Continuando no universo Messias, passamos do Dão para a vizinha Bairrada, onde as Caves detêm a Quinta do Valdoeiro, situada na freguesia da Vacariça, concelho da Mealhada, na vertente poente da Serra do Buçaco. Esta quinta foi adquirida pela Sociedade aos herdeiros do Visconde de Valdoeiro nos anos 40 do século XX.
A partir de 1985 foi levada a cabo a reconversão gradual dos vinhedos, tendo as plantações mais recentes, realizadas em 1997, privilegiado a Syrah e a Touriga Nacional, que se juntaram à Baga, Castelão, Arinto, Bical, Cercial e Chardonnay.
A vinificação foi efecutada com maceração pelicular prolongada e estágio em barricas de carvalho francês durante 24 meses, sempre com base na Baga.
Este Reserva tinto de 2015 apresenta uma cor rubi, aroma intenso e complexo com notas de frutos do bosque. Na boca apresenta-se estruturado e pujante, com alguma adstringência inicial a requer o adequado arejamento. Taninos firmes mas sedosos e acidez refrescante. O final é longo e persistente.
A combinação de castas resulta quase na perfeição, combinando a pujança da Baga, o floral da Touriga Nacional e o apimentado e frutado do Cabernet Sauvignon nas doses certas. Mostra ter potencial de guarda mas está num momento excelente para o consumo, pelo que foi bebido na altura certa.
É um vinho que apresenta uma boa relação qualidade-preço e um bom representante da Bairrada, que merece ser revisitado.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Valdoeiro Reserva 2015 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 13%
Castas: Baga, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço: 10,25 €
Nota (0 a 10): 8
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
domingo, 26 de janeiro de 2020
No meu copo 820 - Quinta do Penedo Reserva tinto 2013
A Quinta do Penedo é uma das propriedades das Caves Messias, juntamente com a Quinta do Cachão no Douro e a Quinta do Valdoeiro na Bairrada. Fica situada na Aldeia de Carvalho, próximo de Mangualde, e foi adquirida pela Messias em 1998, estando a sua origem como vinha situada em 1930.
Parte da Quinta foi reestruturada em 2000 com a plantação de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Encruzado, que se juntaram às já existentes Tinta Roriz, Jaen e Tinto Cão.
Existe também uma área de pinhal e pomar de cerejeiras.
Este vinho foi elaborado através de vinificação clássica em lagares de granito, com pisa a pé. Estagiou 12 meses em madeira nova e usada.
Apresenta uma cor rubi de intensidade média, aroma com algum mineral e apontamentos de frutos pretos e do bosque. Estrutura média, algo delgado de corpo, final de boca mediano.
Desconhecia este Dão tinto da Messias, e fiquei indeciso sobre o que pensar dele. Não encantou. Pareceu faltar-lhe alguma personalidade, tipicidade. Dadas as castas utilizadas, seria expectável uma maior identificação com as características típicas do Dão.
Poderá ser um vinho para revisitar, para esperar por outra colheita. Poderá ser uma questão de estar num patamar de evolução menos favorável (quantas e quantas vezes acontece isto, e quantas vezes somos surpreendidos por vinhos em momentos de evolução extraordinários sem estarmos à espera...).
Dado o historial da Messias, tanto no Dão como na Bairrada, será sempre de esperar qualquer coisa melhor.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Penedo Reserva 2013 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço: 10,25 €
Nota (0 a 10): 7,5
Parte da Quinta foi reestruturada em 2000 com a plantação de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Encruzado, que se juntaram às já existentes Tinta Roriz, Jaen e Tinto Cão.
Existe também uma área de pinhal e pomar de cerejeiras.
Este vinho foi elaborado através de vinificação clássica em lagares de granito, com pisa a pé. Estagiou 12 meses em madeira nova e usada.
Apresenta uma cor rubi de intensidade média, aroma com algum mineral e apontamentos de frutos pretos e do bosque. Estrutura média, algo delgado de corpo, final de boca mediano.
