quarta-feira, 1 de março de 2006

Reflexões à volta da garrafa (1) - O preço é só um começo

(republicação adaptada; post original de 17 de Dezembro de 2003, nas Krónikas Tugas)

Lá dizia a propaganda do beato de Santa Comba Dão, que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses. Nos tempos que correm não serão tantos a comer, com certeza, mas os que produzem fazem-no bem melhor. Findo que está o reinado do vinho a granel, que corria baixo das tabernas esconsas de bairro, nas últimas duas décadas tem sido percorrido um longo caminho em direcção à qualidade.

Não só os produtores, na sua maioria, apostaram definitivamente nessa qualidade, como também os consumidores, inundados de informação vinícola, com guias, roteiros e feiras de vinhos anuais, estão mais exigentes e por isso a selecção dos produtos vendidos tem de ser ainda mais rigorosa. Só há uma coisa que espanta: como é que podem aparecer todos os anos mais não sei quantas marcas de vinho, em particular do Alentejo? Haverá vinha para tanto vinho?

De qualquer modo, há por aí umas preciosidades que vale a pena descobrir sem entrar na loucura de alguns preços verdadeiramente obscenos (cá para mim, 35, 40, 50, 75 euros ou mais por uma garrafa é escandaloso, principalmente para o país que somos). Há pouco mais de dois anos, ainda as Krónikas Tugas não estavam sequer em embrião, deparei, quase por acaso, com umas garrafas da Sogrape, sem grande aspecto, com rótulo modesto, preto com letras vermelhas. Dizia apenas isto: Quatro regiões, 1997. Feito com uvas provenientes de quatro das mais famosas regiões do país, Douro (Tinta Roriz), Dão (Touriga Nacional), Bairrada (Baga) e Alentejo (Trincadeira), vinificadas separadamente e depois loteadas para produzir o vinho de que aqui se fala. Classificado como “vinho de mesa”. Preço: 12,77 €, carote.

Contactados os potenciais compinchas do costume, ficou decidido comprar duas que seriam deglutidas por três (sim, porque os amigos não são só para partilhar o néctar, mas também o seu custo). E assim, na primeira ocasião lá se despejaram (para dentro) as garrafas, com a promessa de voltar à carga. Resultado: um espectáculo! Mas vindo da Sogrape outra coisa não seria de esperar. Claro que, agora, o vinho já não está no seu máximo, como já aqui demos conta, mas a impressão então recolhida permanece. Afinal, de que serve uma classificação do IVV, quando o que está dentro da garrafa é que conta?

Nos últimos anos exagerou-se no preço dos vinhos, mas a moda parece ter passado e já se ter voltado a patamares mais razoáveis. Errado é comprar pelo rótulo, ou comprar só o caro porque o caro deve ser bom (se puderem fazê-lo). Se não sabe, procure o conselho de quem conhece, ou um dos inúmeros guias que por aí andam (ou, em última análise, se estiver mesmo desesperado, leia as Krónikas Viníkolas!). Mas deixem-me dizer que muitas vezes temos confirmado que grandes diferenças de preços - por exemplo entre um vinho “normal” de uma marca e o respectivo Reserva - não se justificam minimamente. Gastando muito menos podem comprar-se vinhos quase tão bons. Só um exemplo: o Duas Quintas, de que já falámos oportunamente e de que já se consegue comprar uma garrafa por menos de 7 €. O preço do Reserva vai para os 35 - 40 €. Será que este é 5 vezes melhor que aquele? Dificilmente o será. Não que não seja melhor, mas nesta como noutras coisas, há que conhecer a relação qualidade/preço e escolher ponderadamente. Não limite o seu prazer, mas não o faça depender demasiado do recheio da sua carteira.

Kroniketas, enófilo esclarecido

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