quarta-feira, 10 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 4

Nas margens do Douro




Depois do momento sublime que foi a visita à Quinta da Ervamoira, chegou a etapa que nos levaria ao principal objectivo da viagem: em direcção ao rio Douro. Na zona de Vila Nova de Foz Côa o rio parece perto, mas ainda está muito longe da vista. É preciso andar quilómetros para o encontrarmos. Seguindo para norte pode-se chegar ao Douro no Pocinho, outro ponto de referência na região, mas optamos por procurar o rio mais a jusante e deixamos o Douro Superior rumando em direcção à Régua, mergulhando profundamente no coração da Região Demarcada.

Por estradas sinuosas e montanhas a perder de vista, é-nos dado contemplar a profusão de vinhas que forram aquelas encostas: é a paisagem omnipresente ao longo de intermináveis quilómetros. O aspecto mais curioso que o viajante encontra, enquanto avança lenta e cuidadosamente pelas serras, é o facto de aparecerem grandes placas no meio das vinhas a indicar o nome das empresas proprietárias. E assim nos vamos cruzando com alguns nomes que costumamos ver nos rótulos das garrafas: Ferreira, Real Companhia Velha, Quinta de Ventozelo, Quinta de La Rosa, Quinta do Vallado, Quinta Seara D’Ordens, etc. O que também chama a atenção é a diferença do estado evolutivo das uvas nestas vinhas em relação àquelas que vemos no centro e sul do país. Aqui estão muito mais atrasadas, com as folhas ainda a rebentar timidamente, enquanto no Ribatejo e na Estremadura já existe uma folhagem bem mais exuberante. Mesmo no microclima da Ervamoira, o calor ainda não chegou para amadurecer a vinha.

Há muito caminho para andar até passar por São João da Pesqueira e continuar a lenta aproximação ao rio. A todo o momento esperamos ver uma nesga de água no fundo do vale. Quando finalmente vemos o leito espreitar por trás duma curva já estamos a descer a encosta. Quando o relevo se aplana um pouco, ele aí está diante dos nossos olhos, o Douro, ladeado por margens imponentes. Estamos numa encruzilhada onde o Pinhão está ali mesmo ao pé. Hoje ficamos ali, junto à famosa estação dos comboios, com o Vintage House Hotel logo a seguir e o rio frente à nossa janela. Ali se junta o rio Pinhão ao Douro, permitindo-nos passear nas margens de ambos.

No dia seguinte é o momento há tanto ansiado: o passeio ao longo da margem esquerda em direcção à Régua. Como se esperava, o espectáculo é deslumbrante e motiva diversas paragens para fotografias, ao mesmo ritmo dum casal num BMW que pára nos mesmos locais. Mesmo junto à estrada deparamo-nos com a Quinta do Seixo, da Porto Ferreira, com o nome na porta e lá em cima, na encosta. Nesta região o nome Ferreira repete-se várias vezes na margem direita juntamente com outros nomes conhecidos de empresas de vinhos do Porto, como Taylor’s, Offley, ou Cálem.

A meio caminho ainda vale a pena parar na barragem da Régua para espreitar as comportas por onde os barcos de cruzeiro sobem e descem, já próximo da Régua passamos por Folgosa e paramos quase com os pés dentro de água.

Em Peso da Régua aparece uma figura mítica no cimo dum monte: o boneco da Sandeman, o homem da capa negra. Ali estaciona um barco rabelo das Caves do Castelinho. Depois do almoço ainda vale a pena apanhar a estrada para Vila Real e subir ao miradouro a meia-dúzia de quilómetros onde, passeando pelo meio de mais uma vinha, vemos toda a região em redor, com as curvas do Douro lá em baixo e a serra do Marão ao longe. Aqui termina a melhor etapa da viagem, iniciada com a visita à Quinta da Ervamoira. O caminho agora é para sul e o Douro vai ficar definitivamente para trás.

Kroniketas, enófilo viajante

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