quarta-feira, 19 de março de 2014

No Chafariz do Vinho - Prova de vinhos da Real Companhia Velha





Na passada semana tive a feliz oportunidade de receber um convite para estar presente no Chafariz do Vinho - Enoteca, propriedade de João Paulo Martins de que já aqui falámos algumas vezes, para uma prova alargada de vinhos da Real Companhia Velha, na qual esteve disponível um portefólio alargado composto por cerca de 30 vinhos, entre brancos, tintos, um rosé, um espumante e vinhos do Porto.

Entre enófilos, jornalistas e outros profissionais, enquanto se provava, conversava e se complementava a prova com alguns acepipes que estavam à disposição nas mesas, pude ir trocando impressões sobre os vinhos da empresa com dois dos representantes da casa: o director de enologia Jorge Moreira, cujo nome saltou para a ribalta pela sua produção em nome pessoal do famoso Poeira, e Pedro Silva Reis, director de marketing e filho do presidente da administração com o mesmo nome.

Correndo o risco de ter mais olhos que barriga, fui percorrendo os diversos brancos, a começar pelo espumante Séries, um lote de Pinot Noir e Chardonnay que não marcou muitos pontos entre os presentes, seguindo pelo branco Séries Arinto. Esta gama, como foi explicado, pretende funcionar como experiência para possíveis entradas de novas marcas na gama Quinta de Cidrô. Gostei do Arinto, mas parece que os homens fortes da casa não ficaram convencidos com ele... Depois passei pelos mais tradicionais e das gamas mais baixas, neste caso o Evel e o Porca de Murça Reserva, duas marcas com longa história na casa. O Evel fazendo jus à origem do seu nome (Leve escrito ao contrário), o Porca de Murça com alguma falta de aroma.

Seguiu-se então o périplo pelos monocasta da extensa gama da Quinta de Cidrô, até terminar no topo da casa, a mais recente marca produzida na Quinta de Carvalhas e chamado simplesmente Carvalhas. E começando já pelo fim, há que dizer que estamos perante um branco fantástico, de aromas finos e elegantes e simultaneamente estruturado, persistente, gastronómico, com muito ligeira tosta da madeira que lhe dá uma envolvência suave envolvência do conjunto. Claramente um branco de topo!

Percorrendo a gama Quinta de Cidrô, quase totalmente baseada em castas estrangeiras (a excepção é o Alvarinho), temos diversos perfis para diversos gostos, embora as diferenças, curiosamente, não sejam tão acentuadas como se poderia pensar. O que foge mais claramente ao perfil tendencialmente aromático, frutado, suave e pontuado por uma acidez vibrante da generalidade destes brancos é, precisamente, o Chardonnay. Sobre este vinho em particular tive uma troca de impressões mais demorada com os representantes da casa, devido à curiosidade que me movia após as longínquas impressões anteriores. Por um desses acasos em que a vida é fértil e que nos aparecem quando menos esperamos, no dia seguinte a esta prova pude degustar calmamente este vinho à refeição, e as poucas impressões colhidas na prova foram então “tiradas a limpo”, digamos assim, e confirmaram que está diferente do que era, embora continue a ser o vinho mais estruturado dentro da gama Quinta de Cidrô. Os restantes, são genericamente mais leves, aromáticos, frescos, recaindo a minha preferência no Alvarinho e no Sauvignon Blanc. Achei curioso o Sémillon, que precisa de uma prova mais demorada, enquanto o Gerwurztraminer me pareceu algo discreto de aromas.

Passei rapidamente pelo rosé, que já conhecia de outra ocasião e confirmou o que dele esperava, e passei ao piso de cima para provar os tintos, porque a tarde já ia longa e já muito se tinha provado, mas muito mais havia para provar.

De novo com a colecção da Quinta de Cidrô em destaque, uma referência particular para a suavidade do Pinot Noir e a estrutura do Cabernet Sauvignon. Interessante o Séries Rufete, expectáveis e sem surpresa os Evel e Porca de Murça, mas as estrelas foram sem dúvida as quatro novidades: o Evel Centenário, o Quinta dos Aciprestes Grande Reserva (o único representante desta marca presente) e, principalmente, o monocasta Carvalhas Tinta Francisca e o extraordinário Carvalhas Vinhas Velhas, para mim o vinho da noite. E foi o vinho da noite porque, após uma pequena passagem pelo colheita tardia Grandjó, retirei-me das lides: era altura de debandar e já não havia capacidade para fazer a prova dos Portos, pelo que deixei essa tarefa com os resistentes que conseguiram percorrer todo o portefólio...

Em jeito de balanço, pode dizer-se que a Real Companhia Velha está nova, de boa saúde e recomenda-se. Depois de muitos anos em que praticamente se limitava a comercializar vinhos do Porto mais o Evel, o Porca de Murça e o Grandjó, o aparecimento das marcas Quinta dos Aciprestes, Quinte de Cidrô e agora o lançamento do topo de gama Carvalhas vieram trazer um novo fôlego aos vinhos de mesa da casa, com mais notoriedade na gama de marcas que ocupam as prateleiras das superfícies comerciais e com uma vasta escolha à disposição do consumidor.

Parabéns aos administradores e enólogos da Real Companhia Velha pela imagem renovada da velha casa. Ficam também os agradecimentos à consultora em comunicação, e profissional de relações públicas, Joana Pratas, que tem tido a amabilidade de nos dirigir alguns convites que possibilitaram que estivéssemos presentes nalguns eventos para recordar.

Agora só nos resta ir provando o que for possível...

Kroniketas, enófilo esclarecido

sábado, 15 de março de 2014

No meu copo 370 - Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2012

Longe vão os tempos em que quase detestei este vinho. Na altura pelo que considerei boas razões, todas elas ainda válidas nas apreciações que faço dos brancos, tanto os baseados na casta Chardonnay como os fermentados em madeira...

Entretanto os tempos mudaram. Mudaram os vinhos brancos, mudou a minha matriz de apreciação após muitos tipos de brancos provados, mudaram as práticas vitícolas e enológicas. 7 anos depois e 8 colheitas depois, uma visita a um amigo permitiu-me voltar a encontrar-me com este Chardonnay da Quinta de Cidrô e, ao contrário dos meus maiores receios, fiquei bastante agradado com este vinho da colheita de 2012. Continua a ter os mesmos 14% de álcool, fermenta em madeira e repousa 6 meses sobre borras. Mas desta vez encontrei um vinho fresco, estruturado e persistente mas vivo e com boa acidez.

Sem resquícios das notas amanteigadas que tornam estes vinhos tão enjoativos (e que, vá lá saber-se porquê, alguns até parecem elogiar quando explicam como é o vinho...), não sendo um vinho fácil e mantendo um perfil com alguma robustez, já se consegue ter à mesa sem precisar de pratos pesados. Precisa, sim, de pratos com alguma estrutura e bem temperados, mas não excessivamente. A sua estrutura parece conferir-lhe uma boa capacidade de envelhecimento, e talvez daqui a uns anos se torne num vinho mais macio e suave.

