturado, persistente, gastronómico, com muito ligeira tosta da madeira que lhe dá uma envolvência suave envolvência do conjunto. Claramente um branco de topo!

Percorrendo a gama Quinta de Cidrô, quase totalmente baseada em castas estrangeiras (a excepção é o Alvarinho), temos diversos perfis para diversos gostos, embora as diferenças, curiosamente, não sejam tão acentuadas como se poderia pensar. O que foge mais claramente ao perfil tendencialmente aromático, frutado, suave e pontuado por uma acidez vibrante da generalidade destes brancos é, precisamente, o Chardonnay. Sobre este vinho em particular tive uma troca de impressões mais demorada com os representantes da casa, devido à curiosidade que me movia após as longínquas impressões anteriores. Por um desses acasos em que a vida é fértil e que nos aparecem quando menos esperamos, no dia seguinte a esta prova pude degustar calmamente este vinho à refeição, e as poucas impressões colhidas na prova foram então “tiradas a limpo”, digamos assim, e confirmaram que está diferente do que era, embora continue a ser o vinho mais estruturado dentro da gama Quinta de Cidrô. Os restantes, são genericamente mais leves, aromáticos, frescos, recaindo a minha preferência no Alvarinho e no Sauvignon Blanc. Achei curioso o Sémillon, que precisa de uma prova mais demorada, enquanto o Gerwurztraminer me pareceu algo discreto de aromas.

Passei rapidamente pelo rosé, que já conhecia de outra ocasião e confirmou o que dele esperava, e passei ao piso de cima para provar os tintos, porque a tarde já ia longa e já muito se tinha provado, mas muito mais havia para provar.

De novo com a colecção da Quinta de Cidrô em destaque, uma referência particular para a suavidade do Pinot Noir e a estrutura do Cabernet Sauvignon. Interessante o Séries Rufete, expectáveis e sem surpresa os Evel e Porca de Murça, mas as estrelas foram sem dúvida as quatro novidades: o Evel Centenário, o Quinta dos Aciprestes Grande Reserva (o único representante desta marca presente) e, principalmente, o monocasta Carvalhas Tinta Francisca e o extraordinário Carvalhas Vinhas Velhas, para mim o vinho da noite. E foi o vinho da noite porque, após uma pequena passagem pelo colheita tardia Grandjó, retirei-me das lides: era altura de debandar e já não havia capacidade para fazer a prova dos Portos, pelo que deixei essa tarefa com os resistentes que conseguiram percorrer todo o portefólio...

Em jeito de balanço, pode dizer-se que a Real Companhia Velha está nova, de boa saúde e recomenda-se. Depois de muitos anos em que praticamente se limitava a comercializar vinhos do Porto mais o Evel, o Porca de Murça e o Grandjó, o aparecimento das marcas Quinta dos Aciprestes, Quinte de Cidrô e agora o lançamento do topo de gama Carvalhas vieram trazer um novo fôlego aos vinhos de mesa da casa, com mais notoriedade na gama de marcas que ocupam as prateleiras das superfícies comerciais e com uma vasta escolha à disposição do consumidor.

Parabéns aos administradores e enólogos da Real Companhia Velha pela imagem renovada da velha casa. Ficam também os agradecimentos à consultora em comunicação, e profissional de relações públicas, Joana Pratas, que tem tido a amabilidade de nos dirigir alguns convites que possibilitaram que estivéssemos presentes nalguns eventos para recordar.

Agora só nos resta ir provando o que for possível...

Kroniketas, enófilo esclarecido

sábado, 15 de Março de 2014

No meu copo 370 - Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2012

Longe vão os tempos em que quase detestei este vinho. Na altura pelo que considerei boas razões, todas elas ainda válidas nas apreciações que faço dos brancos, tanto os baseados na casta Chardonnay como os fermentados em madeira...

Entretanto os tempos mudaram. Mudaram os vinhos brancos, mudou a minha matriz de apreciação após muitos tipos de brancos provados, mudaram as práticas vitícolas e enológicas. 7 anos depois e 8 colheitas depois, uma visita a um amigo permitiu-me voltar a encontrar-me com este Chardonnay da Quinta de Cidrô e, ao contrário dos meus maiores receios, fiquei bastante agradado com este vinho da colheita de 2012. Continua a ter os mesmos 14% de álcool, fermenta em madeira e repousa 6 meses sobre borras. Mas desta vez encontrei um vinho fresco, estruturado e persistente mas vivo e com boa acidez.

Sem resquícios das notas amanteigadas que tornam estes vinhos tão enjoativos (e que, vá lá saber-se porquê, alguns até parecem elogiar quando explicam como é o vinho...), não sendo um vinho fácil e mantendo um perfil com alguma robustez, já se consegue ter à mesa sem precisar de pratos pesados. Precisa, sim, de pratos com alguma estrutura e bem temperados, mas não excessivamente. A sua estrutura parece conferir-lhe uma boa capacidade de envelhecimento, e talvez daqui a uns anos se torne num vinho mais macio e suave.