Desconhecia este Dão tinto da Messias, e fiquei indeciso sobre o que pensar dele. Não encantou. Pareceu faltar-lhe alguma personalidade, tipicidade. Dadas as castas utilizadas, seria expectável uma maior identificação com as características típicas do Dão.
Poderá ser um vinho para revisitar, para esperar por outra colheita. Poderá ser uma questão de estar num patamar de evolução menos favorável (quantas e quantas vezes acontece isto, e quantas vezes somos surpreendidos por vinhos em momentos de evolução extraordinários sem estarmos à espera...).
Dado o historial da Messias, tanto no Dão como na Bairrada, será sempre de esperar qualquer coisa melhor.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Penedo Reserva 2013 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço: 10,25 €
Nota (0 a 10): 7,5
terça-feira, 19 de novembro de 2019
No meu copo 802 - Messias Bairrada Clássico branco 2012
Este foi o segundo Bairrada Clássico branco que tive oportunidade de provar, depois de duas colheitas do Frei João (aqui e aqui).
Fiquei na dúvida se este vinho já tinha sido lançado com esta idade, ou se apenas calhou cruzar-me com ele agora. Confirma-se, as Caves Messias lançaram este Bairrada Clássico branco da colheita de 2012.
E o problema foi mesmo esse. Não consigo apreciar as qualidades dos brancos muito evoluídos da mesma forma que nos tintos, e para mim este já tinha passado da conta. O tuguinho, pelo contrário, achou-o excelente.
Também beneficiou da decantação e da lenta subida da temperatura, pois apresentava evidentes sinais de redução, tendo desenvolvido aromas mais complexos com o arejamento.
Fermentou em barricas de carvalho velhas, estagiando depois um ano em garrafa. Apresenta-se com uma cor dourada bastante concentrada e notas de evolução acentuada no nariz. Na boca mostrou boa estrutura e final longo.
Não sendo este o estilo que mais me agrada, não consigo avaliá-lo tão bem como o vinho anterior. É preciso gostar mesmo do estilo.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Messias Clássico 2012 (B)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12%
Castas: Bical, Cercial
Preço: 19,85 €
Nota (0 a 10): 6,5
Fiquei na dúvida se este vinho já tinha sido lançado com esta idade, ou se apenas calhou cruzar-me com ele agora. Confirma-se, as Caves Messias lançaram este Bairrada Clássico branco da colheita de 2012.
E o problema foi mesmo esse. Não consigo apreciar as qualidades dos brancos muito evoluídos da mesma forma que nos tintos, e para mim este já tinha passado da conta. O tuguinho, pelo contrário, achou-o excelente.
Também beneficiou da decantação e da lenta subida da temperatura, pois apresentava evidentes sinais de redução, tendo desenvolvido aromas mais complexos com o arejamento.
Fermentou em barricas de carvalho velhas, estagiando depois um ano em garrafa. Apresenta-se com uma cor dourada bastante concentrada e notas de evolução acentuada no nariz. Na boca mostrou boa estrutura e final longo.
Não sendo este o estilo que mais me agrada, não consigo avaliá-lo tão bem como o vinho anterior. É preciso gostar mesmo do estilo.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Messias Clássico 2012 (B)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12%
Castas: Bical, Cercial
Preço: 19,85 €
Nota (0 a 10): 6,5
segunda-feira, 1 de maio de 2017
No meu copo 600 - Tintos velhos da Bairrada (9)
CR&F Garrafeira 1980; Messias Garrafeira 1983; Vilarinho do Bairro Garrafeira 1983; Dom Teodósio Garrafeira 1985

Para assinalar mais uma centena de posts (a 6ª) dedicados a vinhos provados à mesa, nada melhor do que voltar à senda dos vinhos velhos da Bairrada, agora com os restos de colecção de algumas verdadeiras relíquias. São os últimos exemplares que foram ficando guardados durante anos na garrafeira e que agora temos ido desbastando a pouco-e-pouco. Algumas destas marcas já nem sequer existem, tendo sido absorvidas por outros produtores que entretanto foram surgindo.