Foi um reencontro feliz. Pelos vistos, mudou o vinho e mudei eu a forma de apreciá-lo. Gostei, e voltarei à carga.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2012 (B)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%
Casta: Chardonnay
Preço hipermercado: 7,69 €
Nota (0 a 10): 8,5


Nota: por uma feliz coincidência, a prova desta garrafa ocorreu no dia imediatamente a seguir a uma prova alargada de vinhos da Real Companhia Velha, realizada no Chafariz do Vinho, durante a qual tive oportunidade de conversar com Pedro Silva Reis (filho do administrador) e Jorge Moreira (enólogo) sobre as minhas muito antigas reservas acerca das impressões colhidas acerca deste vinho. Dessa prova, que contemplou cerca de 30 vinhos, falarei brevemente.

terça-feira, 11 de março de 2014

No meu copo 369 - Deu La Deu, Alvarinho 2012; Soalheiro, Alvarinho 2012

Temos aqui dois Alvarinhos de créditos firmados. Um com um excelente posicionamento no mercado em termos de relação qualidade/preço e uma aposta segura: o Deu La Deu é certamente uma das melhores compras dentro dos Alvarinhos por pouco dinheiro. Límpido e brilhante e de cor citrina, mantém a frescura habitual, aroma frutado onde se destacam alguns frutos tropicais e nuances florais. Continua em muito boa forma e não desilude.

Quanto ao Soalheiro, um dos nomes em ascensão nos anos mais recentes, já se cotou como uma das melhores marcas entre os verdes brancos de Alvarinho. Foi a segunda prova de Soalheiro em menos de um ano, depois da prova da colheita de 2011, e confirmou o que se esperava: elegante, fresco e vibrante na boca, exuberante no nariz, com grande vivacidade, é mais uma marca a repetir uma e outra vez.

Na gama mais acima, a aproximar-se dos 10 €, é também uma excelente aposta. Está de parabéns o produtor e enólogo Luís Cerdeira, que sem fazer ondas vai-se firmando no mercado e tornando os seus vinhos uma referência obrigatória na região. Para continuar a seguir com atenção.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Deu La Deu, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Monção)
Produtor: Adega Cooperativa Regional de Monção
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 5,64 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Soalheiro, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Vinusoalleirus
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 8,48 €
Nota (0 a 10): 8,5

sexta-feira, 7 de março de 2014

No meu copo 368 - Espumantes brutos: Casa Ermelinda Freitas; Danúbio

Uma ocasião festiva proporcionou a abertura de alguns vinhos com borbulhas, desta vez em dose moderada. Tentei encontrar dois espumantes na gama média, tendo a escolha recaído num dos novos, da Casa Ermelinda Freitas, e outro já consagrado, das Caves Aliança.

O espumante bruto da Casa Ermelinda Freitas é produzido com base na casta Fernão Pires, que fornece alguma estrutura e elegância, complementado por um toque de Arinto, que acrescenta a acidez e frescura. Na boca é macio e elegante, de persistência média, aroma citrino algo discreto.

O Danúbio, uma marca clássica da Aliança, produzido na Bairrada, apresenta-se um pouco mais estruturado e mais longo, com aroma mais intenso. Na prova de boca é também um pouco mais vibrante, fazendo um conjunto um pouco mais vivo e apelativo. As castas utilizadas não são mencionadas, pelo que não sabemos se é apenas um “blanc de blancs” ou se também tem incorporada alguma casta tinta, como a Baga, prática habitual na região... Mas poderíamos supor que sim...

Em suma, por preços não exagerados, temos aqui dois espumantes que serem excepcionais conseguem cumprir o seu papel sem dificuldade e fazer uma prova agradável. E no caso vertente, o mais barato saiu-se melhor...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Casa Ermelinda Freitas, Espumante Bruto (B) - sem data de colheita
Região: Península de Setúbal
Produtor: Casa Ermelinda Freitas
Grau alcoólico: 12%
Castas: Fernão Pires, Arinto
Preço em hipermercado: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Danúbio, Espumante Bruto (B) - sem data de colheita
Região: Bairrada
Produtor: Aliança - Vinhos de Portugal
Grau alcoólico: 12%
Castas: não indicadas
Preço em hipermercado: 4,19 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 3 de março de 2014

No meu copo 367 - Quinta do Corujão 2011

Proveniente do trio de enólogos autodenominado como M.O.B. (Jorge Moreira, Francisco Olazabal e Jorge Serôdio Borges), que lançou um vinho do Douro com o mesmo nome, surgiu mais recentemente outra novidade do Dão, o Quinta do Corujão. Este vinho foi objecto duma prova na garrafeira Wines 9297, onde não tive oportunidade de estar presente, mas já depois disso passei na garrafeira e pude provar o vinho, que me agradou.

Posteriormente, acabei por adquirir uma garrafa no Pingo Doce e abri-a no próprio dia, coisa que raramente faço. Mas o jantar pedia algo a acompanhar, e a curiosidade de experimentar o vinho com mais tempo e mais calma levou-me a prová-lo ao jantar.

Produzido na zona de Gouveia, perto da encosta da Serra da Estrela, com as castas tintas mais emblemáticas do Dão, fez-me lembrar os tintos da região à moda antiga, de há 10 ou 20 anos. Apresenta uma cor rubi aberta, aroma profundo e delicado, suave e elegante na boca, taninos redondos e macios, um vinho marcado por alguma finesse, sem nada que se assemelhe a outras tendências.

Sendo um vinho de gama média, o preço é excelente para a qualidade que apresenta, o que o torna um produto de compra apetecível, para além de bom companheiro da mesa.

Com toda a certeza, irei repetir. Fiquei fã, de tal forma que já adquiri outra garrafa. É um vinho com lugar adquirido nas nossas sugestões.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Corujão 2011 (T)
Região: Dão
Produtor: Moreira, Olazabal e Borges
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 4,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Na GN Cellar 5 - Álvaro Castro


De novo na GN Cellar, não pudemos perder a oportunidade de participar na prova de vinhos de Álvaro Castro, um dos nomes incontornáveis do Dão nos tempos que correm.

Foi apresentado um conjunto notável de vinhos brancos e tintos, difícil de classificar e distinguir, dada a variedade de estilos:

- Quinta de Saes Reserva branco, sem madeira
- Quinta de Saes Encruzado branco, com madeira
- Quinta de Saes Estágio Prolongado
- Pape
- Quinta da Pellada Jaen
- Quinta da Pellada TouNot
- Quinta da Pellada 2011 (ainda não disponível)
- Carrocel

O que dizer destes vinhos? Todos bons, todos diferentes. Surpreendente o Quinta de Saes Reserva branco, sem madeira ao contrário do Encruzado, mas com uma estrutura e complexidade que pareciam indicar o contrário. Pessoalmente achei-o mais equilibrado e atractivo que o Encruzado, um pouco mais linear.