Foi um reencontro feliz. Pelos vistos, mudou o vinho e mudei eu a forma de apreciá-lo. Gostei, e voltarei à carga.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2012 (B)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%
Casta: Chardonnay
Preço hipermercado: 7,69 €
Nota (0 a 10): 8,5


Nota: por uma feliz coincidência, a prova desta garrafa ocorreu no dia imediatamente a seguir a uma prova alargada de vinhos da Real Companhia Velha, realizada no Chafariz do Vinho, durante a qual tive oportunidade de conversar com Pedro Silva Reis (filho do administrador) e Jorge Moreira (enólogo) sobre as minhas muito antigas reservas acerca das impressões colhidas acerca deste vinho. Dessa prova, que contemplou cerca de 30 vinhos, falarei brevemente.

terça-feira, 11 de Março de 2014

No meu copo 369 - Deu La Deu, Alvarinho 2012; Soalheiro, Alvarinho 2012

Temos aqui dois Alvarinhos de créditos firmados. Um com um excelente posicionamento no mercado em termos de relação qualidade/preço e uma aposta segura: o Deu La Deu é certamente uma das melhores compras dentro dos Alvarinhos por pouco dinheiro. Límpido e brilhante e de cor citrina, mantém a frescura habitual, aroma frutado onde se destacam alguns frutos tropicais e nuances florais. Continua em muito boa forma e não desilude.

Quanto ao Soalheiro, um dos nomes em ascensão nos anos mais recentes, já se cotou como uma das melhores marcas entre os verdes brancos de Alvarinho. Foi a segunda prova de Soalheiro em menos de um ano, depois da prova da colheita de 2011, e confirmou o que se esperava: elegante, fresco e vibrante na boca, exuberante no nariz, com grande vivacidade, é mais uma marca a repetir uma e outra vez.

Na gama mais acima, a aproximar-se dos 10 €, é também uma excelente aposta. Está de parabéns o produtor e enólogo Luís Cerdeira, que sem fazer ondas vai-se firmando no mercado e tornando os seus vinhos uma referência obrigatória na região. Para continuar a seguir com atenção.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Deu La Deu, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Monção)
Produtor: Adega Cooperativa Regional de Monção
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 5,64 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Soalheiro, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Vinusoalleirus
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 8,48 €
Nota (0 a 10): 8,5

sexta-feira, 7 de Março de 2014

No meu copo 368 - Espumantes brutos: Casa Ermelinda Freitas; Danúbio

Uma ocasião festiva proporcionou a abertura de alguns vinhos com borbulhas, desta vez em dose moderada. Tentei encontrar dois espumantes na gama média, tendo a escolha recaído num dos novos, da Casa Ermelinda Freitas, e outro já consagrado, das Caves Aliança.

O espumante bruto da Casa Ermelinda Freitas é produzido com base na casta Fernão Pires, que fornece alguma estrutura e elegância, complementado por um toque de Arinto, que acrescenta a acidez e frescura. Na boca é macio e elegante, de persistência média, aroma citrino algo discreto.

O Danúbio, uma marca clássica da Aliança, produzido na Bairrada, apresenta-se um pouco mais estruturado e mais longo, com aroma mais intenso. Na prova de boca é também um pouco mais vibrante, fazendo um conjunto um pouco mais vivo e apelativo. As castas utilizadas não são mencionadas, pelo que não sabemos se é apenas um “blanc de blancs” ou se também tem incorporada alguma casta tinta, como a Baga, prática habitual na região... Mas poderíamos supor que sim...

Em suma, por preços não exagerados, temos aqui dois espumantes que serem excepcionais conseguem cumprir o seu papel sem dificuldade e fazer uma prova agradável. E no caso vertente, o mais barato saiu-se melhor...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Casa Ermelinda Freitas, Espumante Bruto (B) - sem data de colheita
Região: Península de Setúbal
Produtor: Casa Ermelinda Freitas
Grau alcoólico: 12%
Castas: Fernão Pires, Arinto
Preço em hipermercado: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Danúbio, Espumante Bruto (B) - sem data de colheita
Região: Bairrada
Produtor: Aliança - Vinhos de Portugal
Grau alcoólico: 12%
Castas: não indicadas
Preço em hipermercado: 4,19 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 3 de Março de 2014

No meu copo 367 - Quinta do Corujão 2011

Proveniente do trio de enólogos autodenominado como M.O.B. (Jorge Moreira, Francisco Olazabal e Jorge Serôdio Borges), que lançou um vinho do Douro com o mesmo nome, surgiu mais recentemente outra novidade do Dão, o Quinta do Corujão. Este vinho foi objecto duma prova na garrafeira Wines 9297, onde não tive oportunidade de estar presente, mas já depois disso passei na garrafeira e pude provar o vinho, que me agradou.

Posteriormente, acabei por adquirir uma garrafa no Pingo Doce e abri-a no próprio dia, coisa que raramente faço. Mas o jantar pedia algo a acompanhar, e a curiosidade de experimentar o vinho com mais tempo e mais calma levou-me a prová-lo ao jantar.

