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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Vinhos e sabores: escolhas, encontros e desencontros



Estamos em plena época fervilhante de eventos sobre vinho. Desde há cerca de um mês praticamente todos os fins-de-semana há um ou mais eventos sobre vinho.

Exemplos: Mercado de vinhos do Campo Pequeno, Grandes Escolhas Vinhos & Sabores, Dão Capital, Encontro com Vinhos e Sabores, e ainda há-de vir o Wine Fest, o Adegga Wine Market, e devo estar a esquecer-me de alguns.

E qual é o problema, perguntar-se-á? Nenhum problema, a não ser o facto de para os visitantes isto se poder tornar saturante. Tamanha proliferação de eventos pode levar, por um lado, a uma sensação de “déjà vu” e “mais do mesmo”, como até à saturação dos “provadores”. Nós sabemos que muitos dos visitantes destes eventos trabalham ou estão de alguma forma ligados à área, mas a maioria provavelmente são apenas apreciadores, mais ou menos informados, mais ou menos interessados, para quem 3 eventos, 4, 5 ou 6 não adiantam nada, ou adiantam muito pouco.

Poderá justificar-se a realização de alguns eventos menos mediáticos com produtores menos conhecidos, porque aí pode-se conhecer vinhos e produtores menos divulgados. Mas quando entramos no domínio dos grandes eventos, que decorrem durante 3 ou 4 dias, a pergunta é: justifica-se? Vale a pena?

Vem este intróito a propósito dos dois mega-eventos que decorreram em Lisboa apenas com duas semanas de intervalo. Acredito que talvez este ano, por ter sido o primeiro pós-cisão na Revista de Vinhos, tenha sido necessário apalpar terreno e marcar algum território para ver como o mercado se posiciona. Mas depois de ter passado pelos dois eventos, a primeira impressão é que a equipa que criou a nova revista Vinhos – Grandes Escolhas ganhou por 10-0! A começar desde logo pela escolha das datas e do local: a antecipação do evento coloca-o desde logo na dianteira, porque parte à frente. A mudança para a FIL, um espaço por excelência para receber multidões, marcou uma diferença abismal para os anos anteriores no Centro de Congressos na Junqueira.

Na hora de maior afluência, ao fim da tarde de sábado, na FIL circulava-se calmamente pelos corredores. À mesma hora na tarde de sábado na Junqueira as pessoas chocavam umas com as outras nos corredores do meio, como é habitual.

Acresce a isto que na FIL houve espaço para aumentar o número de corredores com stands e ainda sobrou espaço para as provas paralelas. Na Junqueira, por sua vez, cerca de metade do produtores não estavam lá, os stands laterais desapareceram e foram lá colocados bancos e mesas. Mas o espaço para circular manteve-se igual, ou seja, não ocorreu a ninguém aumentar a distância entre corredores uma vez que o espaço sobrava.

Quanto aos vinhos para provar... metade deles desapareceram, e tirando um ou outro produtor menos conhecido, como a Casa do Côro ou a Quinta da Caldeirinha, na Beira Interior, não se viu nada de novo. Os vinhos premiados no concurso Vinhos Grandes Escolhas, que não tive oportunidade de provar na FIL, tirando dois ou três nem sequer estavam na Junqueira.

Até a disposição dos stands na entrada estava igual. Olhando para os produtores mais importantes (quer pelo volume de vendas quer pelo prestígio da marca), parece que a maioria não estava lá. O Esporão, que habitualmente ocupa os 4 lados dum stand central, não estava lá. A Sogrape, com disposição semelhante, estava quase escondida num cantinho da ponta, apenas com vinhos do Dão e Alentejo e quase passava despercebida. Aveleda, Messias, Casa da Passarela, Niepoort, Ramos Pinto, Quinta do Vallado, Quinta do Vale Meão, Enoport, Fiúza, entre outros e para não ser exaustivo, nem vê-los...