Muito elegante o Quinta de Saes Estágio Prolongado, um verdadeiro Dão clássico com uma excelente relação qualidade/preço (cerca de 8 €). Depois entramos na gama alta, onde todos os vinhos são excelentes e caros. Cheio de vigor o Pape, interessantes as experiências com o Jaen e o TouNot, um lote de Touriga Nacional e Pinot Noir. Superlativo o Carrocel, hoje por hoje certamente um dos melhores tintos do Dão.

Perante tão elevada qualidade da generalidade dos vinhos provados, difícil é tecer longos considerandos. Uma certeza fica para todos os que tiveram a possibilidade de estar nesta prova: todas as marcas sob a chancela de Álvaro Castro são sinónimo de elevada qualidade. Numa época em que se discute em vários fora (nomeadamente nas redes sociais) a visibilidade e o reconhecimento da qualidade dos vinhos do Dão e a sua tradução em prémios ou colocação no topo dos rankings publicados, este exemplo comprova que mais importante que isso é conhecer os vinhos e tirar daí as respectivas conclusões. Quanto ao resto... é apenas uma questão de querer ou poder pagar por eles.

Kroniketas, enófilo esclarecido

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Na GN Cellar 4 - Vinhos Druida e Outrora


Embora nem sempre se consiga ter os relatos das provas actualizados, a verdade é que eles vão acontecendo. A um ritmo que não é possível acompanhar, sempre vamos conseguindo, aqui e ali, aparecer numa ou noutra prova para conhecer novidades ou provar vinhos de produtores com os quais estamos menos familiarizados.

Foi o caso desta prova, ocorrida já há algumas semanas nas novas instalações da Garrafeira Nacional na baixa lisboeta, sob o nome GN Cellar. Implicadas no evento estiveram duas marcas recentes, resultantes dum projecto de dois enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa: Druida nos brancos e Outrora nos tintos. Aqueles do Dão, estes da Bairrada.

A prova começou pelo Druida Encruzado de 2012, muito fresco e aromático e com estrutura interessante na boca, marcada por uma evidente mineralidade. Mas a seguir veio uma amostra de 2013, ainda em cuba e não filtrada, que mostrou um aroma citrino muito mais intenso e pareceu mostrar um excelente potencial evolutivo. As opiniões dividiram-se, porque os dois vinhos se mostraram muito diferentes, mas gostei francamente mais da amostra de 2013. Um branco que promete, ao qual há que estar atento.

Nos tintos tivemos três exemplares do Outrora Baga, de 2009, 2010 e 2011, este também ainda em amostra de casco, e apresentado como vinho “para corajosos”. O curioso nesta prova foi a acentuada diferença entre os três anos provados: o 2009 muito mais macio que o de 2010, mas ambos a mostrarem uma robustez domada, um pouco na linha dos vinhos de Luís Pato, que consegue mostrar as virtudes da Baga tornando os vinhos bebíveis enquanto jovens. O vinho para corajosos, de 2011, apareceu potente na boca, com um perfil que não agradará aos menos habituados e a quem anda à procura do “docinho e frutadinho”. É um vinho difícil, mas é um daqueles Baga que dão gosto provar, porque sente-se ali toda a estrutura de taninos bem presente mas uma complexidade de sabores e aromas que auguram um grande futuro para este vinho.

Em resumo, pela amostra ficámos a perceber que temos aqui dois belos vinhos que certamente vão evoluir muito bem em garrafa e beneficiar com o tempo de descanso. No caso dos tintos, o preço é que pode ser desencorajador, porque vai para cima das duas dezenas de euros...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Nota: na ausência de fotos das garrafas tirados no local, para ilustrar este post socorremo-nos, com a devida vénia, da foto apresentada pela GN Cellar para anunciar o evento.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

No meu copo 366 - Frei João branco 2012; Porta dos Cavaleiros branco 2012

Continuando no Dão e nas Caves São João, baixamos agora a fasquia e damos um salto também à Bairrada. Depois de várias provas de tintos clássicos em que nos deliciámos com algumas relíquias da casa durante o outono passado, agora chegou a vez dos brancos de entrada de gama das duas marcas mais emblemáticas: o Frei João, na Bairrada, e o Porta dos Cavaleiros, no Dão.

Tendo em conta o preço dos vinhos em causa, houve que baixar também as expectativas para ver o que nos saía.

O Porta dos Cavaleiros 2012 mostrou um aroma discreto e pouco pronunciado, com algum citrino e notas florais discretas. Em comparação com os novos brancos do Dão, com uma exuberância aromática e uma estrutura notáveis, este prima pela leveza e simplicidade. Para pratos leves ou entradas, de preferência para entreter.

No que respeita ao Frei João 2012, com um bocadinho mais de estrutura e um fim de boca um pouco mais longo, também não é vinho para grandes voos. Aguenta um pouco melhor alguns pratos um pouco mais elaborados, mas não se espere grande complexidade para acompanhar pratos muito elaborados.

Dito isto, não é surpresa nenhuma porque é que uns vinhos são caros e outros são baratos. Neste caso o preço está adequado ao produto. Se tivermos outras ambições quando ao que está dentro de garrafa, temos de subir alguns euros nos gastos. E como em tudo na vida, quando nos habituamos a subir alguns patamares é difícil voltar para baixo...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Caves São João

Vinho: Frei João 2012 (B)
Região: Bairrada
Grau alcoólico: 12%
Castas: Bical, Arinto, Chardonnay
Preço em feira de vinhos: 2,93 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Porta dos Cavaleiros 2012 (B)
Região: Dão
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Encruzado, Malvasia Fina, Cerceal
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 6

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

No meu copo 365 - Porta dos Cavaleiros Reserva, Touriga Nacional 2007

Seguimos no Dão e voltamos às Caves São João, com uma das marcas clássicas e míticas. Há pouco mais de 4 anos já tinha feito uma prova desta colheita (comprada e consumida em finais de 2009), que me agradou e deixou alguma expectativa. Na altura referi que o vinho parecia ter potencial para evoluir em garrafa.

Posteriormente, já em 2011, adquiri outro exemplar da mesma colheita, que guardei até agora. Portanto, ao contrário da prova anterior, em que o vinho foi consumido com apenas 2 anos de idade, este foi consumido com 6. E a diferença notou-se, para bem melhor. Sem dúvida o vinho cresceu na garrafa, pois apresentou-se com aromas mais exuberantes, uma estrutura de taninos sólida mas macia, persistência na boca e final longo, pontuado por um certo floral da casta mas sem marcar o vinho em demasia. Mostra uma cor rubi concentrada mas brilhante e evolui para algumas notas de frutos vermelhos e do bosque enquanto se desprende um ligeiro tostado da madeira que vai arredondando à medida que o vinho respira.