Produzido na zona de Gouveia, perto da encosta da Serra da Estrela, com as castas tintas mais emblemáticas do Dão, fez-me lembrar os tintos da região à moda antiga, de há 10 ou 20 anos. Apresenta uma cor rubi aberta, aroma profundo e delicado, suave e elegante na boca, taninos redondos e macios, um vinho marcado por alguma finesse, sem nada que se assemelhe a outras tendências.

Sendo um vinho de gama média, o preço é excelente para a qualidade que apresenta, o que o torna um produto de compra apetecível, para além de bom companheiro da mesa.

Com toda a certeza, irei repetir. Fiquei fã, de tal forma que já adquiri outra garrafa. É um vinho com lugar adquirido nas nossas sugestões.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Corujão 2011 (T)
Região: Dão
Produtor: Moreira, Olazabal e Borges
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 4,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Na GN Cellar 5 - Álvaro Castro


De novo na GN Cellar, não pudemos perder a oportunidade de participar na prova de vinhos de Álvaro Castro, um dos nomes incontornáveis do Dão nos tempos que correm.

Foi apresentado um conjunto notável de vinhos brancos e tintos, difícil de classificar e distinguir, dada a variedade de estilos:

- Quinta de Saes Reserva branco, sem madeira
- Quinta de Saes Encruzado branco, com madeira
- Quinta de Saes Estágio Prolongado
- Pape
- Quinta da Pellada Jaen
- Quinta da Pellada TouNot
- Quinta da Pellada 2011 (ainda não disponível)
- Carrocel

O que dizer destes vinhos? Todos bons, todos diferentes. Surpreendente o Quinta de Saes Reserva branco, sem madeira ao contrário do Encruzado, mas com uma estrutura e complexidade que pareciam indicar o contrário. Pessoalmente achei-o mais equilibrado e atractivo que o Encruzado, um pouco mais linear.

Muito elegante o Quinta de Saes Estágio Prolongado, um verdadeiro Dão clássico com uma excelente relação qualidade/preço (cerca de 8 €). Depois entramos na gama alta, onde todos os vinhos são excelentes e caros. Cheio de vigor o Pape, interessantes as experiências com o Jaen e o TouNot, um lote de Touriga Nacional e Pinot Noir. Superlativo o Carrocel, hoje por hoje certamente um dos melhores tintos do Dão.

Perante tão elevada qualidade da generalidade dos vinhos provados, difícil é tecer longos considerandos. Uma certeza fica para todos os que tiveram a possibilidade de estar nesta prova: todas as marcas sob a chancela de Álvaro Castro são sinónimo de elevada qualidade. Numa época em que se discute em vários fora (nomeadamente nas redes sociais) a visibilidade e o reconhecimento da qualidade dos vinhos do Dão e a sua tradução em prémios ou colocação no topo dos rankings publicados, este exemplo comprova que mais importante que isso é conhecer os vinhos e tirar daí as respectivas conclusões. Quanto ao resto... é apenas uma questão de querer ou poder pagar por eles.

Kroniketas, enófilo esclarecido

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Na GN Cellar 4 - Vinhos Druida e Outrora


Embora nem sempre se consiga ter os relatos das provas actualizados, a verdade é que eles vão acontecendo. A um ritmo que não é possível acompanhar, sempre vamos conseguindo, aqui e ali, aparecer numa ou noutra prova para conhecer novidades ou provar vinhos de produtores com os quais estamos menos familiarizados.

Foi o caso desta prova, ocorrida já há algumas semanas nas novas instalações da Garrafeira Nacional na baixa lisboeta, sob o nome GN Cellar. Implicadas no evento estiveram duas marcas recentes, resultantes dum projecto de dois enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa: Druida nos brancos e Outrora nos tintos. Aqueles do Dão, estes da Bairrada.

A prova começou pelo Druida Encruzado de 2012, muito fresco e aromático e com estrutura interessante na boca, marcada por uma evidente mineralidade. Mas a seguir veio uma amostra de 2013, ainda em cuba e não filtrada, que mostrou um aroma citrino muito mais intenso e pareceu mostrar um excelente potencial evolutivo. As opiniões dividiram-se, porque os dois vinhos se mostraram muito diferentes, mas gostei francamente mais da amostra de 2013. Um branco que promete, ao qual há que estar atento.

Nos tintos tivemos três exemplares do Outrora Baga, de 2009, 2010 e 2011, este também ainda em amostra de casco, e apresentado como vinho “para corajosos”. O curioso nesta prova foi a acentuada diferença entre os três anos provados: o 2009 muito mais macio que o de 2010, mas ambos a mostrarem uma robustez domada, um pouco na linha dos vinhos de Luís Pato, que consegue mostrar as virtudes da Baga tornando os vinhos bebíveis enquanto jovens. O vinho para corajosos, de 2011, apareceu potente na boca, com um perfil que não agradará aos menos habituados e a quem anda à procura do “docinho e frutadinho”. É um vinho difícil, mas é um daqueles Baga que dão gosto provar, porque sente-se ali toda a estrutura de taninos bem presente mas uma complexidade de sabores e aromas que auguram um grande futuro para este vinho.