Dito isto, posso estar enganado, mas neste primeiro confronto entre eventos organizados pelas duas maiores revistas de vinhos do país, a antiga equipa ganhou por goleada. Agora os números oficiais falam em 18.000 visitantes na Junqueira, número que parece standard pois todos os anos os números anunciados são entre os 17 e os 19.000 visitantes. Custa-me a crer nestes números, mas independentemente do seu rigor acho que só com muito boa vontade se poderá apelidar um evento em que uma parte significativa dos grandes nomes não está presente de “maior evento do país”, a não ser que estejamos a falar do stand das comidas. Só se for em publicidade.

Mas isto sou eu a falar, que estou de fora e não percebo nada do negócio...

Kroniketas, enófilo desconfiado

sábado, 3 de setembro de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (6ª parte)

Quinta das Bandeiras




Terceiro e último dia.

Bagagem arrumada e transportada para o autocarro, onde irá permanecer até apanharmos o comboio no Porto para o regresso a Lisboa.

O percurso começa já em direcção a norte e dura poucos minutos, até voltarmos a um percurso pedonal: vamos visitar a Quinta das Bandeiras, propriedade de Sophia e Tim Bergqvist e integrada no projecto da Quinta de La Rosa, onde o enólogo é o conhecido Jorge Moreira, autor dos vinhos Poeira em produção própria e enólogo residente na Real Companhia Velha.

Vamos subir e descer, por entre vinhas, montes, vales e por baixo dos enormes cabos de alta tensão que atravessam o monte. Na vinha, as uvas começam a despontar e já se vêem cachos com frutos pouco maiores que uma cabeça de alfinete – um bom desafio para os mais bem equipados para a fotografia tirada com detalhe.

Quando se acaba de subir, dum lado vê-se lá em baixo o Centro de Alto Rendimento onde estivemos alojados, no Pocinho, e em frente vislumbram-se algumas edificações antigas... da Quinta do Vale Meão. Ali só com calçado desportivo, e com veículos todo-o-terreno.

Desce-se, desce-se e desce-se. Curva e contracurva. As vinhas desaparecem a aparece vegetação mais densa. O caminho é íngreme e tortuoso, o que de repente me levanta a dúvida inquietante: será que vamos ter de fazer o caminho de regresso da mesma forma??? Felizmente não, porque o percurso vai terminar no fundo da encosta contrária e junto à estrada nacional que nos levará em direcção ao Porto.

As conversas sucedem-se sobre vinhas, sobre vinho, sobre caça, sobre árvores e terrenos, e até sobre linhas do caminho-de-ferro. Já quase chegados ao nosso destino atravessamos uma velha linha férrea que em tempos serviu para os comboios contornarem os montes...

Finalmente chegamos cá abaixo e do outro lado do rio temos a Quinta do Vale Meão. Num baixio mais plano foi montada uma espécie de tenda com duas mesas para almoçarmos. Jorge Moreira assume o topo de uma das mesas e vai contar-nos a história dos vinhos que iremos provar.

É nesta altura, quando estamos a provar o excelente Passagem Reserva branco, que somos informados em primeira mão de que este vinho foi o vencedor do concurso de vinhos na categoria de brancos. Provámos o Passagem Reserva branco, o Reserva tinto e o Grande Reserva tinto e um Porto LBV e um Porto Vintage. No prato, o destaque foi para um delicioso lombo de vitela com batatas assadas e salada.

Pela amostra, ficou a sensação de que este projecto tem boas pernas para andar, pois os vinhos provados foram excelentes e prometem impor-se no panorama dos vinhos do Douro. Na caso do Passagem Reserva branco, em especial, agradou-me particularmente, e pelo preço de venda indicado (10,20 €) pode ir longe.

Fim do almoço, é altura de atravessar a estrada e apanhar o autocarro que nos espera para nos levar ao Porto. Obrigado a todos os que nos receberam e acompanharam, obrigado aos companheiros de viagem pelo excelente convívio e, naturalmente obrigado à organização, com destaque para a incansável Joana Pratas, e à Revista de Vinhos pelo convite que me foi enviado para participar nesta experiência inédita.

Até uma próxima oportunidade.

Kroniketas, enófilo viajante


Foto dos vinhos vencedores do concurso: Ricardo Palma Veiga

Quinta de la Rosa
5085-215 Pinhão
Tel. 254.732.254

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (5ª parte)

Quinta da Terrincha




Final de tarde do segundo dia. Após a visita ao festival de vinhos, rumámos à Quinta da Terrincha, um espaço de enoturismo a norte de Torre de Moncorvo e numa zona mais plana onde se vislumbra um afluente do rio Sabor a correr de forma pachorrenta por entre margens mais baixas.