Não sendo decantado, é um daqueles vinhos que está óptimo quando a garrafa chega ao fim. Quem o quiser apreciar mais depressa deve decantá-lo.

Em relação à prova anterior, não há dúvida que melhorou claramente, e é uma referência a ter em conta por um preço adequado. Esta colheita de 2007 parece ter agora atingido o seu ponto óptimo de consumo. Portanto, seja-se paciente e não se tenha pressa em bebê-lo, deixando-o repousar por 4 ou 5 anos após a compra.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porta dos Cavaleiros Reserva, Touriga Nacional 2007 (T)
Região: Dão
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 7,34 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Na Wine Company 1 - Dão Sul

  
 

Na semana imediatamente seguinte ao evento Dãowinelover Masterclass, na Quinta de Cabriz, decorreu uma prova de vinhos na garrafeira The Wine Company, em Lisboa, com vinhos da Dão Sul em que estiveram presentes os vinhos da região dos Vinhos Verdes (Quinta de Lourosa, situada em Lousada, perto de Penafiel) e do Alentejo (Monte da Cal). Aproveitando a embalagem do evento anterior, desloquei-me a Benfica para conhecer os vinhos verdes da empresa e retomar contacto com os alentejanos.

(À mesma hora decorria uma prova da Quinta da Bica na garrafeira Wines 9297, em Telheiras, mas não se pode ir a todas... Entretanto já consegui passar por lá para conhecer o espaço, falar com os donos, provar um Quinta do Corujão, dos mesmos autores do M.O.B. e ainda comprar um Casal da Azenha, de Colares. Outras oportunidades hão-de surgir para ir a outras provas, certamente).

Tive a oportunidade de reencontrar o director de enologia, Osvaldo Amado, que se fez acompanhar de duas colaboradoras da área do marketing e da enologia da Quinta da Lourosa.

Relativamente aos vinhos verdes, pudemos provar um de lote com Loureiro e Arinto, de entrada de gama. Para mim foi a revelação da prova, pois não o conhecia e encontrei um vinho com grande frescura, de aroma citrino exuberante, leve e fácil de beber mas muito agradável na prova de boca. Por menos de 5 €, temos aqui uma excelente relação qualidade/preço, que pretende concorrer com os campeões de vendas deste segmento.

Provámos depois um Alvarinho que, por não ser produzido nas sub-regiões de Monção ou Melgaço, não tem direito a denominação de origem como Vinho Verde mas como Regional Minho. Apresenta um corpo macio e aroma discreto a frutos tropicais, embora seja algo curto no fim de boca.

Passando aos vinhos do Alentejo, começámos pelo branco Vinha de Saturno 2010, que já foi elaborado apenas a partir de Alvarinho mas que agora apenas contém 50% desta casta, integrando também Arinto e Antão Vaz. É um branco poderoso, com um toque de madeira discreta (como Osvaldo Amado faz sempre questão de salientar, a madeira usada é sempre de tosta ligeira, para não marcar demasiado os vinhos), muito encorpado e longo, que pede acompanhamento adequado à mesa.

No caso dos tintos, provámos o Monte da Cal colheita 2010, o Monte da Cal Syrah 2009, o Monte da Cal Reserva 2009 e o Vinha de Saturno 2009.

O colheita é um vinho fácil e mediano; o Syrah mostra aquele perfil adocicado que tenho encontrado nos Syrah alentejanos, que faz com que por vezes se pareçam mais com um xarope do que com um vinho, que não me agrada particularmente; o Reserva (lote de Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah) apresenta outra estrutura e maior persistência, sendo o Vinha de Saturno o grande vinho da casa, como já pudemos constatar noutras ocasiões. É composto por 40% de Touriga Nacional, 30% de Petit Verdot, 15% de Baga e de Trincadeira. Estagia 18 meses em barricas de carvalho francês e apresenta uma enorme persistência, um corpo robusto e aroma vinoso intenso, precisando de muito arejamento para mostrar tudo o que tem.

Foi uma boa jornada de prova, que complementou muito bem a prova de vinhos do Dão que da semana anterior. Mais uma vez pudemos apreciar um conjunto de bons vinhos da Dão Sul, que continua a fazer um caminho seguro e de sucesso. Assim continue.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 9 de fevereiro de 2014

No meu copo 364 - Pedra Cancela, Selecção do Enólogo 2010

Aproveitando a embalagem de estarmos no Dão, aproveitamos para falar neste que foi adquirido há cerca de um ano com a Revista de Vinhos. Na altura o produtor e enólogo João Paulo Gouveia referiu que esta era uma edição especial limitada, como está indicado no rótulo.

Provei-o há pouco tempo com um prato de carne requintada, e redescobri nesta garrafa uma espécie de “velho” Dão, o Dão que eu conheci quando comecei a provar os vinhos da região, que eram marcados pela elegância e longevidade, e muito antes da febre da madeira e das bombas de fruta e álcool.

Neste Pedra Cancela Selecção do Enólogo encontrei um vinho encorpado mas elegante e suave, com aroma frutado profundo, fim de boca macio mas firme. Muito bem conseguido.

Estilo diferente, este? Não; para mim, este é o verdadeiro estilo do Dão... Aquele que pode marcar a diferença para recuperar o lugar que já teve. Mais do que ir atrás de modas, do que a região precisa é de recuperar as referências que marcaram os seus grandes vinhos em décadas passadas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pedra Cancela, Selecção do Enólogo 2010 - Edição Limitada (T)
Região: Dão
Produtor: Pedra Cancela Vinhos do Dão
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Tinta Roriz, Alfrocheiro, Touriga Nacional
Preço com a Revista de Vinhos: 6,00 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dãowinelover Masterclass: Dão Sul - Quinta de Cabriz (2ª parte)

    

Falemos agora um pouco dos vinhos provados, cuja prova se repartiu entre os períodos antes e depois do almoço. Em 35 referências colocadas à disposição dos visitantes, seria fastidioso enumerar ou querer dissertar sobre cada uma delas. No entanto, alguns dos vinhos provados mereceram-nos especial atenção.