Em resumo, pela amostra ficámos a perceber que temos aqui dois belos vinhos que certamente vão evoluir muito bem em garrafa e beneficiar com o tempo de descanso. No caso dos tintos, o preço é que pode ser desencorajador, porque vai para cima das duas dezenas de euros...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Nota: na ausência de fotos das garrafas tirados no local, para ilustrar este post socorremo-nos, com a devida vénia, da foto apresentada pela GN Cellar para anunciar o evento.

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

No meu copo 366 - Frei João branco 2012; Porta dos Cavaleiros branco 2012

Continuando no Dão e nas Caves São João, baixamos agora a fasquia e damos um salto também à Bairrada. Depois de várias provas de tintos clássicos em que nos deliciámos com algumas relíquias da casa durante o outono passado, agora chegou a vez dos brancos de entrada de gama das duas marcas mais emblemáticas: o Frei João, na Bairrada, e o Porta dos Cavaleiros, no Dão.

Tendo em conta o preço dos vinhos em causa, houve que baixar também as expectativas para ver o que nos saía.

O Porta dos Cavaleiros 2012 mostrou um aroma discreto e pouco pronunciado, com algum citrino e notas florais discretas. Em comparação com os novos brancos do Dão, com uma exuberância aromática e uma estrutura notáveis, este prima pela leveza e simplicidade. Para pratos leves ou entradas, de preferência para entreter.

No que respeita ao Frei João 2012, com um bocadinho mais de estrutura e um fim de boca um pouco mais longo, também não é vinho para grandes voos. Aguenta um pouco melhor alguns pratos um pouco mais elaborados, mas não se espere grande complexidade para acompanhar pratos muito elaborados.

Dito isto, não é surpresa nenhuma porque é que uns vinhos são caros e outros são baratos. Neste caso o preço está adequado ao produto. Se tivermos outras ambições quando ao que está dentro de garrafa, temos de subir alguns euros nos gastos. E como em tudo na vida, quando nos habituamos a subir alguns patamares é difícil voltar para baixo...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Caves São João

Vinho: Frei João 2012 (B)
Região: Bairrada
Grau alcoólico: 12%
Castas: Bical, Arinto, Chardonnay
Preço em feira de vinhos: 2,93 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Porta dos Cavaleiros 2012 (B)
Região: Dão
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Encruzado, Malvasia Fina, Cerceal
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 6

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

No meu copo 365 - Porta dos Cavaleiros Reserva, Touriga Nacional 2007

Seguimos no Dão e voltamos às Caves São João, com uma das marcas clássicas e míticas. Há pouco mais de 4 anos já tinha feito uma prova desta colheita (comprada e consumida em finais de 2009), que me agradou e deixou alguma expectativa. Na altura referi que o vinho parecia ter potencial para evoluir em garrafa.

Posteriormente, já em 2011, adquiri outro exemplar da mesma colheita, que guardei até agora. Portanto, ao contrário da prova anterior, em que o vinho foi consumido com apenas 2 anos de idade, este foi consumido com 6. E a diferença notou-se, para bem melhor. Sem dúvida o vinho cresceu na garrafa, pois apresentou-se com aromas mais exuberantes, uma estrutura de taninos sólida mas macia, persistência na boca e final longo, pontuado por um certo floral da casta mas sem marcar o vinho em demasia. Mostra uma cor rubi concentrada mas brilhante e evolui para algumas notas de frutos vermelhos e do bosque enquanto se desprende um ligeiro tostado da madeira que vai arredondando à medida que o vinho respira.

Não sendo decantado, é um daqueles vinhos que está óptimo quando a garrafa chega ao fim. Quem o quiser apreciar mais depressa deve decantá-lo.

Em relação à prova anterior, não há dúvida que melhorou claramente, e é uma referência a ter em conta por um preço adequado. Esta colheita de 2007 parece ter agora atingido o seu ponto óptimo de consumo. Portanto, seja-se paciente e não se tenha pressa em bebê-lo, deixando-o repousar por 4 ou 5 anos após a compra.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porta dos Cavaleiros Reserva, Touriga Nacional 2007 (T)
Região: Dão
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 7,34 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Na Wine Company 1 - Dão Sul

  
 

Na semana imediatamente seguinte ao evento Dãowinelover Masterclass, na Quinta de Cabriz, decorreu uma prova de vinhos na garrafeira The Wine Company, em Lisboa, com vinhos da Dão Sul em que estiveram presentes os vinhos da região dos Vinhos Verdes (Quinta de Lourosa, situada em Lousada, perto de Penafiel) e do Alentejo (Monte da Cal). Aproveitando a embalagem do evento anterior, desloquei-me a Benfica para conhecer os vinhos verdes da empresa e retomar contacto com os alentejanos.

