terça-feira, 28 de janeiro de 2014

No meu copo 363 - Tintos velhos da Bairrada (4)

Primavera Garrafeira 1995; Messias Garrafeira 1995; Messias Reserva 1997; Frei João 1999


   

Continuando na senda das provas de vinhos velhos da Bairrada que ainda vão resistindo nas nossas garrafeiras, de vez em quando fazemos mais uma incursão para desbastar diversas garrafas a acompanhar umas carnes grelhadas, ou bem regadas com molho. Neste caso abrimos quatro garrafas da década de 90, de três produtores diferentes. Descrevemo-los por ordem do ano de colheita.

Das Caves Primavera provou-se um Garrafeira 1995, o mais delgado de todos. Apresentou-se macio e suave, mas já com alguma falta de corpo e persistência. Terá passado a sua melhor fase, embora estivesse perfeitamente bebível e sem denotar qualquer sinal de oxidação precoce. Teve o seu percurso que, neste caso, estaria já a caminho do fim, embora não fosse possível detectar na prova quão próximo estaria...

Das Caves Messias tivemos dois exemplares: o Garrafeira 1995 é uma repetição, um vinho que provámos com alguma regularidade ao longo dos anos. Curiosamente, ao contrário da prova anterior que aqui registámos, esta garrafa estava soberba! Também aberto e macio, mas com muita persistência e volume de boca, redondo mas cheio e com grande bouquet. Um Bairrada dos bons velhos tempos, com tudo no sítio. Este, por seu lado, pareceu estar ali para durar mais umas décadas.

Quanto ao Messias Reserva 1997, embora sem a exuberância aromática do seu parceiro de ocasião, mostrou grande vivacidade na boca e boa persistência, também sem denotar sinais de queda.

Finalmente o Frei João 1999, aquele que, porventura, terá sido a grande surpresa (ou não), porventura aquele onde as expectativas estavam mais baixas. Por ser um vinho de outra gama, por teoricamente não estar tão vocacionado a repousar muito tempo nas garrafeiras. Teoricamente. A verdade é que desde sempre me habituei a guardar uma ou duas garrafas do Frei João de entrada de gama (um vinho que actualmente se posiciona abaixo dos 3 €) durante alguns anos para ver como se aguentava. E desde sempre também descobri que era uma excelente companhia para fondue e bifes na pedra. Este não fugiu à regra.

Foi com um misto de curiosidade e receio que abri a última garrafa da colheita de 1999, mas os receios mostraram-se infundados. Estava de excelente saúde, encorpado, robusto, persistente, mas também com um final de boca macio e redondo. Mais uma vez mostrou que é um vinho pouco valorizado para a qualidade que apresenta. Esta colheita ainda tinha o perfil mais clássico, baseado exclusivamente na Baga, pois as mais recentes já incorporam outras castas como a Touriga Nacional ou a Camarate, tornando-o mais arredondado e bebível mais novo. Mas esta colheita de 1999 deu-me enorme prazer a beber, pois mantinha aquela combinação de suavidade e estrutura que não é fácil de encontrar.

Foi mais uma bela jornada de prova dos Bairrada clássicos, que sempre nos enchem de satisfação por constatar que valeu a pena ter guardado aquelas garrafas durante tanto tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada

Vinho: Primavera Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Caves Primavera
Grau alcoólico: 13%
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Messias Reserva 1997 (T)
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
Grau alcoólico: 12,5%
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Frei João 1999 (T)
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Preço em feira de vinhos: 2,54 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

No meu copo 362 - Poliphonia Reserva 2007

Do Monte dos Perdigões, às portas de Reguengos de Monsaraz – terra de grandes e clássicos vinhos provenientes de produtores de renome (Herdade do Esporão, Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz, Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, agora na posse da José Maria da Fonseca) – chega-nos este vinho que nos dá a conhecer outro lado do percurso de Henrique Granadeiro, um alentejano de Borba que se tornou conhecido pela sua actividade de gestor em áreas como as telecomunicações, imprensa, multimédia e até como chefe da Casa Civil do então Presidente da República, General Ramalho Eanes.