Desde logo, numa das mesas estavam disponíveis provas verticais de 3 marcas de vinhos, mesmo anteriores à criação da Dão Sul e à aquisição da Casa de Santar pela empresa. Destaque para os Casa de Santar de 1965, 1975 e 1983, que dividiram opiniões. Houve quem preferisse claramente o de 1965 (como foi o caso do Politikos, um dos meus companheiros de viagem), e houve quem preferisse o de 1983 e que considerasse que o de 1965 apresentava oxidação em demasia e já aromas a lembrar o vinho do Porto, como foi o meu caso. A colheita de 1983, por sua vez, mostrava uma cor ainda bastante concentrada, alguma frescura no aroma e vivacidade na prova de boca, parecendo um vinho bem mais novo do que os 30 anos que ostentava. Mas a discussão continuou e não se chegaria a nenhum consenso, pelo que as opiniões se mantiveram de ambos os lados.

Em parceria com estes, havia 4 colheitas do Casa de Santar Touriga Nacional (colheitas de 2000, 2006, 2007 e 2010) e do Quinta de Cabriz Touriga Nacional (colheitas de 2003, 2004, 2007 e 2010). Em ambos os casos, a minha preferência foi para a colheita mais antiga, mas o que ficou mais evidente foi a superior elegância e suavidade dos vinhos provenientes de Santar, em contraponto com os vinhos de Cabriz, genericamente mais robustos e rústicos. Como foi explicado na apresentação inicial, existe uma diferença de altitude e de clima entre as vinhas das duas quintas, com mais calor em Cabriz e mais frescura em Santar, o que proporciona maturações mais lentas. Estas pequenas diferenças estão claramente marcadas desde há muitos anos nos vinhos das duas marcas, atravessando toda a gama. No caso do Cabriz Touriga Nacional de 2003, a idade já nos permitiu apreciar um vinho bem integrado, amaciado pelo tempo e ainda com grande concentração mas já bem equilibrado, o que já não se verifica nas colheitas mais recentes, e em particular na de 2010.

Noutra mesa, os brancos de topo: Conde de Santar, Cabriz Encruzado, Four CCCC, Condessa de Santar, Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador, Casa de Santar Reserva. Cinco pesos pesados no portefólio de brancos, com destaque para o Condessa de Santar. Há alguns anos tínhamos adquirido e bebido uma garrafa da colheita de 2005, que o tuguinho fez questão de abrir com um arroz de tamboril, que não agradou à generalidade dos presentes e que calhou pessimamente com o prato: muito pesado e marcado pela madeira, enjoativo, difícil de conjugar com qualquer prato. Agora, pelo contrário, encontrámos um vinho com a madeira na devida conta, peso e medida, quase imperceptível, e mais marcado pela frescura, pelos aromas a fruta e boa estrutura com final longo e vivo. Uma bela surpresa.

Melhor surpresa nos esperava na 3ª mesa, onde estavam os vinhos desde as gamas de entrada até aos Reservas, passando pelo Colheita Tardia e pelos espumantes. Para além do já conhecido Cabriz bruto, a grande revelação foi o espumante Condessa de Santar, um vinho de grande nível quase a alcandorar-se ao patamar dos champanhes e a bater-se com os melhores espumantes do país.

No caso do Outono de Santar Colheita Tardia, elaborado apenas a partir de Encruzado, apresenta um perfil algo diferente da maioria dos vinhos do género, mais aberto e fresco, com uma cor menos carregada. É um vinho que se bebe a solo, podendo servir-se como aperitivo ou para acompanhar sobremesas. Apresenta a doçura expectável num colheita tardia combinada com um toque cítrico que lhe confere um perfil diferente, com menos melaço do que o habitual, pelo que apresenta uma frescura que também permite que seja bebido a solo. É uma aposta que tem todas as condições para dar certo.

Dentro da restante gama, marcou pontos o Casa de Santar Colheita branco, em vias de sair para o mercado, assim como o Casa de Santar Reserva tinto, sempre uma referência nos vinhos a rondar os 10 €, com uma elegância e uma suavidade notáveis, um daqueles vinhos que nunca desilude. Muito equilibrado o Cabriz Encruzado, leve e aromático. De todos, um dos brancos mais bem conseguidos.

E assim fomos passando o resto da tarde até anoitecer e ser horas de regressar, sempre em agradável convívio com os outros Dãowinelovers e com a equipa que sempre nos acompanhou. Após algumas fotografias de família para a posteridade, restou agradecer a toda a equipa da Dão Sul que tão simpaticamente nos recebeu, sempre com o muito simpático e disponível director de enologia Osvaldo Amado no comando das operações, e muito bem assessorado pelos seus não menos simpáticos e disponíveis colaboradores. Mais uma vez, os nossos parabéns e agradecimentos aos criadores, organizadores e dinamizadores do evento, Rui e Miguel.

Foi mais uma excelente jornada de propaganda aos vinhos do Dão e a melhor forma de assinalar o primeiro aniversário do primeiro evento dos Dãowinelovers. Ficamos agora à espera das próximas iniciativas, onde aguardo com particular expectativa e entusiamo o anunciado... Bairradão: um evento dedicado aos amantes dos vinhos da Bairrada e do Dão.

Continua nos próximos episódios...

Kroniketas, Dãowinelover

Nota: por não dispormos de fotos dos vinhos com a qualidade necessária, algumas das imagens deste post foram obtidas a partir de outras publicações no grupo #daowinelover no Facebook, com a devida vénia aos nossos comparsas.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dãowinelover Masterclass: Dão Sul - Quinta de Cabriz (1ª parte)

      

No passado dia 25 de Janeiro, precisamente um ano menos um dia após a primeira iniciativa do género levada a cabo pelo grupo surgido e desenvolvido no Facebook, os Dãowinelovers deslocaram-se a Carregal do Sal para uma visita à Quinta de Cabriz, o berço da Dão Sul, uma das maiores empresas do país no sector da produção e comercialização de vinhos.

Por coincidência, aquando de uma anterior iniciativa que tinha decorrido em Outubro, dessa vez à volta dum almoço na Quinta da Espinhosa, já tinha tido oportunidade de, no regresso a casa, parar e almoçar no restaurante da Quinta de Cabriz, mas dessa vez só contemplando de fora o resto das instalações. Desta vez, com o amável contributo dos responsáveis da empresa, na companhia de dois dos comensais habituais, pudemos mergulhar no universo da Dão Sul, visitar os escritórios, as salas de fermentação em cuba, as linhas de engarrafamento, as salas de barricas e as caves onde milhares de garrafas de vinho repousam desafiando a prova do tempo.

O evento decorreu em várias etapas. A primeira consistiu na apresentação do universo Global Wines/Dão Sul, com uma introdução feita pelo enólogo Osvaldo Amado, que apresentou toda a equipa, desde o director-geral aos técnicos de viticultura ou laboratório, passando pelo marketing.

Vários oradores, apoiados numa apresentação de slides bastante clara, abordaram diversas vertentes da empresa, das diversas quintas que vão da Região dos Vinhos Verdes ao Alentejo, sem esquecer o Brasil, à respectiva caracterização geográfica e climática, e, obviamente, ao vasto portefólio de vinhos.