(À mesma hora decorria uma prova da Quinta da Bica na garrafeira Wines 9297, em Telheiras, mas não se pode ir a todas... Entretanto já consegui passar por lá para conhecer o espaço, falar com os donos, provar um Quinta do Corujão, dos mesmos autores do M.O.B. e ainda comprar um Casal da Azenha, de Colares. Outras oportunidades hão-de surgir para ir a outras provas, certamente).

Tive a oportunidade de reencontrar o director de enologia, Osvaldo Amado, que se fez acompanhar de duas colaboradoras da área do marketing e da enologia da Quinta da Lourosa.

Relativamente aos vinhos verdes, pudemos provar um de lote com Loureiro e Arinto, de entrada de gama. Para mim foi a revelação da prova, pois não o conhecia e encontrei um vinho com grande frescura, de aroma citrino exuberante, leve e fácil de beber mas muito agradável na prova de boca. Por menos de 5 €, temos aqui uma excelente relação qualidade/preço, que pretende concorrer com os campeões de vendas deste segmento.

Provámos depois um Alvarinho que, por não ser produzido nas sub-regiões de Monção ou Melgaço, não tem direito a denominação de origem como Vinho Verde mas como Regional Minho. Apresenta um corpo macio e aroma discreto a frutos tropicais, embora seja algo curto no fim de boca.

Passando aos vinhos do Alentejo, começámos pelo branco Vinha de Saturno 2010, que já foi elaborado apenas a partir de Alvarinho mas que agora apenas contém 50% desta casta, integrando também Arinto e Antão Vaz. É um branco poderoso, com um toque de madeira discreta (como Osvaldo Amado faz sempre questão de salientar, a madeira usada é sempre de tosta ligeira, para não marcar demasiado os vinhos), muito encorpado e longo, que pede acompanhamento adequado à mesa.

No caso dos tintos, provámos o Monte da Cal colheita 2010, o Monte da Cal Syrah 2009, o Monte da Cal Reserva 2009 e o Vinha de Saturno 2009.

O colheita é um vinho fácil e mediano; o Syrah mostra aquele perfil adocicado que tenho encontrado nos Syrah alentejanos, que faz com que por vezes se pareçam mais com um xarope do que com um vinho, que não me agrada particularmente; o Reserva (lote de Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah) apresenta outra estrutura e maior persistência, sendo o Vinha de Saturno o grande vinho da casa, como já pudemos constatar noutras ocasiões. É composto por 40% de Touriga Nacional, 30% de Petit Verdot, 15% de Baga e de Trincadeira. Estagia 18 meses em barricas de carvalho francês e apresenta uma enorme persistência, um corpo robusto e aroma vinoso intenso, precisando de muito arejamento para mostrar tudo o que tem.

Foi uma boa jornada de prova, que complementou muito bem a prova de vinhos do Dão que da semana anterior. Mais uma vez pudemos apreciar um conjunto de bons vinhos da Dão Sul, que continua a fazer um caminho seguro e de sucesso. Assim continue.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

No meu copo 364 - Pedra Cancela, Selecção do Enólogo 2010

Aproveitando a embalagem de estarmos no Dão, aproveitamos para falar neste que foi adquirido há cerca de um ano com a Revista de Vinhos. Na altura o produtor e enólogo João Paulo Gouveia referiu que esta era uma edição especial limitada, como está indicado no rótulo.

Provei-o há pouco tempo com um prato de carne requintada, e redescobri nesta garrafa uma espécie de “velho” Dão, o Dão que eu conheci quando comecei a provar os vinhos da região, que eram marcados pela elegância e longevidade, e muito antes da febre da madeira e das bombas de fruta e álcool.

Neste Pedra Cancela Selecção do Enólogo encontrei um vinho encorpado mas elegante e suave, com aroma frutado profundo, fim de boca macio mas firme. Muito bem conseguido.

Estilo diferente, este? Não; para mim, este é o verdadeiro estilo do Dão... Aquele que pode marcar a diferença para recuperar o lugar que já teve. Mais do que ir atrás de modas, do que a região precisa é de recuperar as referências que marcaram os seus grandes vinhos em décadas passadas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pedra Cancela, Selecção do Enólogo 2010 - Edição Limitada (T)
Região: Dão
Produtor: João Paulo Gouveia
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Tinta Roriz, Alfrocheiro, Touriga Nacional
Preço com a Revista de Vinhos: 6,00 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Dãowinelover Masterclass: Dão Sul - Quinta de Cabriz (2ª parte)

    

Falemos agora um pouco dos vinhos provados, cuja prova se repartiu entre os períodos antes e depois do almoço. Em 35 referências colocadas à disposição dos visitantes, seria fastidioso enumerar ou querer dissertar sobre cada uma delas. No entanto, alguns dos vinhos provados mereceram-nos especial atenção.

