sexta-feira, 19 de maio de 2006

O feliz regresso do Barca Velha

Artigo publicado na “Revista de vinhos” nº 197 de Abril de 2006, assinado por João Afonso, que aqui reproduzimos com a devida vénia

«Depois de alguns anos de interregno, aí está mais um Barca Velha. Se é que se pode utilizar a expressão “mais um” a respeito desde tinto de 1999, um vinho portentoso que certamente ficará na história como um dos melhores Barca Velha de sempre. Escrever sobre o Barca Velha, ou sobre qualquer outro ícone, tem sempre algo de redundante. Todos sabemos que é o vinho português mais conhecido, ou pelo menos aquele que é conhecido há mais anos como um dos exemplos da qualidade máxima portuguesa em vinhos. Mas neste caso a redundância é apenas uma questão de justiça...

VINHO DE PACIÊNCIA
“Eu levo tempo a ter certezas!” São palavras de José Maria Soares Franco, líder da equipa de enologia da Casa Ferreirinha que por vezes também usa a pergunta ao contrário, “ou será o próprio vinho que leva tempo a ter certezas?!”

Esperar e voltar a esperar. Procurar sentir se o vinho que está há anos dentro da garrafa merece ou não ser abençoado com a distinta graça de “Barca Velha”. Em média a espera ronda os 7 anos mas há casos em que leva mais tempo.

E esperar é coisa que já não se faz nesta sociedade. Simplesmente porque não há tempo para esperar. O tempo fugiu-nos, deixámos de o ter. A todos nós mas não ao Barca Velha. Este ainda tem todo o tempo de que precisa. De tal modo que o de 1999 foi aprovado e lançado mas há uma colheita anterior (1998) que, segundo a equipa de enologia, pode ainda “vir a palco”. É tudo uma questão de prova, de entendimento (vinho / enólogos)... e de tempo.

Por oposição a este conceito temos a grande maioria dos outros vinhos que parecem autênticos adolescentes - sempre com a perninha a tremer, desejosos de sair à rua e de se mostrar.

À pressa deste mundo moderno junta-se a banalização e estandardização de tudo. Chamam-lhe globalização. Todos diferentes e todos iguais lutando com as mesmas armas de capitalização de recursos sem termos tempo de olhar para trás ou para pensar se de facto é este o caminho que nos interessa. São as necessidades de um mercado voraz cada vez mais castrador de vontades e sonhos próprios. Produtos novos, de preferência todos os dias, se possível com a imagem melhorada e peço rebaixado e, claro está, sempre fáceis - porque andar ou mesmo pensar é coisa que se usa cada vez menos. Na questão da bebida, que é o nosso tema de sempre, prefere-se o doce, pouco ácido, nada rugoso e, de preferência, NOVO. É isto que se vende. Entre duas colheitas do mesmo vinho a maioria dos consumidores levará o mais jovem. Novidade é sempre a novidade.

Mas o Barca Velha mantém-se vivo e bem vivo apesar de alheio a este rodopio de conceitos e conteúdos mais ou menos vazios. A ele, conceito e conteúdo não lhe faltam.

VINHO DE CONCEITO
As melhores uvas das castas Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão vindas principalmente da Quinta da Leda foram totalmente desengaçadas, suavemente esmagadas e vinificadas em cubas de inox. Durante a fermentação fizeram-se remontagens intensas, e depois desta terminar, uma maceração a quente durante mais três semanas cuidou de que “tudo” o que de bom as uvas transportavam consigo fosse deixado no vinho. Depois de terminada a fase de “embrião” o vinho foi transportado para V.N. de Gaia e acondicionado em barricas de carvalho francês novo durante 12 a 18 meses. Durante este período foi acompanhado de muito perto e no final, depois de inúmeras provas e análises de lotes e das barricas existentes, decidiu-se engarrafar o potencial Barca Velha que assim entrou no período de "gestação". Mas foram os 5 anos seguintes que determinaram se o Barca Velha 1999 chegaria ou não a nascer. É aqui que reside a nobreza deste vinho e deste conceito criado por Fernando Nicolau de Almeida e escrupulosamente honrado e seguido pelos enólogos da Casa Ferreirinha - esperar para ter certezas de que o consumidor é servido apenas com o melhor!

VINHO DE EXCELÊNCIA
Não é suficiente ter excelentes uvas e excelentes barricas, como normalmente acontece com a maioria dos vinhos Premium que hoje se comercializam, também é preciso que o tempo não arraste consigo o pequeno quinhão de eternidade que lhe é próprio. Durante as primeiras 4 décadas de história houve quatro Barca Velha nos anos 50s, três nos 60s, apenas um nos 70s, quatro nos 80s e três nos 90s. Em cerca de 50 oportunidades este vinho só viu a luz do dia em 15 colheitas.

Os vinhos das décadas de 80 e princípios de 90 foram muitas vezes desconsiderados injustamente. Saíam a mercado na fase em que os aromas primários tinham dado o lugar aos secundários e a concentração de prova tinha dado lugar à elegância. E o público irreverente e cada vez mais entusiasta dos vinhos novos, gordos e cheios de fruto argumentava – “o Barca Velha já não é o que era”.

Mas o enorme prestígio construído e cimentado neste conceito de exclusividade resistiu a modas menos favoráveis e o lançamento de cada novo Barca Velha nunca deixou de ser um acontecimento. Este último é-o duplamente.

O novo Barca Velha 1999 além de ser um grande vinho é uma “bofetada” de luva branca em todos aqueles que nos últimos anos se entretiveram a menosprezar este “velho senhor”. Com sete anos de idade tem tudo para se lhe chamar um vinho jovem. Exuberante no seu porte, atlético, requintado e clássico representa tudo o que a nobre tradição tem para oferecer a este Mundo desenfreado - uma lição de saber e de tempo.

Nota: Não se esqueça de colocar em pé a sua garrafa de Barca Velha (deste ou qualquer outro) no dia anterior ao seu consumo e de decantar cuidadosamente o vinho uns momentos antes de o servir. Seja exigente e rigoroso com a temperatura de serviço - nunca fora dos 17°-18°. Faça Verão ou Inverno.»

Kroniketas, enófilo esclarecido

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