Uma das empresas clássicas era a Carvalho, Ribeiro & Ferreira, que produzia vinho em várias regiões e um Garrafeira com o próprio nome, que há algum tempo tivemos a possibilidade de provar. Este Bairrada CR&F Garrafeira de 1980 foi um vinho de que adquiri inúmeras garrafas durante a década de 90, em locais diversos. Tornou-se um caso de paixão, que me levou a construir um stock em quantidade suficiente para sobreviver durante cerca de duas décadas. Foi consumido com parcimónia, na companhia de apreciadores do género, que foram acompanhando a sua evolução em garrafa. A partir de certo ponto entrou num patamar de estabilidade donde parece não sair mais. Não decaiu nem melhorou. Era um vinho bem estruturado mas elegante, macio, persistente e de cor rubi aberta. Manteve esse perfil ao longo dos anos, agora naturalmente com muito menor vivacidade mas ainda com acidez suficientemente presente para não se tornar chato nem morto. Devido à sua extrema delicadeza, bebemo-lo preferencialmente com bifes à café, não excessivamente temperados mas bem regados com molho, e foi sempre uma excelente parceria.
Outro caso semelhante foi o Messias Garrafeira de 1983, também com um stock que durou anos. Tivemos, aliás, oportunidade de o partilhar com os participantes no 1º encontro de eno-blogs, há uns anos. Era um vinho mais pujante e muito aromático, mas que entrou também numa fase de equilíbrio precário, precisando por isso de ser tratado com todos os cuidados, mas mostrou que valeu a pena mantê-lo na garrafeira até aqui.
Da mesma idade, outra marca que se vê pouco e do tempo em que os vinhos tinham 11 ou 12% de álcool. Este Garrafeira 1983 da Adega Cooperativa de Vilarinho do Bairro também fez as nossas delícias em tempos, e na sua época foi muito bem classificado no Guia Comporta de Vinhos Portugueses, que se publicava na década de 90 do século passado. Também sobreviveu à prova do tempo e chegou a esta fase pleno de saúde, ainda com alguma pujança (quanto baste...) e aroma “quase” jovem.
Finalmente, um vinho uma década mais novo. As Caves Dom Teodósio foram um dos produtores absorvidos pela actual Enoport, que engloba também as antigas Caves Velhas. Este Dom Teodósio Garrafeira de 1995, oriundo do produtor original, estava fantástico. Cheio de vigor, estrutura e frescura, bouquet profundo, aromas terciários intermináveis. Estagiou primeiro em barricas de carvalho e depois um ano garrafa para obter a designação de “Garrafeira”. Em termos de cor e estrutura fez-me lembrar o Caves São João Reserva Particular de 1959, que provei na visita guiada àquele produtor. Um daqueles Bairrada à moda antiga, provavelmente um dos últimos exemplares que se conseguiu encontrar à venda, e que deixa saudades.
Todos eles deixam saudades.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Região: Bairrada
Vinho: CR&F Garrafeira 1980 (T)
Produtor: Carvalho, Ribeiro & Ferreira
Grau alcoólico: 11,5%
Nota (0 a 10): 8
Vinho: Messias Garrafeira 1983 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 11,5%
Nota (0 a 10): 8
Vinho: Vilarinho do Bairro Garrafeira 1983 (T)
Produtor: Adega Cooperativa de Vilarinho do Bairro
Grau alcoólico: 11,5%
Nota (0 a 10): 8
Vinho: Dom Teodósio Garrafeira 1985 (T)
Produtor: Caves Dom Teodósio
Grau alcoólico: 12%
Castas: Baga, Castelão, Tinta Pinheira
Nota (0 a 10): 9
quinta-feira, 27 de abril de 2017
No meu copo 599 - Quinta do Valdoeiro, Cabernet Sauvignon 2011
Já tinha saudades de beber um Cabernet assim, com um aroma clássico e a fugir da modernidade e dos exageros aromáticos dos pimentos. Apresentou notas especiarias, de cacau e frutos vermelhos, com boa estrutura e taninos firmes e redondos.
