sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

No meu copo, na minha mesa 3 - Frei João 2000; Restaurante O Coreto de Carnide (Lisboa)

Hoje foi dia de sortida do núcleo duríssimo do grupo gastrónomo-etilista (e não elitista!) Os Comensais Dionisíacos, alter-ego colectivo de uns tantos apreciadores do bem beber e bem comer. Não foi um repasto normal do grupo, antes uma sortida diurna ao Coreto de Carnide – portanto, o alvo principal foi mais o que se ia mastigar do que o que se ia beber.

Os líquidos primeiro: bebeu-se um singelo Frei João, um Bairrada base de gama das Caves São João que, apesar de não ser nenhum suprasumo, é um honesto néctar daquela região para ser apreciado uma meia dúzia de anos após a colheita. De corpo mediano e cor profunda (ou não fosse de casta Baga), ligou bem com o prato que nos trucidou a fome, sem nos desiludir. Sim, porque isto é importante: o Frei João preencheu os requisitos que esperávamos dele. Geralmente as decepções até são causadas por vinhos de gama mais elevada, que defraudam as expectativas dos comensais. Portanto, quanto a vinho, estamos falados.

Agora os sólidos: quem conhece o restaurante porventura terá já adivinhado o que escolhemos para forrar o estômago – o naco na pedra, pedaço de carne crua a aquecer-se sobre uma pedra granítica, grelhado pelo consumidor a seu gosto na própria mesa.

E também aqui as expectativas não foram defraudadas. Carne de muito boa qualidade numa posta generosa, uma fatia de bacon a ajudar a engordurar a base, tudo encaixado numa tábua com três molhos tipo fondue mas de confecção caseira, acompanhado por batatas fritas e esparregado de razoável qualidade.

Para sobremesa, um de nós comeu Lambe-os-beiços, que não é mais que gelado regado com chocolate quente, e eu preferi requeijão de Seia com doce de abóbora e gila – isto era o que dizia na lista, porque o doce que acompanhava o lacticínio era doce de abóbora (normal) com laranja e canela, que sabia mais ao citrino que à abóbora – gila (ou chila) nem vê-la! Foi o ponto fraco de uma boa refeição. Ah, o Kroniketas lambeu mesmo os beiços, mas como é um viciado em chocolate esta reacção não tem valor.

O restaurante é simples mas minimamente confortável, com 27 posições para outros tantos mastigantes. Não é o sítio onde se leva a potencial conquista, mas é um honesto local para apreciar alguns bons pratos, com destaque para o ex-libris da casa, o naco estirado em cima do calhau. Chegue cedo ou reserve, porque senão fica à porta.

Como nota final, refira-se a loucura que são os preços dos vinhos praticados em quase todos os restaurantes. O Frei João referido obtém-se em qualquer hipermercado em troca de 2 euros e picos, mais coisa menos coisa. Pagou-se aqui, num restaurante normalíssimo, 11 euros! Convenhamos que é um escândalo. E 2 euros e picos é preço de consumidor final, porque um restaurante paga menos por ele à distribuição! Mesmo acrescentando o serviço, roça o roubo. Não é, no mínimo, especulação?

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Frei João 2000 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Casta: Baga
Preço em feira de vinhos: 1,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante: O Coreto de Carnide
Rua Neves Costa, 57 (em frente ao coreto, na parte velha de Carnide)
1600-533 Lisboa
Tel.: 21.715.23.72
Nota (0 a 5): 4

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