Há ali não propriamente um vale, numa garganta entre margens apertadas como no coração das quintas visitadas no Douro Superior, mas uma espécie de planície entre montanhas, com uma vista mais desafogada. Junto à estrada que nos conduz para norte, fica esta quinta que está concebida para permitir desfrutar dos prazeres do repouso e da paisagem que se estende para oeste.

Há edifícios para alojamento com apartamentos semelhantes a uma residência, com todas as comodidades para o visitante se sentir em casa. Há um terreno com vinha para produção própria de vinho, há uma piscina e há um restaurante na suave encosta donde se pode contemplar a estrada mais abaixo e as montanhas ao longe. O local é quase paradisíaco e convida à preguiça. Mesmo ao lado do restaurante há um terraço onde se pode permanecer em amena cavaqueira e onde começamos a provar o branco, tinto e rosé da casa e provar os primeiros petiscos antes do jantar que se aproxima. Mas uma deliciosa açorda de perdiz faz-me perder a contenção e faço do petisco o pré-jantar, quase dispensando o que virá a seguir.

Já com a noite a cair entramos no restaurante totalmente envidraçado, onde iremos provar peixinhos do rio em escabeche com açorda de espargos bravos e polvo afogado em azeite biológico produzido na quinta. Mas já não há estômago para mais depois da ronda pela açorda de perdiz... Pelas paredes envidraçadas do restaurante vemos o dia despedir-se na paisagem bucólica que nos rodeia.

Quando chega a hora de regressar ao alojamento no Centro de Alto Rendimento, no Pocinho, fica a vontade de voltar a este empreendimento onde a simpatia impera e, se nos esquecermos do calor que aperta e do Verão que convida à praia, onde se pode estar apenas a pensar na natureza e no silêncio que nos rodeia e faz esquecer o bulício da grande cidade.

Fica, quiçá, a promessa de não ser um adeus mas um até qualquer dia.

Kroniketas, enófilo viajante

Fotos: Ricardo Palma Veiga

Quinta da Terrincha - Sociedade Agrícola, S.A.
Estrada Nacional 102
5160-002 Adeganha
Torre de Moncorvo
Tel. 279.979.525

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (4ª parte)

Quinta da Cabreira




Segundo dia.

Depois da votação no Concurso de Vinhos do Douro Superior durante a parte da manhã, rumámos para leste, na direcção de Castelo Melhor, embrenhando-nos pela primeira vez nas “profundezas” do Douro Superior, para a meio do percurso fazermos um transbordo para duas carrinhas de caixa aberta que nos levaram durante vários quilómetros de terra batida (que pareciam intermináveis...), pelo meio de vinhas, por muitos montes e alguns vales, até à Quinta da Cabreira, propriedade da Quinta do Crasto.

Várias paragens durante o percurso para ouvir algumas explicações dadas pelos membros da equipa que ali trabalha, com o enólogo Manuel Lobo de Vasconcelos à cabeça. Subimos, descemos, cruzámos caminhos já percorridos e por fim chegámos ao topo! Ali está-se, literalmente, no meio de nada! Acima de nós, o céu; algumas centenas de metros abaixo, o Douro. Estamos na margem esquerda e aqui, para os mais místicos e que acreditam nessas coisas, parece que estamos mais perto de Deus. Não é o meu caso, que sou ateu, mas a ideia ocorreu-me.

Há um casão, armazém, para os trabalhos na vinha a pouco mais. Não há casa de banho, pelo que os mais aflitos dão uma escapadela para trás do casão e lavam as mãos na água duma mangueira.

Somos recebidos pelo proprietário Jorge Roquette que faz as honras da casa, enquanto nos dispersamos por uma mesa disposta ao comprido mesmo no cimo do monte: vamos almoçar a 400 metros de altitude, com o Douro a correr pachorrentamente lá em baixo. O calor é quase sufocante nestas paragens, donde só se vislumbra, para além das muitas vinhas, montanha e mais montanha. Confirma-se in loco que no Douro Superior há um microclima em que as temperaturas máximas, mesmo em altitude, atingem valores impensáveis. Felizmente dispuseram uns chapéus-de-sol de esplanada para nos resguardar, mas mesmo assim muitos dos presentes almoçam com o chapéu de palha que nos ofereceram posto na cabeça...