Na boca mostrou-se encorpado e persistente, com elegância e alguma adstringência contida, num conjunto muito equilibrado.
Estava num ponto óptimo de consumo, pelo que o tempo de garrafa lhe foi favorável, e revelou ser uma boa aposta das Caves Messias neste registo monocasta.
Para mim, que sou fã da Bairrada e do Cabernet Sauvignon, juntam-se nesta garrafa duas paixões para repetir.
Bom trabalho da Messias neste Quinta do Valdoeiro.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Valdoeiro, Cabernet Sauvignon 2011 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 8
Na boca mostrou-se encorpado e persistente, com elegância e alguma adstringência contida, num conjunto muito equilibrado.
Estava num ponto óptimo de consumo, pelo que o tempo de garrafa lhe foi favorável, e revelou ser uma boa aposta das Caves Messias neste registo monocasta.
Para mim, que sou fã da Bairrada e do Cabernet Sauvignon, juntam-se nesta garrafa duas paixões para repetir.
Bom trabalho da Messias neste Quinta do Valdoeiro.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Valdoeiro, Cabernet Sauvignon 2011 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 8
domingo, 31 de maio de 2015
No meu copo 457 - Douro Messias Reserva 2004
Falamos agora de outro vinho com 10 anos depois da colheita, desta vez do Douro e das Caves Messias, que são uma presença frequente nas nossas provas de vinhos velhos da Bairrada.
Este vinho foi produzido na Quinta do Cachão (em Ferradoza, próximo de São João da Pesqueira – sub-região do Cima Corgo), que dá o nome a uma das marcas das Caves Messias no Douro. Elaborado com desengace total das uvas e estágio em tonéis novos de carvalho francês, apresentou-se com uma cor rubi intensa, aroma a frutos vermelhos e frutos secos, muito suave, elegante e equilibrado na boca, com persistência média. Tudo bem balanceado, sem sinais de declínio, apresentando ainda muita frescura na prova. O álcool é ajuizado e não incomoda, não se sobrepõe nem se impõe no conjunto. A madeira e os taninos praticamente não se sentem, estando muito discretos e moderados.
Mais um vinho que aguentou bem a prova do tempo, não perdendo nada com a guarda durante quase 7 anos após a compra. Muito bem. Gostava de encontrar uma versão recente semelhante a esta. Tendo em conta que foi adquirido no Algarve, numa garrafeira da Praia da Rocha, no próximo Verão irei lá passar para ver se há mais.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Messias Reserva 2004 (T)
Região: Douro
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão
Preço (em Agosto de 2008): 5,99 €
Nota (0 a 10): 8
Este vinho foi produzido na Quinta do Cachão (em Ferradoza, próximo de São João da Pesqueira – sub-região do Cima Corgo), que dá o nome a uma das marcas das Caves Messias no Douro. Elaborado com desengace total das uvas e estágio em tonéis novos de carvalho francês, apresentou-se com uma cor rubi intensa, aroma a frutos vermelhos e frutos secos, muito suave, elegante e equilibrado na boca, com persistência média. Tudo bem balanceado, sem sinais de declínio, apresentando ainda muita frescura na prova. O álcool é ajuizado e não incomoda, não se sobrepõe nem se impõe no conjunto. A madeira e os taninos praticamente não se sentem, estando muito discretos e moderados.