Desde logo, numa das mesas estavam disponíveis provas verticais de 3 marcas de vinhos, mesmo anteriores à criação da Dão Sul e à aquisição da Casa de Santar pela empresa. Destaque para os Casa de Santar de 1965, 1975 e 1983, que dividiram opiniões. Houve quem preferisse claramente o de 1965 (como foi o caso do Politikos, um dos meus companheiros de viagem), e houve quem preferisse o de 1983 e que considerasse que o de 1965 apresentava oxidação em demasia e já aromas a lembrar o vinho do Porto, como foi o meu caso. A colheita de 1983, por sua vez, mostrava uma cor ainda bastante concentrada, alguma frescura no aroma e vivacidade na prova de boca, parecendo um vinho bem mais novo do que os 30 anos que ostentava. Mas a discussão continuou e não se chegaria a nenhum consenso, pelo que as opiniões se mantiveram de ambos os lados.

Em parceria com estes, havia 4 colheitas do Casa de Santar Touriga Nacional (colheitas de 2000, 2006, 2007 e 2010) e do Quinta de Cabriz Touriga Nacional (colheitas de 2003, 2004, 2007 e 2010). Em ambos os casos, a minha preferência foi para a colheita mais antiga, mas o que ficou mais evidente foi a superior elegância e suavidade dos vinhos provenientes de Santar, em contraponto com os vinhos de Cabriz, genericamente mais robustos e rústicos. Como foi explicado na apresentação inicial, existe uma diferença de altitude e de clima entre as vinhas das duas quintas, com mais calor em Cabriz e mais frescura em Santar, o que proporciona maturações mais lentas. Estas pequenas diferenças estão claramente marcadas desde há muitos anos nos vinhos das duas marcas, atravessando toda a gama. No caso do Cabriz Touriga Nacional de 2003, a idade já nos permitiu apreciar um vinho bem integrado, amaciado pelo tempo e ainda com grande concentração mas já bem equilibrado, o que já não se verifica nas colheitas mais recentes, e em particular na de 2010.

Noutra mesa, os brancos de topo: Conde de Santar, Cabriz Encruzado, Four CCCC, Condessa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador, Casa de Santar Reserva. Cinco pesos pesados no portefólio de brancos, com destaque para o Condessa de Santar. Há alguns anos tínhamos adquirido e bebido uma garrafa da colheita de 2005, que o tuguinho fez questão de abrir com um arroz de tamboril, que não agradou à generalidade dos presentes e que calhou pessimamente com o prato: muito pesado e marcado pela madeira, enjoativo, difícil de conjugar com qualquer prato. Agora, pelo contrário, encontrámos um vinho com a madeira na devida conta, peso e medida, quase imperceptível, e mais marcado pela frescura, pelos aromas a fruta e boa estrutura com final longo e vivo. Uma bela surpresa.

Melhor surpresa nos esperava na 3ª mesa, onde estavam os vinhos desde as gamas de entrada até aos Reservas, passando pelo Colheita Tardia e pelos espumantes. Para além do já conhecido Cabriz bruto, a grande revelação foi o espumante Condessa de Santar, um vinho de grande nível quase a alcandorar-se ao patamar dos champanhes e a bater-se com os melhores espumantes do país.

No caso do Outono de Santar Colheita Tardia, elaborado apenas a partir de Encruzado, apresenta um perfil algo diferente da maioria dos vinhos do género, mais aberto e fresco, com uma cor menos carregada. É um vinho que se bebe a solo, podendo servir-se como aperitivo ou para acompanhar sobremesas. Apresenta a doçura expectável num colheita tardia combinada com um toque cítrico que lhe confere um perfil diferente, com menos melaço do que o habitual, pelo que apresenta uma frescura que também permite que seja bebido a solo. É uma aposta que tem todas as condições para dar certo.

Dentro da restante gama, marcou pontos o Casa de Santar Colheita branco, em vias de sair para o mercado, assim como o Casa de Santar Reserva tinto, sempre uma referência nos vinhos a rondar os 10 €, com uma elegância e uma suavidade notáveis, um daqueles vinhos que nunca desilude. Muito equilibrado o Cabriz Encruzado, leve e aromático. De todos, um dos brancos mais bem conseguidos.

E assim fomos passando o resto da tarde até anoitecer e ser horas de regressar, sempre em agradável convívio com os outros Dãowinelovers e com a equipa que sempre nos acompanhou. Após algumas fotografias de família para a posteridade, restou agradecer a toda a equipa da Dão Sul que tão simpaticamente nos recebeu, sempre com o muito simpático e disponível director de enologia Osvaldo Amado no comando das operações, e muito bem assessorado pelos seus não menos simpáticos e disponíveis colaboradores. Mais uma vez, os nossos parabéns e agradecimentos aos criadores, organizadores e dinamizadores do evento, Rui e Miguel.

Foi mais uma excelente jornada de propaganda aos vinhos do Dão e a melhor forma de assinalar o primeiro aniversário do primeiro evento dos Dãowinelovers. Ficamos agora à espera das próximas iniciativas, onde aguardo com particular expectativa e entusiamo o anunciado... Bairradão: um evento dedicado aos amantes dos vinhos da Bairrada e do Dão.

