terça-feira, 7 de agosto de 2012

No meu copo 288 - Porta dos Cavaleiros 1980; Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990

De vez em quando gostamos de ir ao baú buscar umas relíquias que por lá andam. Neste caso, foram duas aquisições recentes feitas em parceria pelos comensais mais habituais.

O Porta dos Cavaleiros veio da Garrafeira Nacional como oferta integrado numa compra de 6 garrafas do Porta dos Cavaleiros Touriga Nacional 2007, enquanto o Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira, um clássico que conhecemos há quase 20 anos, foi adquirido no mesmo local para vermos se ainda estava bebível, depois de nos ter despertado o interesse após a leitura duma prova efectuada pela Revista de Vinhos que percorreu a história deste vinho.

Como sempre acontece quando se abrem garrafas de vinho com estas idades, nunca se sabe o que se vai encontrar: desde um vinho azedo a um que parece estar apenas morto e a outro que está quase como novo, tudo é possível. Desta vez tivemos alguma sorte, embora em tempos diferentes. Cronologicamente foi como a seguir se conta.

Tudo começou num repasto alargado com todo o plantel, a pretexto duma peça de veado que o Caçador fez chegar à nossa mesa. Enquanto se ia debicando diversas entradas, que incluíram paio de porto preto, folhado de queijo no forno, requeijão com doce de abóbora e ovos mexidos com espargos e farinheira, acompanhadas por diversos brancos em desfile, fomos abrindo o Porta dos Cavaleiros e o Carvalho Ribeiro & Ferreira para lhes dar tempo de mostrar o estado em que se encontravam. Passados os primeiros aromas a mofo que por vezes andam por ali na primeira impressão, desde logo se percebeu que o Porta dos Cavaleiros 1980 estava de muito boa saúde. De corpo delgado como é normal num vinho com mais de 30 anos, cor acastanhada algo desmaiada, mas o aroma limpo e muito suave na boca, na boa tradição dos grandes tintos clássicos do Dão. Fomos bebericando aqui e ali e esperando a evolução. Durante o jantar todo o conteúdo da garrafa desapareceu antes de entrarmos nos pesos pesados.

Seguiu-se o Carvalho Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990, que pareceu estar mais para lá do que para cá. Cheirou-se, voltou-se a cheirar, verteu-se um pouco para uns copos mas decidiu-se não o decantar, não fosse o processo acelerar-lhe a morte. Algumas opiniões decretaram-lhe mesmo o óbito, mas eu não fiquei convencido. Pareceu-me ser uma daquelas situações em que logo após a abertura o vinho está muito escondido, com os aromas muito presos e a precisarem de tempo para se libertar. Acabou por ficar por ali meio esquecido quase até ao fim do jantar, em que depois de vários outros tintos ainda houve quem se abalançasse a voltar à carga. Não foi o meu caso, que me limitei a tapar a metade restante na garrafa com uma rolha de vácuo e a guardar a garrafa no frigorífico. “Deixa-o estar ali a descansar, se não estiver bom serve para tempero ou vai para o cano”, pensei...

No dia seguinte, enquanto libertava os restos do excesso de álcool da noitada, esqueci-me dele e de todos os outros. Dois dias depois tirei a garrafa do frigorífico meia-hora antes de jantar e resolvi experimentá-lo para tirar todas as dúvidas. E a surpresa foi enorme, depois das impressões colhidas 48 horas antes: o vinho estava fantástico, cheio de pujança e estrutura, com aromas intensos e uma persistência invulgar. Provei uma vez e outra, para me certificar que não estava enganado, dei a provar para comprovar, e não havia engano: o tempo de espera tinha permitido mostrar todo o esplendor daquele produto. Era aquilo que eu e o Mancha tínhamos bebido algumas vezes há quase 20 anos nos restaurantes de Lisboa. Como os restantes comensais já lá não estavam para partilhar o néctar, acabei por distribuir o restante em pequenas garrafinhas que tenho guardadas, para que todos pudessem confirmar a excelência do estado do vinho. Foi pena não o termos podido apreciar devidamente, na hora e mais a solo, mas ficou a intenção de voltarmos à carga. Pelo menos a Garrafeira Nacional ainda tem uns exemplares em stock...

São vinhos destes que nos fazem sentir que realmente vale a pena esperar por momentos assim.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porta dos Cavaleiros 1980 (T)
Região: Dão
Produtor: Caves São João
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990 (T)
Produtor: Carvalho, Ribeiro & Ferreira
Grau alcoólico: 12%
Preço: 17,50 €
Nota (0 a 10): 10

2 comentários:

Anónimo disse...

Assino por baixo em relação a tudo, só não me lembro de ter comido "tarde" de espinafres! ;-)

Kroniketas disse...

Já foi corrigido, até porque nem era disso que se tratava. Foi um duplo lapso.