Mais um vinho que aguentou bem a prova do tempo, não perdendo nada com a guarda durante quase 7 anos após a compra. Muito bem. Gostava de encontrar uma versão recente semelhante a esta. Tendo em conta que foi adquirido no Algarve, numa garrafeira da Praia da Rocha, no próximo Verão irei lá passar para ver se há mais.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Messias Reserva 2004 (T)
Região: Douro
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão
Preço (em Agosto de 2008): 5,99 €
Nota (0 a 10): 8
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
No meu copo 363 - Tintos velhos da Bairrada (4)
Primavera Garrafeira 1995; Messias Garrafeira 1995; Messias Reserva 1997; Frei João 1999

Continuando na senda das provas de vinhos velhos da Bairrada que ainda vão resistindo nas nossas garrafeiras, de vez em quando fazemos mais uma incursão para desbastar diversas garrafas a acompanhar umas carnes grelhadas, ou bem regadas com molho. Neste caso abrimos quatro garrafas da década de 90, de três produtores diferentes. Descrevemo-los por ordem do ano de colheita.
Das Caves Primavera provou-se um Garrafeira 1995, o mais delgado de todos. Apresentou-se macio e suave, mas já com alguma falta de corpo e persistência. Terá passado a sua melhor fase, embora estivesse perfeitamente bebível e sem denotar qualquer sinal de oxidação precoce. Teve o seu percurso que, neste caso, estaria já a caminho do fim, embora não fosse possível detectar na prova quão próximo estaria...
Das Caves Messias tivemos dois exemplares: o Garrafeira 1995 é uma repetição, um vinho que provámos com alguma regularidade ao longo dos anos. Curiosamente, ao contrário da prova anterior que aqui registámos, esta garrafa estava soberba! Também aberto e macio, mas com muita persistência e volume de boca, redondo mas cheio e com grande bouquet. Um Bairrada dos bons velhos tempos, com tudo no sítio. Este, por seu lado, pareceu estar ali para durar mais umas décadas.
Quanto ao Messias Reserva 1997, embora sem a exuberância aromática do seu parceiro de ocasião, mostrou grande vivacidade na boca e boa persistência, também sem denotar sinais de queda.
Finalmente o Frei João 1999, aquele que, porventura, terá sido a grande surpresa (ou não), porventura aquele onde as expectativas estavam mais baixas. Por ser um vinho de outra gama, por teoricamente não estar tão vocacionado a repousar muito tempo nas garrafeiras. Teoricamente. A verdade é que desde sempre me habituei a guardar uma ou duas garrafas do Frei João de entrada de gama (um vinho que actualmente se posiciona abaixo dos 3 €) durante alguns anos para ver como se aguentava. E desde sempre também descobri que era uma excelente companhia para fondue e bifes na pedra. Este não fugiu à regra.
Foi com um misto de curiosidade e receio que abri a última garrafa da colheita de 1999, mas os receios mostraram-se infundados. Estava de excelente saúde, encorpado, robusto, persistente, mas também com um final de boca macio e redondo. Mais uma vez mostrou que é um vinho pouco valorizado para a qualidade que apresenta. Esta colheita ainda tinha o perfil mais clássico, baseado exclusivamente na Baga, pois as mais recentes já incorporam outras castas como a Touriga Nacional ou a Camarate, tornando-o mais arredondado e bebível mais novo. Mas esta colheita de 1999 deu-me enorme prazer a beber, pois mantinha aquela combinação de suavidade e estrutura que não é fácil de encontrar.
Foi mais uma bela jornada de prova dos Bairrada clássicos, que sempre nos enchem de satisfação por constatar que valeu a pena ter guardado aquelas garrafas durante tanto tempo.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Região: Bairrada
Vinho: Primavera Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Caves Primavera
Grau alcoólico: 13%
Nota (0 a 10): 7,5
Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 9
Vinho: Messias Reserva 1997 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 8
Vinho: Frei João 1999 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Preço em feira de vinhos: 2,54 €
Nota (0 a 10): 8
quarta-feira, 11 de junho de 2008
No meu copo 181 - Tintos velhos da Bairrada (1)
São Domingos 1991; Casa de Saima Reserva 1991; Messias 1987
O tempo é sempre uma surpresa. Para o bem ou para o mal. Costuma-se dizer que o tempo faz aos vinhos o mesmo que faz aos homens: apura os bons e azeda os maus. O problema é que nem sempre sabemos se o que se esconde por detrás da máscara, ou dentro da garrafa, é bom ou mau.