Tendo igualmente uma ligação de longa data com a Fundação Eugénio de Almeida, em 2001 Henrique Granadeiro deitou mãos à criação dum projecto para o lançamento dos seus próprios vinhos. Daí surgiu uma gama de vinhos que foi sendo ampliada desde os de entrada de gama, como o Vale do Rico Homem, até aos de topo como o Poliphonia Signature, passando pelos Tapada do Barão.

Este Poliphonia Reserva 2007, uns patamares abaixo, posiciona-se na gama dos 10 €, onde se bate com outros de nome estabelecido na praça. Trincadeira, Aragonês e Cabernet Sauvignon formam a base do lote, sendo Syrah e Alicante Bouschet o seu complemento. Fermentou em balseiros de carvalho francês, seguindo-se um estágio de mais 12 meses em tonéis e barricas.

É um vinho de boa persistência e complexidade aromática, apresenta-se equilibrado e com bom volume de boca, leve toque a madeira muito bem integrada no conjunto com taninos redondos, fruta contida e algumas notas balsâmicas. Não é muito exuberante nos aromas, primando sobretudo por uma certa elegância discreta.

Parece ser um vinho a rever, tendo-nos despertado a curiosidade para conhecer os outros vinhos do portefólio da casa. A ver vamos, pois há muito por onde escolher.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Poliphonia Reserva 2007 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Granacer
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 9,95 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dãowinelover na Quinta de Cabriz

 

É já no próximo sábado que se realiza mais um evento promovido pelo grupo #daowinelover, desta vez a ter lugar nas instalações da Dão Sul na Quinta de Cabriz.

Desta vez esta baiuca vai fazer-se representar por três participantes. Já estamos em contagem decrescente.

Kroniketas

domingo, 19 de janeiro de 2014

No meu copo 361 - Porto Ramos Pinto LBV 2000

Em termos dos Vinhos do Porto que aqui e ali vamos provando, no registo dos LBV os da Ramos Pinto costumam cotar-se entre os melhores e mais equilibrados.

Neste caso, com esta colheita de 2000 propriedade do tuguinho, beneficiando já do amadurecimento com a idade o vinho apresentou-se muito macio, ainda com fruta bem presente e com exuberância aromática quanto baste, mas o que mais se destaca é a extrema elegância na boca, sem qualquer sinal de aguardente a sobrepor-se no conjunto, todo ele muito bem integrado.

Sabendo-se que os novos Vintage que andam por aí, da excepcional colheita de 2011, estarão no ponto óptimo para beber daqui por uns 10 ou 20 anos (para quem lá chegar...), um LBV já com alguma idade pode ser uma excelente alternativa, pois além duma enorme poupança nos gastos consegue-se um produto com uma excelente relação qualidade/preço e que não desmerece em nada nem a fama do produto nem o nome da casa. E, neste particular, um Ramos Pinto é uma aposta ganha.

Vale a pena tê-lo guardado, mas vale mais a pena não hesitar em bebê-lo, pois com esta idade está no seu ponto óptimo de consumo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porto Ramos Pinto LBV 2000
Região: Douro/Porto
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 19,5%
Preço: 13 €
Nota (0 a 10): 8,5

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

No meu copo 360: Vinhos a caminho dos 10 anos (3): Tintos da Bairrada

Follies, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2004; Quinta da Rigodeira Reserva 2004


Da Bairrada temos este Follies da Quinta da Aveleda, que combina o Cabernet Sauvignon com a Touriga Nacional, numa parceria que tem dado bons resultados em diversos vinhos tintos e rosés, em várias regiões. Já tivemos oportunidade de provar alguns vinhos produzidos com este lote e os resultados são, normalmente, muito satisfatórios (um dos exemplos é o Quinta da Alorna, que referimos anteriormente). Apresentou alguma elegância, ligeiro floral no aroma e algum toque a especiarias, a par com uma boa estrutura, taninos firmes mas macios e boa persistência. Mais um vinho a caminho da década de idade em muito boa forma.