Esta primeira etapa serviu para abrir o apetite aos enófilos (e também alguns enólogos) presentes, pois foi-nos anunciado que teríamos à disposição nada menos de 35 vinhos para provar ao longo do dia!!! Antes, porém, os presentes divididos em dois grupos fizeram um percurso pelas instalações da empresa, terminando numa cave de barricas com ligação à cave de envelhecimento em garrafa. Aí estavam dispostas em várias mesas, e em barricas servindo de mesas, diversos grupos de garrafas de vinhos da Dão Sul produzidos no Dão: brancos fermentados em inox e madeira, tintos novos e velhos, espumantes, colheita tardia e licoroso. Os vários tipos de vinhos foram dispostos de forma organizada, permitindo aos visitantes escolher que tipo de vinho estariam a provar em cada momento.

Para além das colheitas mais recentes, numa das mesas tivemos oportunidade de provar quatro do Casa de Santar Touriga Nacional e outras tantas do Cabriz Touriga Nacional, e também pudemos degustar três colheitas mais antigas: o Casa de Santar de 1965, 1975 e 1983.

A manhã foi longa e, como a prova também o era, foi interrompida quando a fome apertava e eram horas de almoço. Este decorreu numa sala contígua ao restaurante aberto ao público, tendo-se provado entradas da Beira, massada de bacalhau e arroz de pato como pratos principais, e ainda requeijão com doce de abóbora e arroz doce como sobremesa. Para acompanhar estas iguarias estiveram à disposição os espumantes Quinta de Cabriz e Condessa de Santar, brancos, tintos, o Outono de Santar Colheita Tardia e o Cabriz licoroso.

Depois desta longa função, ainda houve oportunidade de voltar à cave para provar os vinhos que não tivéssemos tido oportunidade de provar durante a manhã. Aí, já em ambiente mais calmo, visitámos a enorme garrafeira onde se encontram as colheitas mais antigas do enorme espólio da Dão Sul.

Durante todo o evento, inclusive à mesa durante o almoço, tivemos sempre a companhia de alguém da equipa da Dão Sul, quer para nos darem os vinhos a provar, quer para ir trocando impressões sobre outros temas relacionados com o vinho ou a empresa.

Na segunda parte falaremos um pouco – ainda que não de forma exaustiva – de alguns dos vinhos provados, aqueles que mais nos impressionaram.

Kroniketas, Dãowinelover

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

No meu copo 363 - Tintos velhos da Bairrada (4)

Primavera Garrafeira 1995; Messias Garrafeira 1995; Messias Reserva 1997; Frei João 1999


   

Continuando na senda das provas de vinhos velhos da Bairrada que ainda vão resistindo nas nossas garrafeiras, de vez em quando fazemos mais uma incursão para desbastar diversas garrafas a acompanhar umas carnes grelhadas, ou bem regadas com molho. Neste caso abrimos quatro garrafas da década de 90, de três produtores diferentes. Descrevemo-los por ordem do ano de colheita.

Das Caves Primavera provou-se um Garrafeira 1995, o mais delgado de todos. Apresentou-se macio e suave, mas já com alguma falta de corpo e persistência. Terá passado a sua melhor fase, embora estivesse perfeitamente bebível e sem denotar qualquer sinal de oxidação precoce. Teve o seu percurso que, neste caso, estaria já a caminho do fim, embora não fosse possível detectar na prova quão próximo estaria...

Das Caves Messias tivemos dois exemplares: o Garrafeira 1995 é uma repetição, um vinho que provámos com alguma regularidade ao longo dos anos. Curiosamente, ao contrário da prova anterior que aqui registámos, esta garrafa estava soberba! Também aberto e macio, mas com muita persistência e volume de boca, redondo mas cheio e com grande bouquet. Um Bairrada dos bons velhos tempos, com tudo no sítio. Este, por seu lado, pareceu estar ali para durar mais umas décadas.

Quanto ao Messias Reserva 1997, embora sem a exuberância aromática do seu parceiro de ocasião, mostrou grande vivacidade na boca e boa persistência, também sem denotar sinais de queda.

Finalmente o Frei João 1999, aquele que, porventura, terá sido a grande surpresa (ou não), porventura aquele onde as expectativas estavam mais baixas. Por ser um vinho de outra gama, por teoricamente não estar tão vocacionado a repousar muito tempo nas garrafeiras. Teoricamente. A verdade é que desde sempre me habituei a guardar uma ou duas garrafas do Frei João de entrada de gama (um vinho que actualmente se posiciona abaixo dos 3 €) durante alguns anos para ver como se aguentava. E desde sempre também descobri que era uma excelente companhia para fondue e bifes na pedra. Este não fugiu à regra.

Foi com um misto de curiosidade e receio que abri a última garrafa da colheita de 1999, mas os receios mostraram-se infundados. Estava de excelente saúde, encorpado, robusto, persistente, mas também com um final de boca macio e redondo. Mais uma vez mostrou que é um vinho pouco valorizado para a qualidade que apresenta. Esta colheita ainda tinha o perfil mais clássico, baseado exclusivamente na Baga, pois as mais recentes já incorporam outras castas como a Touriga Nacional ou a Camarate, tornando-o mais arredondado e bebível mais novo. Mas esta colheita de 1999 deu-me enorme prazer a beber, pois mantinha aquela combinação de suavidade e estrutura que não é fácil de encontrar.

Foi mais uma bela jornada de prova dos Bairrada clássicos, que sempre nos enchem de satisfação por constatar que valeu a pena ter guardado aquelas garrafas durante tanto tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada

Vinho: Primavera Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Caves Primavera
Grau alcoólico: 13%
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Messias Reserva 1997 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Frei João 1999 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Preço em feira de vinhos: 2,54 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

No meu copo 362 - Poliphonia Reserva 2007

Do Monte dos Perdigões, às portas de Reguengos de Monsaraz – terra de grandes e clássicos vinhos provenientes de produtores de renome (Herdade do Esporão, Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz, Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, agora na posse da José Maria da Fonseca) – chega-nos este vinho que nos dá a conhecer outro lado do percurso de Henrique Granadeiro, um alentejano de Borba que se tornou conhecido pela sua actividade de gestor em áreas como as telecomunicações, imprensa, multimédia e até como chefe da Casa Civil do então Presidente da República, General Ramalho Eanes.

Tendo igualmente uma ligação de longa data com a Fundação Eugénio de Almeida, em 2001 Henrique Granadeiro deitou mãos à criação dum projecto para o lançamento dos seus próprios vinhos. Daí surgiu uma gama de vinhos que foi sendo ampliada desde os de entrada de gama, como o Vale do Rico Homem, até aos de topo como o Poliphonia Signature, passando pelos Tapada do Barão.