Guardar vinhos é uma aposta arriscada. Quantas vezes cada um de vós já foi buscar “aquela” garrafa que estava ali guardada para uma ocasião especial e ao abri-la o vinho estava passado, azedo, em vinagre? Quantas vezes uma rolha em mau estado deixou o líquido impróprio para consumo, ou se desfez dentro do gargalo? Mesmo nos não muito velhos às vezes isso acontece, quanto mais em vinhos com mais de uma década...
E há uma década faziam-se vinhos para guardar. Alguns diziam mesmo para aguentar durante 10 anos. Hoje são raros aqueles em que existe essa indicação, raríssimos os que nos dizem para aguentar durante 20 anos. Quando vêm para o mercado, na maior parte dos casos já esperaram o tempo suficiente para estarem no ponto certo para beber. E no entanto, quem não teve já aquela curiosidade de saber como é que aquele vinho estará daqui a uns anos, se agora está assim? Será que ainda pode melhorar?
Pois foi isso que este vosso amigo fez, precisamente há uns 10 anos. A casa era mais pequena, não havia arrecadação, a garrafeira começou a crescer e os vinhos começaram a passar da despensa para a casa de banho. Havia que dar uma solução àquilo. E a solução foi pegar numa série de prateleiras, pô-las no carro e levá-las para longe - de noite para não apanharem calor - algures para uma cave duma casa no Alentejo. Foram bastantes. Ainda lá estiveram umas 30 ou 40 garrafas que se foram abrindo quando lá ia. Quantas se revelaram já fora de prazo, adocicadas, parecendo mais vinho do Porto...
E no entanto... Há alguns meses resolvi trazer de regresso o que restava do stock. Cobertas de pó, com os rótulos meio desfeitos pela humidade. Havia que saber em que estado aquilo estava. Ficaram na arrecadação e comecei a trazê-las para cima a pouco e pouco. Uns bifinhos bem temperados eram um bom pretexto para abrir uma delas. O que teria o tempo feito a estes vinhos?
Eram todos do Dão e, sobretudo, da Bairrada. Muitos da Bairrada. Os primeiros foram abertos no Encontro de Eno-blogs na York House: dois Messias Garrafeira de 1983, que surpreenderam os presentes, até a mim próprio. Estavam bons, já muito evoluídos mas sem sinais de estragos. Isso entusiasmou-me a continuar.
Comecei por um São Domingos de 1991, comprado em 1994. As Caves São Domingos não têm tido grande destaque no panorama nacional, e mesmo na região. Não se vêem muitos por aí. Este, quando o comprei, era quase imbebível, de tão adstringente. Era daqueles vinhos da Bairrada que em novos só os apreciadores conseguem provar. Estava espectacular. Uma cor carregada, ainda fechada, aromas profundos bem marcados pela casta Baga, aromas terciários que vêm pelo copo acima, aquele aroma que se aspira sem parar e quase parece eterno e que até hoje só encontrei nos vinhos velhos da Bairrada. Na prova de boca, um corpo envolvente e robusto, mas com os taninos completamente amaciados por mais de uma década de repouso. Um grande vinho, daqueles que dão um prazer imenso a beber. O tempo foi-lhe benéfico.
