sábado, 27 de abril de 2013

Evento João Portugal Ramos/José Maria Soares Franco - Hotel Altis Belém

  
       



O evento João Portugal Ramos/José Maria Soares Franco, realizado no Hotel Altis Belém no dia 18 de Abril, foi fantástico. Estiveram presentes variadíssimos bloguistas e uma representação significativa da Revista de Vinhos (contei pelo menos Luís Lopes, director, Luís Antunes, Fernando Melo e, claro, João Paulo Martins. Ainda apareceu depois o jornalista Aníbal Coutinho e também estava Pedro Gomes, um dos fundadores do blog “Os 5 às 8”, que posteriormente se transformou no “Nova crítica”, além, naturalmente, de vários técnicos da equipa, quer em Estremoz, na Quinta de Foz de Arouce ou na Duorum. Na minha mesa ficaram alguns bloguistas, a jornalista Maria João de Almeida e a enóloga da João Portugal Ramos em Estremoz.

João Portugal Ramos (já com João Ramos júnior na mesma linha, a estudar em Montpellier), começou por fazer uma exposição acerca do seu projecto pessoal, baseado em Estremoz mas com ramificações para outras regiões, sendo a grande novidade a apresentação dum Alvarinho produzido na região de Monção-Melgaço.

Foram feitas apresentações sobre os vinhos a servir, o projecto de um e de outro e de ambos, passaram-se slides e beberam-se vinhos fantásticos, que ainda não estão no mercado porque todos eles são novidades. Depois de um espumante Conde de Vimioso sem grande história enquanto se esperava pela chamada para as mesas, pudemos provar um excelente Alvarinho 2012 de João Portugal Ramos, uma belíssima surpresa a prometer uma grande carreira no mercado destes varietais. Seguiu-se um novo tinto de JPR chamado Estremus 2011 (um misto de Estremoz e de extremo, para vincar a extrema qualidade que almeja alcançar), para o qual o enólogo procurou encontrar as castas que lhe conferissem a maior tipicidade alentejana, acabando a escolha por recair no Alicante Bouschet e na quase esquecida Trincadeira. Um vinho cheio de estrutura, aroma profundo, longo e persistente, simplesmente fantástico. Para mim o grande vinho da noite, que vários convivas acharam que irá para o patamar do Esporão Private Selection ou do Marquês de Borba Reserva (ou seja, na casa dos 30 ou mais euros). João Portugal Ramos fez questão de frisar, aliás, que 2011 foi a melhor colheita que já teve na sua carreira como enólogo.

Em seguida, após o uso da palavra por parte de José Maria Soares Franco, duas novidades da Duorum com nome O.Leucura (2008), à cota dos 200 e dos 400 m de altitude, para comparar as características dum e doutro. O nome e a origem deste vinho prendem-se com a existência dum pequeno pássaro existente na zona, o chasco preto que tem a cauda branca, de nome original Oenanthe leucura... mas não foi fácil encontrar o nome para o vinho... Perante a dificuldade, os autores sentiram-se quase próximos da loucura, e daí surgiu este nome invulgar.

Mas... o que diferencia na realidade estes dois vinhos? Segundo nos diz a ficha técnica dos mesmos, a maceração pós-fermentativa é mais longa na versão cota 200. A predominância das castas é semelhante, Touriga Franca e Touriga Nacional provenientes de vinhas velhas. Estagiam ambos cerca de 24 meses, 70% em barricas novas e 30% em barricas de segundo e terceiro ano. O vinho produzido aos 400 metros de altitude apresentou-se mais fresco e mais apelativo em termos imediato. No caso do vinho da cota 200, precisaria de mais algum tempo e menos dispersão para lhe apreciarmos as virtudes.

No fim, e para acompanhar a sobremesa, um Duorum Vintage 2011, que foi o que menos me agradou. Tinha um aroma a álcool canforado, fazia lembrar aquele que se usa para as lamparinas de fondue, com uma acidez volátil ainda excessiva que deu uma prova um pouco agressiva. Um vinho claramente a precisar de tempo na garrafa.

Os comes, é claro, excepcionais. O Chefe José Cordeiro está à frente da cozinha do Altis Belém e as iguarias apresentadas encaixaram na perfeição nos vinhos provados. Não posso deixar de fazer um reparo ao erro existente no menu das entradas: estava escrito “amouse mouche”, em vez “amuse bouche”. Estivemos nos entreténs de boca, e não a entreter moscas, e trata-se do verbo “amuser” e não “amouser”... Dois lapsos a corrigir.

No final do evento ainda deu para trocar algumas impressões com os promotores da iniciativa, bastante acessíveis em termos pessoais. José Maria Soares Franco (o Zé Maria, como João lhe chama) tem um registo talvez um pouco menos descontraído que João Portugal Ramos, mas é igualmente muito acessível. No fim ainda lhe falei no livro sobre a história do Barca Velha onde é relatado o seu longo percurso como enólogo na Casa Ferreirinha/Sogrape (foram 28 anos...) e a sua relação com Fernando Nicolau de Almeida, e ele achou curiosa essa minha abordagem. Pelo meio deu-me um cartão de contacto e um convite para uma visita à Duorum, em Castelo Melhor...

Para finalizar, a melhor surpresa da noite: à saída foi-nos oferecido um saco de cabedal com uma garrafa do Alvarinho de João Portugal Ramos e duas do Quinta da Viçosa Touriga-Cabernet, a colheita mais recente, que não esteve à prova porque o objectivo era mostrar apenas aqueles que são novidades absolutas em termos de mercado. Como complemento ainda foi entregue aos presentes uma pen-drive com o conteúdo das apresentações efectuadas pelos dois enólogos e com as fichas técnicas de todos os vinhos, o que se revelou de grande utilidade para a compreensão dos vinhos provados e para formarmos o nosso juízo acerca dos mesmos.

Resta agradecer à João Portugal Ramos Vinhos e à Duorum Vinhos pelo honroso convite que nos enviaram para este evento, que proporcionou excelentes momentos de convívio e de degustação de óptimos vinhos e excelentes iguarias. Pela nossa parte, tentaremos dar a estes novos vinhos o devido – e merecido – destaque, fazendo votos que para façam uma grande carreira, e que estes dois eméritos enólogos nos continuem a brindar com alguns dos melhores vinhos do país.

Bem hajam.

Kroniketas, enófilo encantado

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