O Quinta da Rigodeira Reserva 2004 foi adquirido em Dezembro de 2008 com a Revista de Vinhos, portanto na altura com 4 anos de idade. Composto essencialmente por Baga e com uns pozinhos de Touriga Nacional (outra combinação frequente por aquelas bandas nos tempos que correm), a julgar pelo estado actual percebe-se que em novo deveria ser um daqueles tintos da Bairrada muito taninosos e adstringentes, de que muitos consumidores se afastam. A verdade é que agora, já passando dos 9 anos, o vinho apresentou-se pleno de saúde, de cor granada muito carregada, ainda com aromas exuberantes, taninos arredondados pelo tempo mas presentes e marcados na prova de boca, a torná-lo ainda um vinho que não é dos mais fáceis e que se bate com pratos bem temperados e ainda fica a pedir mais tempero... e o mais surpreendente é que consegue, ainda assim, ter alguma frescura.

Gosto do estilo porque é diferente, não tem nada que ver com a doçura de muitos vinhos actuais. Nesta fase o grau alcoólico já não se nota, estando tudo perfeitamente integrado. Um vinho para apreciadores do género.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada

Vinho: Follies, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional 2004 (T)
Produtor: Aveleda Vinhos
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional
Preço: 10,81 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Rigodeira Reserva 2004 (T)
Produtor: Quinta da Rigodeira, Casa Agrícola
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Baga (90%), Touriga Nacional (10%)
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 11 de janeiro de 2014

No meu copo 359 - Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006 e 2007

Continuamos no Tejo, agora com dois vinhos mais recentes e de colheitas consecutivas produzidos pela Quinta da Alorna, outro dos motores importantes do novo Tejo. Tanto a nível de tintos como de brancos e rosés, da quinta de Almeirim têm saído alguns dos melhores vinhos em termos de relação qualidade/preço.

Neste caso a prova incidiu num bivarietal que me tinha encantado há uns anos quando o provei pela primeira vez com o malogrado Mancha. Na altura o vinho foi uma completa surpresa, mas rapidamente deixou de o ser quando se tornou presença obrigatória nas prateleiras, apresentando um preço extremamente apelativo e que fica claramente abaixo da qualidade que o vinho ostenta.

- Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006: adquirido em 2008 com uma edição da Revista de Vinhos, mostrou mais uma boa ligação entre duas castas que têm gerado boas parcerias tanto em vinhos tintos como em rosés. Por um lado alguma especiaria do Cabernet e por outro o floral da Touriga num conjunto bem estruturado, encorpado e pujante, persistente mas com o aroma bastante fechado, a precisar de tempo para se mostrar. Enologia de Nuno Cancela de Abreu.

- Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2007: menos fechado que o anterior, mais imediato e com aroma mais exuberante, intenso e vinoso. Cheio e persistente, mostrou-se no ponto ideal para ser bebido.

Tivemos aqui duas colheitas com apenas um ano de intervalo, e que diferenças entre os vinhos, com perfis tão diferentes mas ambos excelentes!... Uma das melhores relações qualidade/preço do mercado. Pelo preço que custa é difícil encontrar melhor.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos

Vinho: Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2006 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Quinta da Alorna Reserva, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2007 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 5,79 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

No meu copo 358 - Vinhos a caminho dos 10 anos (2): Tintos do Ribatejo

Fiúza Premium 2003; Herdade de Muge 2004; Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004




Continuando com o desbaste de alguns exemplares “esquecidos” na garrafeira, vamos agora para três exemplares do Tejo, produzidos por duas das casas que mais têm contribuído para a recuperação da imagem da região no panorama vitivinícola, com vinhos de qualidade inquestionável e características muito próprias, a tender para a modernidade e a fugir do “carrascão” do garrafão de 5 litros.

A aposta em castas estrangeiras em lote com outras castas nacionais tem permitido obter vinhos com boa estrutura e também alguma frescura que não era muito frequente. Este aspecto, aliás, verifica-se de modo mais evidente nos muitos brancos à disposição no mercado, tanto no Tejo como noutras regiões.

A Fiúza tem sido uma das empresas a apostar em diversos vinhos mono ou bivarietais, enquanto a Casa Cadaval tem igualmente vinhos monocasta emblemáticos.

Nesta prova falamos de um vinho monocasta e de dois vinhos de lote bem conseguidos.

- Fiúza Premium 2003: boa estrutura e muita frescura na boca, sem sinais de declínio. Bifes e carnes não muito condimentadas foram boa companhia. Estagiou 8 meses em barricas novas de carvalho, seguindo-se 5 meses em garrafa.