Seguiu-se um Casa de Saima Reserva de 1991. Outro que em novo poucos conseguiriam beber. Comprado em 1995. Uma rolha impraticável. O saca-rolhas furou-a pelo meio e, assim como entrou, saiu. A rolha ficou lá no mesmo sítio, inamovível, e os destroços provocados pelo saca-rolhas ficaram dentro do líquido. As perspectivas eram as piores. Nova tentativa e era como se a rolha não estivesse lá. Tentei com um daqueles com duas patilhas, que tentam agarrar a rolha pelos lados, junto ao gargalo, mas a rolha não saía. Só restou a faca, com a qual tentei puxá-la aos bocados. E foi aos bocados que ela acabou por se ir desfazendo, até que não restou alternativa a não ser empurrá-la para dentro da garrafa.
Foi um processo demorado. Tive de recorrer ao decanter e a alguns filtros de café, que estão ali para estas emergências. Despejei o líquido pacientemente para dentro do decanter, em pequenas porções até ensopar o filtro. Foram uns 10 minutos nisto. No final consegui livrar o vinho dos destroços da rolha e a maior parte destes ainda ficou na garrafa. As fotos de cima mostram o estado em que a rolha ficou dentro da garrafa.
E na prova? Ainda melhor que o anterior. Fantástico. Um verdadeiro Bairrada à moda antiga. Nem um leve aroma a mofo, nem um toque de contaminação pela rolha, nem sequer um pouco de depósito no fundo. Uma cor quase retinta, retratada na foto, outra vez “aquele” aroma. Fui bebendo sem dar por isso. E quando dei, mais de ¾ da garrafa tinham marchado. Era só ir despejando do decanter para o copo. Uma experiência rara. Esqueci-me completamente dos termos que o pessoal escreve aqui nos blogs. Aromas assim ou assado, balsâmicos, tostados ou cacau? Quais frutos secos ou frutos vermelhos... Que interessa isso? Quero lá saber! Só usufruir daqueles momentos únicos, só eu e o vinho, e os meus bifes com ervas de Provence. Sei lá se vou encontrar mais algum assim... Será que os vinhos têm alma? Se têm, esta estava lá.
Prossegui o périplo por um Messias de 1987, comprado em 1993. Este mais “normal”, digamos, mas como os anteriores ainda muito bebível. Em novo não era tão agreste, pelo que agora não ganhou tantos aromas escondidos. Mas marca bem a diferença com o mesmo vinho de agora. Qualquer semelhança entre este e um Messias de 2003 ou 2004, só mesmo no nome. Mais um clássico, que agora cedeu aos ditames da moda.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Região: Bairrada
Vinho: São Domingos 1991 (T)
Produtor: Caves do Solar de São Domingos
Grau alcoólico: 12%
Nota (0 a 10): 8,5
Vinho: Casa de Saima Reserva 1991 (T)
Produtor: Rosa Rodrigues de Almeida
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 9
Vinho: Messias 1987 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 11,5%
Nota (0 a 10): 7,5
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Prova à Quinta - O terceiro
Bairrada Messias Garrafeira 1995
Para o desafio aqui lançado há duas semanas, onde se pedia para encontrar tintos da Bairrada feitos com a casta Baga, fomos buscar um clássico: um Messias Garrafeira de 95, feito exclusivamente com a casta Baga.
Dada a idade já avançada, o vinho mostrou sinais evidentes de evolução, já com uma cor granada desmaiada e aberta com leves nuances acastanhadas. Os aromas mostraram-se fechados no início, mas após decantação libertaram-se e desenvolveram-se alguns aromas secundários e terciários tão típicos dos grandes Bairradas, embora sem grande exuberância. Apesar da idade, o vinho não apresentou quaisquer sinais de mofo nem de estar “passado”.
Na boca apresentou um corpo já delgado, com os taninos discretos mas ainda presentes e amaciados e um fim de boca longo sem ser agressivo. Algumas notas de especiarias e fruta discreta marcam um conjunto suave e equilibrado. É um vinho que já deverá ter passado o seu ponto óptimo, sendo que a partir de agora já não melhorará na garrafa, pois já perdeu a pujança dos taninos e grande parte do corpo. Beba-se, pois, antes que se perca.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Baga
Preço: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7
PS: Novo desafio lançado no Elixir de Baco
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