Este Poliphonia Reserva 2007, uns patamares abaixo, posiciona-se na gama dos 10 €, onde se bate com outros de nome estabelecido na praça. Trincadeira, Aragonês e Cabernet Sauvignon formam a base do lote, sendo Syrah e Alicante Bouschet o seu complemento. Fermentou em balseiros de carvalho francês, seguindo-se um estágio de mais 12 meses em tonéis e barricas.

É um vinho de boa persistência e complexidade aromática, apresenta-se equilibrado e com bom volume de boca, leve toque a madeira muito bem integrada no conjunto com taninos redondos, fruta contida e algumas notas balsâmicas. Não é muito exuberante nos aromas, primando sobretudo por uma certa elegância discreta.

Parece ser um vinho a rever, tendo-nos despertado a curiosidade para conhecer os outros vinhos do portefólio da casa. A ver vamos, pois há muito por onde escolher.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Poliphonia Reserva 2007 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Granacer
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 9,95 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dãowinelover na Quinta de Cabriz

 

É já no próximo sábado que se realiza mais um evento promovido pelo grupo #daowinelover, desta vez a ter lugar nas instalações da Dão Sul na Quinta de Cabriz.

Desta vez esta baiuca vai fazer-se representar por três participantes. Já estamos em contagem decrescente.

Kroniketas

domingo, 19 de janeiro de 2014

No meu copo 361 - Porto Ramos Pinto LBV 2000

Em termos dos Vinhos do Porto que aqui e ali vamos provando, no registo dos LBV os da Ramos Pinto costumam cotar-se entre os melhores e mais equilibrados.

Neste caso, com esta colheita de 2000 propriedade do tuguinho, beneficiando já do amadurecimento com a idade o vinho apresentou-se muito macio, ainda com fruta bem presente e com exuberância aromática quanto baste, mas o que mais se destaca é a extrema elegância na boca, sem qualquer sinal de aguardente a sobrepor-se no conjunto, todo ele muito bem integrado.

Sabendo-se que os novos Vintage que andam por aí, da excepcional colheita de 2011, estarão no ponto óptimo para beber daqui por uns 10 ou 20 anos (para quem lá chegar...), um LBV já com alguma idade pode ser uma excelente alternativa, pois além duma enorme poupança nos gastos consegue-se um produto com uma excelente relação qualidade/preço e que não desmerece em nada nem a fama do produto nem o nome da casa. E, neste particular, um Ramos Pinto é uma aposta ganha.

Vale a pena tê-lo guardado, mas vale mais a pena não hesitar em bebê-lo, pois com esta idade está no seu ponto óptimo de consumo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porto Ramos Pinto LBV 2000
Região: Douro/Porto
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 19,5%
Preço: 13 €
Nota (0 a 10): 8,5

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

No meu copo 360: Vinhos a caminho dos 10 anos (3): Tintos da Bairrada

Follies, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2004; Quinta da Rigodeira Reserva 2004


Da Bairrada temos este Follies da Quinta da Aveleda, que combina o Cabernet Sauvignon com a Touriga Nacional, numa parceria que tem dado bons resultados em diversos vinhos tintos e rosés, em várias regiões. Já tivemos oportunidade de provar alguns vinhos produzidos com este lote e os resultados são, normalmente, muito satisfatórios (um dos exemplos é o Quinta da Alorna, que referimos anteriormente). Apresentou alguma elegância, ligeiro floral no aroma e algum toque a especiarias, a par com uma boa estrutura, taninos firmes mas macios e boa persistência. Mais um vinho a caminho da década de idade em muito boa forma.

O Quinta da Rigodeira Reserva 2004 foi adquirido em Dezembro de 2008 com a Revista de Vinhos, portanto na altura com 4 anos de idade. Composto essencialmente por Baga e com uns pozinhos de Touriga Nacional (outra combinação frequente por aquelas bandas nos tempos que correm), a julgar pelo estado actual percebe-se que em novo deveria ser um daqueles tintos da Bairrada muito taninosos e adstringentes, de que muitos consumidores se afastam. A verdade é que agora, já passando dos 9 anos, o vinho apresentou-se pleno de saúde, de cor granada muito carregada, ainda com aromas exuberantes, taninos arredondados pelo tempo mas presentes e marcados na prova de boca, a torná-lo ainda um vinho que não é dos mais fáceis e que se bate com pratos bem temperados e ainda fica a pedir mais tempero... e o mais surpreendente é que consegue, ainda assim, ter alguma frescura.

Gosto do estilo porque é diferente, não tem nada que ver com a doçura de muitos vinhos actuais. Nesta fase o grau alcoólico já não se nota, estando tudo perfeitamente integrado. Um vinho para apreciadores do género.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada

Vinho: Follies, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional 2004 (T)
Produtor: Aveleda Vinhos
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional
Preço: 10,81 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Rigodeira Reserva 2004 (T)
Produtor: Quinta da Rigodeira, Casa Agrícola
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Baga (90%), Touriga Nacional (10%)
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 11 de janeiro de 2014

No meu copo 359 - Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006 e 2007

Continuamos no Tejo, agora com dois vinhos mais recentes e de colheitas consecutivas produzidos pela Quinta da Alorna, outro dos motores importantes do novo Tejo. Tanto a nível de tintos como de brancos e rosés, da quinta de Almeirim têm saído alguns dos melhores vinhos em termos de relação qualidade/preço.

Neste caso a prova incidiu num bivarietal que me tinha encantado há uns anos quando o provei pela primeira vez com o malogrado Mancha. Na altura o vinho foi uma completa surpresa, mas rapidamente deixou de o ser quando se tornou presença obrigatória nas prateleiras, apresentando um preço extremamente apelativo e que fica claramente abaixo da qualidade que o vinho ostenta.

- Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006: adquirido em 2008 com uma edição da Revista de Vinhos, mostrou mais uma boa ligação entre duas castas que têm gerado boas parcerias tanto em vinhos tintos como em rosés. Por um lado alguma especiaria do Cabernet e por outro o floral da Touriga num conjunto bem estruturado, encorpado e pujante, persistente mas com o aroma bastante fechado, a precisar de tempo para se mostrar. Enologia de Nuno Cancela de Abreu.

- Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2007: menos fechado que o anterior, mais imediato e com aroma mais exuberante, intenso e vinoso. Cheio e persistente, mostrou-se no ponto ideal para ser bebido.

Tivemos aqui duas colheitas com apenas um ano de intervalo, e que diferenças entre os vinhos, com perfis tão diferentes mas ambos excelentes!... Uma das melhores relações qualidade/preço do mercado. Pelo preço que custa é difícil encontrar melhor.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos

Vinho: Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2007 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 5,79 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

No meu copo 358 - Vinhos a caminho dos 10 anos (2): Tintos do Ribatejo

Fiúza Premium 2003; Herdade de Muge 2004; Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004




Continuando com o desbaste de alguns exemplares “esquecidos” na garrafeira, vamos agora para três exemplares do Tejo, produzidos por duas das casas que mais têm contribuído para a recuperação da imagem da região no panorama vitivinícola, com vinhos de qualidade inquestionável e características muito próprias, a tender para a modernidade e a fugir do “carrascão” do garrafão de 5 litros.

