sábado, 17 de fevereiro de 2018

No meu copo 654 - GA tinto 2016

Amareleja, freguesia do interior alentejano situada no concelho de Moura, quase a fazer fronteira com Espanha. Local mais quente do país. Aqui se registaram as temperaturas mais altas de Portugal desde que existem registos meteorológicos.

Granja-Amareleja, umas das 8 sub-regiões vitivinícolas do Alentejo, dividida entre os concelhos de Moura (distrito de Beja) e Mourão (distrito de Évora).

Há muitos anos que aqui se produz vinho, como comprova a fundação da Cooperativa Agrícola de Granja, que data de 1952. Também resulta daí a demarcação da região para a produção de vinhos DOC Alentejo, um pouco à semelhança das outras 7 sub-regiões onde existiam adegas cooperativas.

Esta região é algo diferente das outras. Desde logo por ter muito menos visibilidade quando comparada, por exemplo, com as sub-regiões vizinhas de Reguengos e Vidigueira, com as quais faz fronteira. Depois pelas temperaturas extremas no Verão. Finalmente porque ainda utiliza predominantemente as que há 25 anos eram as castas habituais no Alentejo. Ainda me recordo de começar a provar vinhos de Borba, Redondo e Reguengos em que o lote era quase sempre Moreto, Aragonês, Trincadeira e Periquita, como então ainda era conhecido o Castelão.

Entretanto houve a revolução vinícola que conhecemos e a explosão de produtores e área plantada, e a posterior migração de castas, tanto tintas como brancas, de sul para norte e, principalmente, de norte para sul, com o Alvarinho e as Tourigas a tornarem-se habituais nos lotes dos vinhos a sul do Tejo.

Já neste século, um dos nomes fortes da enologia portuguesa começou a dar uma mãozinha nos vinhos da Cooperativa da Granja. Sob a batuta do Prof. Virgílio Loureiro, surgiram novas marcas, deu-se ênfase à produção de vinhos em talha e recuperou-se o protagonismo do quase esquecido Moreto, esmagado pela ubiquidade de Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional ou Syrah.

E eis que surge este vinho de marca minimalista – tão minimalista que não consegui encontrá-la em lado nenhum nas minhas pesquisas no Google... – e com um lote tradicional: Aragonês, Moreto e Trincadeira.

E que vinho temos aqui? Talvez com alguma surpresa, dado o clima, encontrei um vinho estruturado e encorpado, com algumas notas de frutos pretos no aroma, final persistente mas suave e com alguma elegância. Ou seja, ao invés dum vinho robusto e pesado a reflectir o rigor do clima, obteve-se um vinho que mostra elegância, não parecendo ser originário dum terroir tão rigoroso.

Daqui se conclui que houve um bom trabalho na vinha e na adega para conseguir esta elegância no vinho. Não sendo de nos deixar de queixo caído, é um vinho que surpreende pela positiva, e merece certamente novas oportunidades.

Nota final: não consegui saber quanto custa este vinho, porque foi oferta.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: GA 2016 (T)
Região: Alentejo (Granja-Amareleja)
Produtor: Coop. Agrícola de Granja
Grau alcoólico: 14%
Castas: Moreto, Aragonês, Trincadeira
Nota (0 a 10): 7,5

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