Come-se um caldo verde e arroz de pato enquanto se degustam três vinhos da Quinta do Crasto: o Crasto Superior branco, muito fresco e com muito boa acidez, bem estruturado mas elegante, o Crasto Superior tinto, que já conhecia, e um surpreendente Crasto Superior Syrah, que se porta muito bem e revela uma personalidade inesperada. São vinhos elaborados com uvas precisamente dali, da Quinta da Cabreira. Termina-se, nas sobremesas, com um Porto LBV.

Não apetecia sair dali, mas a tarde corre depressa e ainda vamos visitar o pavilhão da Expocôa para dar uma volta pelo festival de vinhos, afinal o evento que deu o mote a todo este programa. Mas à saída, antes de voltarmos a subir para as carrinhas, ainda somos presenteados com uma caixa onde está uma garrafa de Crasto Superior branco e uma de Crasto Superior tinto.

Este foi um dos pontos altos (não só geograficamente falando) do nosso programa. Para mim, pelo menos, que nunca tinha estado no coração do Douro Superior, ali no meio das montanhas. É uma ocasião para recordar, e nunca serão demais os agradecimentos a quem nos levou lá e a quem tão simpaticamente nos recebeu e nos falou da história e das histórias desta empresa.

Kroniketas, enófilo viajante

Fotos: Ricardo Palma Veiga

Quinta do Crasto
Gouvinhas
5060-063 Sabrosa
Tel. 254.920.020

domingo, 21 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (3ª parte)

Muxagat Vinhos







A etapa da tarde passou por uma visita à garrafeira Vinho & Eventos, na Mêda, a sul de Foz Côa, antes de assentarmos arraiais na adega da Muxagat Vinhos, onde fomos recebidos pela nova proprietária, Susana Lopes.

Este produtor merece uma apresentação prévia, uma vez que começou por ser criado por um dos filhos de João Nicolau de Almeida, neste caso Mateus Nicolau de Almeida, que produziu os primeiros vinhos com esta marca, que depois se chamou Mux durante algum tempo antes de voltar à designação inicial.

Entretanto, os Nicolau de Almeida dedicaram-se a um projecto familiar, o pai João saiu da administração da Ramos Pinto, Mateus deixou a Muxagat Vinhos e os restantes filhos juntaram-se ao projecto Quinta do Monte Xisto. Assim, a Muxagat Vinhos mudou de mãos e de enólogo. Luís Seabra, que durante anos teve uma carreira bem sucedida na Niepoort, é agora o responsável pelos vinhos Muxagat. E foi com Luís Seabra que fizemos a prova na adega, a que se seguiu um jantar de cabrito assado acompanhado com os vinhos da casa.

Tivemos oportunidade de provar alguns vinhos ainda em cuba ou em barrica e não filtrados, nomeadamente um Tinta Barroca e um Tinta Francisca. A gama está agora mais vasta, com diversas referências em brancos, tintos e rosés.

Alguns dos vinhos provados estão retratados nas fotos que aqui deixamos, gentilmente cedidas pela organização. Não posso deixar de destacar o branco Xistos Altos 2012, um monocasta de Rabigato que fez as delícias dos presentes pela sua personalidade.

Foi um excelente serão, com um agradável convívio e muito bons vinhos, a mostrar que a empresa está em boas mãos e com muito caminho para se afirmar. Os vinhos provados prometem, e já se sabe que a mão de Luís Seabra costuma produzir bons resultados.

Obrigado a toda a equipa da Muxagat Vinhos pela simpatia com que nos receberam e toda a atenção que nos dispensaram.

Kroniketas, enófilo viajante

Fotos: Muxagat Vinhos e Ricardo Palma Veiga

Muxagat Vinhos, Lda
Av. Gago Coutinho e Sacadura Cabral
6430-183 Mêda
Tel. 279.883.009