A aposta em castas estrangeiras em lote com outras castas nacionais tem permitido obter vinhos com boa estrutura e também alguma frescura que não era muito frequente. Este aspecto, aliás, verifica-se de modo mais evidente nos muitos brancos à disposição no mercado, tanto no Tejo como noutras regiões.

A Fiúza tem sido uma das empresas a apostar em diversos vinhos mono ou bivarietais, enquanto a Casa Cadaval tem igualmente vinhos monocasta emblemáticos.

Nesta prova falamos de um vinho monocasta e de dois vinhos de lote bem conseguidos.

- Fiúza Premium 2003: boa estrutura e muita frescura na boca, sem sinais de declínio. Bifes e carnes não muito condimentadas foram boa companhia. Estagiou 8 meses em barricas novas de carvalho, seguindo-se 5 meses em garrafa.

- Herdade de Muge 2004: comprado em Outubro de 2006, no contra-rótulo aconselhava-se o consumo imediato ou guarda até 6 anos, portanto fizemo-lo no limite do prazo aconselhado. Aromático, estruturado e suave. Aroma a frutos vermelhos, especiarias e ligeiro vegetal. Enologia de Rui Reguinga.

- Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004: este é um clássico da casa, e um dos mais resistentes em termos de produção desta casta em estreme. Outros vêm e vão, este mantém-se. Ao longo dos anos tem mantido um perfil uniforme, com alguma estrutura mas não demasiado robusto, marcado principalmente por alguma macieza. Esta colheita de 2004, adquirida em 2010, apresentou-se com uma cor granada muito carregada e viva, sem qualquer sinal de evolução em demasia. Aroma não muito exuberante com algumas notas de compotas e fruta preta, sem qualquer traço dos pimentos verdes que por vezes marcam os aromas desta quando pouco amadurecida. Na boca mostrou-se macio e não muito estruturado, contrariamente às expectativas, que apontariam para um vinho mais robusto e sem estar marcado pela madeira em que estagiou durante 18 meses. Em comparação com uma prova da colheita de 1999 efectuada há alguns anos, este exemplar terá estado algo mais delgado que o anterior.

Em resumo, vinhos de boa qualidade e em muito boa forma (em especial os dois de lote), a mostrar que aguentaram bem a prova do tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)

Vinho: Fiúza Premium 2003 (T)
Produtor: Fiúza & Bright
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira Preta, Aragonês, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 7,59 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Herdade de Muge 2004 (T)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 14%
Castas: Não indicadas
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004 (T)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 14%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 9,45 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

No meu copo 357 - Vinhos a caminho dos 10 anos (1): Tintos da Estremadura

Grand’Arte, Touriga Nacional 2003; Monte Judeu, Aragonês 2004; Quinta das Cerejeiras Reserva 2003; Quinta de São Francisco 2005




A par das relíquias que de vez em quando vamos desbastando em conjunto, com especial incidência nos tintos velhos do Dão e da Bairrada – e de que aqui vamos dando conta –, há alguns vinhos que vão ficando esquecidos na garrafeira. Não é a melhor ocasião, deixa-se para a próxima, olha-se para outros, e quando damos por nós há uma série de vinhos que estão rapidamente a caminhar para a dezena de anos.

Um risco? Um problema? Nunca sabemos até abrir as garrafas. Felizmente temos comprovado que, na maior parte dos casos, mesmo aqueles vinhos que à partida não estariam, em teoria, destinados a envelhecer, acabam por comportar-se excelentemente quando bebidos alguns anos após aquilo que lhes teríamos vaticinado como “prazo de validade expectável”. Acresce que na maioria dos casos se trata de vinhos provenientes de regiões que não são aquelas mais vocacionadas para a conservação de “vinhos velhos”, ou pelo menos não muito jovens.

Foi a olhar para vários desses casos que comecei a ir buscar à garrafeira alguns vinhos de 2003, 2004, 2005, que ainda por lá estão porque foram ficando para trás. Como estarão eles, pensei? Será que já estão em declínio? Estarão a morrer?

E foi assim que comecei a abrir garrafa após garrafa, indo buscar às várias regiões estes vinhos “esquecidos”, com alguma curiosidade sobre o que iria encontrar em cada um. Tentarei deixar aqui algumas impressões sobre o que fui encontrando. Neste caso vou centrar-me, para já, em vinhos de duas regiões vizinhas, Tejo (ex-Ribatejo) e Lisboa (ex-Estremadura), todos eles ainda rotulados com as denominações de origem antigas.

Comecemos pelos estremenhos.

- Grand’ Arte, Touriga Nacional 2003: equilibrado, estruturado, aromático e suave.

- Monte Judeu, Aragonês 2004: encorpado, estruturado, robusto e adstringente, mas com grande aroma, pontuado por frutos vermelhos maduros. Carnes bem temperadas serão boa companhia. Estagiou 3 meses em madeira. É um vinho que em novo apresenta taninos muito rijos, com grande adstringência e muito potente na boca. O tempo acaba por amansar-lhe bastante os taninos, embora perca alguma vivacidade. Embora seja um vinho que inicialmente se apresenta algo agressivo, feito o balanço acho que o prefiro mais novo, pois tem lá todas as características intactas, impressão que já tinha colhido aquando da prova anterior.

- Quinta das Cerejeiras Reserva 2003: cheio de pujança, profundidade aromática e persistência. Madeira muito bem integrada e amaciada pelo tempo. Um vinho para continuar a durar na garrafa.

- Quinta de São Francisco 2005: cor rubi, aroma frutado, sabor suave. Já passou o ponto, está em declínio, o aroma apresenta-se cansado e pouco exuberante.

Em jeito de balanço, em quatro garrafas três delas estavam em perfeito estado de conservação, sendo que curiosamente o único vinho em claro declínio era o mais novo, com 8 anos de idade. Portanto, o resultado não defraudou nem me deixou pessimista quanto ao futuro destes vinhos e ao estado dos próximos a consumir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Grand’ Arte, Touriga Nacional 2003 (T)
Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: DFJ Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 5,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Monte Judeu, Aragonês 2004 (T)
Região: Lisboa (Torres Vedras)
Produtor: Adega Cooperativa de Dois Portos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Aragonês
Preço: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta das Cerejeiras Reserva 2003 (T)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Aragonês, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 11,95 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta de São Francisco 2005 (T)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Castelão, Aragonês, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 5