- Herdade de Muge 2004: comprado em Outubro de 2006, no contra-rótulo aconselhava-se o consumo imediato ou guarda até 6 anos, portanto fizemo-lo no limite do prazo aconselhado. Aromático, estruturado e suave. Aroma a frutos vermelhos, especiarias e ligeiro vegetal. Enologia de Rui Reguinga.

- Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004: este é um clássico da casa, e um dos mais resistentes em termos de produção desta casta em estreme. Outros vêm e vão, este mantém-se. Ao longo dos anos tem mantido um perfil uniforme, com alguma estrutura mas não demasiado robusto, marcado principalmente por alguma macieza. Esta colheita de 2004, adquirida em 2010, apresentou-se com uma cor granada muito carregada e viva, sem qualquer sinal de evolução em demasia. Aroma não muito exuberante com algumas notas de compotas e fruta preta, sem qualquer traço dos pimentos verdes que por vezes marcam os aromas desta quando pouco amadurecida. Na boca mostrou-se macio e não muito estruturado, contrariamente às expectativas, que apontariam para um vinho mais robusto e sem estar marcado pela madeira em que estagiou durante 18 meses. Em comparação com uma prova da colheita de 1999 efectuada há alguns anos, este exemplar terá estado algo mais delgado que o anterior.

Em resumo, vinhos de boa qualidade e em muito boa forma (em especial os dois de lote), a mostrar que aguentaram bem a prova do tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)

Vinho: Fiúza Premium 2003 (T)
Produtor: Fiúza & Bright
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira Preta, Aragonês, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 7,59 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Herdade de Muge 2004 (T)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 14%
Castas: Não indicadas
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 2004 (T)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 14%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 9,45 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

No meu copo 357 - Vinhos a caminho dos 10 anos (1): Tintos da Estremadura

Grand’Arte, Touriga Nacional 2003; Monte Judeu, Aragonês 2004; Quinta das Cerejeiras Reserva 2003; Quinta de São Francisco 2005




A par das relíquias que de vez em quando vamos desbastando em conjunto, com especial incidência nos tintos velhos do Dão e da Bairrada – e de que aqui vamos dando conta –, há alguns vinhos que vão ficando esquecidos na garrafeira. Não é a melhor ocasião, deixa-se para a próxima, olha-se para outros, e quando damos por nós há uma série de vinhos que estão rapidamente a caminhar para a dezena de anos.

Um risco? Um problema? Nunca sabemos até abrir as garrafas. Felizmente temos comprovado que, na maior parte dos casos, mesmo aqueles vinhos que à partida não estariam, em teoria, destinados a envelhecer, acabam por comportar-se excelentemente quando bebidos alguns anos após aquilo que lhes teríamos vaticinado como “prazo de validade expectável”. Acresce que na maioria dos casos se trata de vinhos provenientes de regiões que não são aquelas mais vocacionadas para a conservação de “vinhos velhos”, ou pelo menos não muito jovens.

Foi a olhar para vários desses casos que comecei a ir buscar à garrafeira alguns vinhos de 2003, 2004, 2005, que ainda por lá estão porque foram ficando para trás. Como estarão eles, pensei? Será que já estão em declínio? Estarão a morrer?

E foi assim que comecei a abrir garrafa após garrafa, indo buscar às várias regiões estes vinhos “esquecidos”, com alguma curiosidade sobre o que iria encontrar em cada um. Tentarei deixar aqui algumas impressões sobre o que fui encontrando. Neste caso vou centrar-me, para já, em vinhos de duas regiões vizinhas, Tejo (ex-Ribatejo) e Lisboa (ex-Estremadura), todos eles ainda rotulados com as denominações de origem antigas.

Comecemos pelos estremenhos.

- Grand’ Arte, Touriga Nacional 2003: equilibrado, estruturado, aromático e suave.

- Monte Judeu, Aragonês 2004: encorpado, estruturado, robusto e adstringente, mas com grande aroma, pontuado por frutos vermelhos maduros. Carnes bem temperadas serão boa companhia. Estagiou 3 meses em madeira. É um vinho que em novo apresenta taninos muito rijos, com grande adstringência e muito potente na boca. O tempo acaba por amansar-lhe bastante os taninos, embora perca alguma vivacidade. Embora seja um vinho que inicialmente se apresenta algo agressivo, feito o balanço acho que o prefiro mais novo, pois tem lá todas as características intactas, impressão que já tinha colhido aquando da prova anterior.

