segunda-feira, 7 de abril de 2008

Na Wine O’Clock 1 - Com João Nicolau de Almeida

O maestro do Douro


Tendo feito o registo no site da Wine O’Clock, agora recebo a newsletter que me informa dos eventos que vão ocorrendo. Um destes dias tive oportunidade de participar numa prova na loja de Lisboa com João Nicolau de Almeida, enólogo e administrador da Ramos Pinto, o “maestro do Douro” segundo a newsletter. Uma oportunidade que não podia perder.

Foi cerca de uma hora e meia de conversa à volta do copo e da garrafa, onde João Nicolau de Almeida (JNA) falou da sua experiência familiar, pessoal e profissional ligada ao mundo do vinho. Falou do pai, do irmão gémeo que vive em França, da sua própria formação em França, da Quinta da Ervamoira e da barragem que não se fez, dos vinhos que faz e dos que gosta.

Os lugares destinados àqueles que fizeram reserva (12) estavam todos ocupados e ainda havia mais alguns participantes de pé. Segundo Carlos Jorge, gerente da loja, foi uma das provas mais concorridas até hoje, sinal de que o nome do convidado “mexe com as pessoas”. Pelo meio fomos provando uns copos que nos eram servidos pelo anfitrião, com os rótulos das garrafas tapados.

Começámos por provar um branco, que JNA desde logo identificou como sendo do norte da Europa, dadas as suas características bem marcadas de acidez com alguma doçura, difíceis de encontrar em Portugal, mesmo nas regiões mais frias. Fomos tentando, em conjunto, descobrir que castas conteria o vinho e de que região seria. Falou-se em Riesling, Gewürztraminer, Chardonnay e Sauvignon Blanc, sendo que nenhuma delas se enquadrava no perfil do vinho. JNA ainda falou em Pinot Noir e Pinot Gris, de passagem. Falou-se da Alsácia e da Alemanha. Quando a garrafa foi revelada, descobrimos que era mesmo Pinot Gris... da Alsácia. Veuve Roth, Pinot Gris 2006. Um grande branco à venda na loja por apenas 7,50 €!

Seguiram-se dois tintos, de novo em prova cega. O primeiro desde logo revelou um perfil que pareceu não ser muito português. Por tentativas chegámos lá: alguém sugeriu que seria de Espanha. Depois a região: pareceu-me ser Ribera del Duero. Alguém sugeriu ter Cabernet, mas parecia mais Tempranillo. E de facto assim era. Quando se destapou o rótulo, a grande surpresa de se descobrir o mito dos vinhos espanhóis: um Vega Sicília Valbuena 5º de 2002! Curioso não ter feito os encantos de ninguém. Quando nos perguntaram quanto daríamos por aquele vinho, ninguém pareceu querer abrir os cordões à bolsa, mas o preço de referência era 98 €!

Ainda com este vinho no copo foi servido o segundo tinto, para podermos comparar. Um perfil muito mais concentrado, que no primeiro cheiro me pareceu exalar alguns aromas de vinho do Porto. Aos poucos foi-se libertando e revelando uma grande persistência. Depressa se percebeu ser um vinho eminentemente gastronómico, e JNA disse que com um belo bife marcharia na perfeição. Ficámos cientes de estar perante um grande vinho, que merecia ser decantado. Quando se destapou a garrafa, a grande surpresa que Carlos Jorge tinha prometido: era um Duas Quintas Reserva Especial 2003, um vinho que nem o próprio João Nicolau de Almeida identificou às cegas e que mereceu a explicação de tentar fazer um vinho com os mesmos métodos usados para o vinho do Porto, que só será produzido... quando calhar. Preço de venda: 68 €.

Foi uma prova muito interessante, pelos vinhos provados e pelo convidado, uma figura incontornável do panorama vitivinícola nacional, onde se falou de vinho e do prazer que esta bebida nos pode proporcionar. E não foi preciso falar de aromas balsâmicos ou notas de torrefacção com aparas de chocolate preto e bolacha Maria...

Kroniketas, enófilo embevecido

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