Continua nos próximos episódios...

Kroniketas, Dãowinelover

Nota: por não dispormos de fotos dos vinhos com a qualidade necessária, algumas das imagens deste post foram obtidas a partir de outras publicações no grupo #daowinelover no Facebook, com a devida vénia aos nossos comparsas.

sábado, 1 de Fevereiro de 2014

Dãowinelover Masterclass: Dão Sul - Quinta de Cabriz (1ª parte)

      

No passado dia 25 de Janeiro, precisamente um ano menos um dia após a primeira iniciativa do género levada a cabo pelo grupo surgido e desenvolvido no Facebook, os Dãowinelovers deslocaram-se a Carregal do Sal para uma visita à Quinta de Cabriz, o berço da Dão Sul, uma das maiores empresas do país no sector da produção e comercialização de vinhos.

Por coincidência, aquando de uma anterior iniciativa que tinha decorrido em Outubro, dessa vez à volta dum almoço na Quinta da Espinhosa, já tinha tido oportunidade de, no regresso a casa, parar e almoçar no restaurante da Quinta de Cabriz, mas dessa vez só contemplando de fora o resto das instalações. Desta vez, com o amável contributo dos responsáveis da empresa, na companhia de dois dos comensais habituais, pudemos mergulhar no universo da Dão Sul, visitar os escritórios, as salas de fermentação em cuba, as linhas de engarrafamento, as salas de barricas e as caves onde milhares de garrafas de vinho repousam desafiando a prova do tempo.

O evento decorreu em várias etapas. A primeira consistiu na apresentação do universo Global Wines/Dão Sul, com uma introdução feita pelo enólogo Osvaldo Amado, que apresentou toda a equipa, desde o director-geral aos técnicos de viticultura ou laboratório, passando pelo marketing.

Vários oradores, apoiados numa apresentação de slides bastante clara, abordaram diversas vertentes da empresa, das diversas quintas que vão da Região dos Vinhos Verdes ao Alentejo, sem esquecer o Brasil, à respectiva caracterização geográfica e climática, e, obviamente, ao vasto portefólio de vinhos.

Esta primeira etapa serviu para abrir o apetite aos enófilos (e também alguns enólogos) presentes, pois foi-nos anunciado que teríamos à disposição nada menos de 35 vinhos para provar ao longo do dia!!! Antes, porém, os presentes divididos em dois grupos fizeram um percurso pelas instalações da empresa, terminando numa cave de barricas com ligação à cave de envelhecimento em garrafa. Aí estavam dispostas em várias mesas, e em barricas servindo de mesas, diversos grupos de garrafas de vinhos da Dão Sul produzidos no Dão: brancos fermentados em inox e madeira, tintos novos e velhos, espumantes, colheita tardia e licoroso. Os vários tipos de vinhos foram dispostos de forma organizada, permitindo aos visitantes escolher que tipo de vinho estariam a provar em cada momento.

Para além das colheitas mais recentes, numa das mesas tivemos oportunidade de provar quatro do Casa de Santar Touriga Nacional e outras tantas do Cabriz Touriga Nacional, e também pudemos degustar três colheitas mais antigas: o Casa de Santar de 1965, 1975 e 1983.

A manhã foi longa e, como a prova também o era, foi interrompida quando a fome apertava e eram horas de almoço. Este decorreu numa sala contígua ao restaurante aberto ao público, tendo-se provado entradas da Beira, massada de bacalhau e arroz de pato como pratos principais, e ainda requeijão com doce de abóbora e arroz doce como sobremesa. Para acompanhar estas iguarias estiveram à disposição os espumantes Quinta de Cabriz e Condessa de Santar, brancos, tintos, o Outono de Santar Colheita Tardia e o Cabriz licoroso.

Depois desta longa função, ainda houve oportunidade de voltar à cave para provar os vinhos que não tivéssemos tido oportunidade de provar durante a manhã. Aí, já em ambiente mais calmo, visitámos a enorme garrafeira onde se encontram as colheitas mais antigas do enorme espólio da Dão Sul.

Durante todo o evento, inclusive à mesa durante o almoço, tivemos sempre a companhia de alguém da equipa da Dão Sul, quer para nos darem os vinhos a provar, quer para ir trocando impressões sobre outros temas relacionados com o vinho ou a empresa.

Na segunda parte falaremos um pouco – ainda que não de forma exaustiva – de alguns dos vinhos provados, aqueles que mais nos impressionaram.

Kroniketas, Dãowinelover

terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

No meu copo 363 - Tintos velhos da Bairrada (4)

Primavera Garrafeira 1995; Messias Garrafeira 1995; Messias Reserva 1997; Frei João 1999


   

Continuando na senda das provas de vinhos velhos da Bairrada que ainda vão resistindo nas nossas garrafeiras, de vez em quando fazemos mais uma incursão para desbastar diversas garrafas a acompanhar umas carnes grelhadas, ou bem regadas com molho. Neste caso abrimos quatro garrafas da década de 90, de três produtores diferentes. Descrevemo-los por ordem do ano de colheita.

Das Caves Primavera provou-se um Garrafeira 1995, o mais delgado de todos. Apresentou-se macio e suave, mas já com alguma falta de corpo e persistência. Terá passado a sua melhor fase, embora estivesse perfeitamente bebível e sem denotar qualquer sinal de oxidação precoce. Teve o seu percurso que, neste caso, estaria já a caminho do fim, embora não fosse possível detectar na prova quão próximo estaria...

Das Caves Messias tivemos dois exemplares: o Garrafeira 1995 é uma repetição, um vinho que provámos com alguma regularidade ao longo dos anos. Curiosamente, ao contrário da prova anterior que aqui registámos, esta garrafa estava soberba! Também aberto e macio, mas com muita persistência e volume de boca, redondo mas cheio e com grande bouquet. Um Bairrada dos bons velhos tempos, com tudo no sítio. Este, por seu lado, pareceu estar ali para durar mais umas décadas.

Quanto ao Messias Reserva 1997, embora sem a exuberância aromática do seu parceiro de ocasião, mostrou grande vivacidade na boca e boa persistência, também sem denotar sinais de queda.

Finalmente o Frei João 1999, aquele que, porventura, terá sido a grande surpresa (ou não), porventura aquele onde as expectativas estavam mais baixas. Por ser um vinho de outra gama, por teoricamente não estar tão vocacionado a repousar muito tempo nas garrafeiras. Teoricamente. A verdade é que desde sempre me habituei a guardar uma ou duas garrafas do Frei João de entrada de gama (um vinho que actualmente se posiciona abaixo dos 3 €) durante alguns anos para ver como se aguentava. E desde sempre também descobri que era uma excelente companhia para fondue e bifes na pedra. Este não fugiu à regra.

Foi com um misto de curiosidade e receio que abri a última garrafa da colheita de 1999, mas os receios mostraram-se infundados. Estava de excelente saúde, encorpado, robusto, persistente, mas também com um final de boca macio e redondo. Mais uma vez mostrou que é um vinho pouco valorizado para a qualidade que apresenta. Esta colheita ainda tinha o perfil mais clássico, baseado exclusivamente na Baga, pois as mais recentes já incorporam outras castas como a Touriga Nacional ou a Camarate, tornando-o mais arredondado e bebível mais novo. Mas esta colheita de 1999 deu-me enorme prazer a beber, pois mantinha aquela combinação de suavidade e estrutura que não é fácil de encontrar.

Foi mais uma bela jornada de prova dos Bairrada clássicos, que sempre nos enchem de satisfação por constatar que valeu a pena ter guardado aquelas garrafas durante tanto tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada

Vinho: Primavera Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Caves Primavera
Grau alcoólico: 13%
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Messias Reserva 1997 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Frei João 1999 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Preço em feira de vinhos: 2,54 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

No meu copo 362 - Poliphonia Reserva 2007

Do Monte dos Perdigões, às portas de Reguengos de Monsaraz – terra de grandes e clássicos vinhos provenientes de produtores de renome (Herdade do Esporão, Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz, Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, agora na posse da José Maria da Fonseca) – chega-nos este vinho que nos dá a conhecer outro lado do percurso de Henrique Granadeiro, um alentejano de Borba que se tornou conhecido pela sua actividade de gestor em áreas como as telecomunicações, imprensa, multimédia e até como chefe da Casa Civil do então Presidente da República, General Ramalho Eanes.

Tendo igualmente uma ligação de longa data com a Fundação Eugénio de Almeida, em 2001 Henrique Granadeiro deitou mãos à criação dum projecto para o lançamento dos seus próprios vinhos. Daí surgiu uma gama de vinhos que foi sendo ampliada desde os de entrada de gama, como o Vale do Rico Homem, até aos de topo como o Poliphonia Signature, passando pelos Tapada do Barão.

Este Poliphonia Reserva 2007, uns patamares abaixo, posiciona-se na gama dos 10 €, onde se bate com outros de nome estabelecido na praça. Trincadeira, Aragonês e Cabernet Sauvignon formam a base do lote, sendo Syrah e Alicante Bouschet o seu complemento. Fermentou em balseiros de carvalho francês, seguindo-se um estágio de mais 12 meses em tonéis e barricas.

É um vinho de boa persistência e complexidade aromática, apresenta-se equilibrado e com bom volume de boca, leve toque a madeira muito bem integrada no conjunto com taninos redondos, fruta contida e algumas notas balsâmicas. Não é muito exuberante nos aromas, primando sobretudo por uma certa elegância discreta.

Parece ser um vinho a rever, tendo-nos despertado a curiosidade para conhecer os outros vinhos do portefólio da casa. A ver vamos, pois há muito por onde escolher.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Poliphonia Reserva 2007 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Granacer
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 9,95 €
Nota (0 a 10): 8