- Quinta das Cerejeiras Reserva 2003: cheio de pujança, profundidade aromática e persistência. Madeira muito bem integrada e amaciada pelo tempo. Um vinho para continuar a durar na garrafa.

- Quinta de São Francisco 2005: cor rubi, aroma frutado, sabor suave. Já passou o ponto, está em declínio, o aroma apresenta-se cansado e pouco exuberante.

Em jeito de balanço, em quatro garrafas três delas estavam em perfeito estado de conservação, sendo que curiosamente o único vinho em claro declínio era o mais novo, com 8 anos de idade. Portanto, o resultado não defraudou nem me deixou pessimista quanto ao futuro destes vinhos e ao estado dos próximos a consumir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Grand’ Arte, Touriga Nacional 2003 (T)
Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: DFJ Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 5,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Monte Judeu, Aragonês 2004 (T)
Região: Lisboa (Torres Vedras)
Produtor: Adega Cooperativa de Dois Portos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Aragonês
Preço: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta das Cerejeiras Reserva 2003 (T)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Aragonês, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 11,95 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta de São Francisco 2005 (T)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Castelão, Aragonês, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 5

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano novo, vida velha


As Krónikas Viníkolas e as Krónikas Tugas desejam a todos os seus fornecedores, clientes, amigos, leitores, visitantes, comparsas, parceiros, colaboradores e mais todos aqueles que têm pachorra para nos aturar, um bom ano de 2015 (como já se prevê que 2014 vai ser ainda pior do que os anteriores, achámos melhor saltar já um ano...).

tuguinho e Kroniketas, os enófilos bandalhos diletantes preguiçosos

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

No meu copo 356 - Caves São João Reserva 1995; Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1995

Para fechar o ano em beleza continuamos nas Caves São João, agora com duas relíquias de 1995: uma do Dão e outra da Bairrada, duas marcas emblemáticas e que fizeram história, não só na casa como no panorama nacional.

A aquisição destas garrafas foi impulsionada por dois artigos publicados em 2012 por João Paulo Martins, na sua coluna semanal no jornal Expresso. Num desses artigos falava das memórias dum dos fundadores das Caves, o sr. Luís Costa (em homenagem de quem foi lançado recentemente um espumante), e apresentava como sugestões de compra o Caves São João Reserva 1995, o Poço do Lobo Cabernet Sauvignon 1990 e o Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985, todos à venda na Garrafeira de Campo de Ourique, em Lisboa. No outro falava das relíquias existentes nas caves em formato magnum, e apresentava o extraordinário Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1975 (que tivemos a felicidade de poder comprar e beber há uns anos, e que também esteve em prova no Mercado de Vinhos do Campo Pequeno, no início do passado mês de Novembro), o de 1966 e o Frei João Reserva 1985.

Perante tão aliciantes sugestões, num fim de tarde eu e o Politikos dirigimo-nos à Garrafeira de Campo de Ourique para ver o que havia que pudesse interessar. Saímos de lá com mais garrafas do que aquelas que íamos procurar, entre elas estes exemplares de que agora falamos, além de outros que entretanto foram sendo bebidos com os comensais do costume.

Estes dois, por serem do mesmo ano, foram deixados para emparelhar um com o outro em mais um encontro dos Comensais Dionisíacos, em que acompanharam umas costeletas de novilho e umas tiras de entrecosto grelhadas. Presentes na ocasião estiveram também outras relíquias da Sogrape, mas delas falaremos noutra oportunidade.

Tivemos o cuidado de abrir os vinhos com antecedência e verificar se seria ou não necessário (e conveniente) decantá-los.

Ambos se apresentaram de perfeita saúde, sem qualquer sintoma de perda de aroma ou envelhecimento excessivo. No entanto o Caves São João Reserva, em versão 100% Baga, contrariamente às expectativas apresentou-se mais delgado do que se esperava e com final algo curto, parecendo estar a perder robustez, pois mesmo com idade avançada é um vinho que costuma apresentar toda a sua pujança e estrutura, como tive oportunidade de verificar na prova do Reserva Particular de 1959, nas próprias Caves, aquando do Encontro com o Vinho e os Sabores da Bairrada.

O Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada, por sua vez, estava à altura do que se esperava, com uma cor ligeiramente acobreada, notas discretas a alguns aromas do bosque mas sem estar demasiado exuberante, com corpo e acidez ainda em equilíbrio e um bom fim de boca, num conjunto harmonioso. Aguentou-se bem na prova com os grelhados, embora também pareça estar num ponto em que não melhorará muito mais.

Em suma, dois vinhos que, embora não estando num ponto excepcional como outros exemplares que temos provado, não desmereceram na experiência da prova, sobretudo pela raridade e porque continuam a ser dos tais que já não se vão fazendo.

E com isto fechamos o ano desejando a todos os enófilos um ano de 2014 repleto de boas provas. E não se esqueçam: “a vida é curta demais para se beber maus vinhos”. (Hubrecht Duijker)

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Caves São João

Vinho: Caves São João Reserva 1995 (T)
Região: Bairrada
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Baga
Preço: 17,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1995 (T)
Região: Dão
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Não indicadas
Preço: 17,80 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

No meu copo 355 - Quinta do Poço do Lobo Reserva 2007; Quinta do Poço do Lobo Reserva, Cabernet Sauvignon 2004

Voltamos aos clássicos da Bairrada para revisitar as Caves São João, agora com novo fôlego e com novos produtos lançados recentemente no mercado, como alguns novos espumantes (um deles premiado com a Escolha da Imprensa no Encontro com o Vinho e Sabores 2013) e novos brancos e tintos, como o Quinta do Poço do Lobo Reserva branco de Arinto e Chardonnay, ou o Caves São João Lote Especial.

Neste caso tratou-se duma prova conjunta de dois exemplares duma das marcas tradicionais da casa, o Quinta do Poço do Lobo, nas duas versões habituais: o Reserva 2007 e o Reserva Cabernet Sauvignon 2003.

O Reserva 2007 apresentou-se pleno de força, cor uma cor rubi opaca, muito estruturado, robusto e persistente, com grande volume de boca, taninos presentes e firmes mas redondos, sem arestas a agredir o paladar. Algumas notas de frutos maduros no aroma e ligeiro tostado resultante dos 12 meses de estágio em pipas de carvalho francês. Um Bairrada tradicional, fazendo um bom casamento da Baga com a Touriga Nacional e o Cabernet Sauvignon, a comporem um conjunto com mais variantes aromáticas.

Quanto ao Reserva Cabernet Sauvignon 2004, habitualmente um dos Cabernet mais bem conseguidos em Portugal, apresentou alguns traços apimentados e aroma a frutos maduros, mas com pouca exuberância para o que é habitual. Os traços mais marcantes da casta estavam lá mas pouco evidentes, parecendo denotar alguma perda de aromas, ou então estava num patamar de evolução menos favorável. Às vezes acontece. Madeira discreta e bem integrada, resultante de 13 meses de estágio também em pipas de carvalho francês.

Não deixando de ser um bom Bairrada, perdeu na comparação directa com o seu parceiro de lote, o que também pode ter influenciado a percepção da prova. Comparar vinhos de lote com vinhos monocasta acaba, muitas vezes, por penalizar estes últimos, que podem ser um pouco ofuscados pela maior complexidade dos vinhos de lote. Para rever a solo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada
Produtor: Caves São João

Vinho: Quinta do Poço do Lobo Reserva 2007 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta do Poço do Lobo Reserva, Cabernet Sauvignon 2004 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 12,71 €
Nota (0 a 10): 7,5

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

No meu copo 354 - Herdade do Perdigão Reserva 2004

Aqui temos um vinho que é quase o oposto do anterior. Um alentejano clássico, baseado na cada vez menos popularizada e badalada Trincadeira (há as castas da moda e aquelas que vão passado de moda...), pleno de pujança, corpo, persistência, mas com muita elegância e arestas bem limadas. No aroma nota-se algum vegetal proveniente da predominância de Trincadeira, dando-lhe o Aragonês e o Cabernet Sauvignon alguma vivacidade e complexidade.

Consegue conjugar uma certa robustez com alguma frescura resultante das zonas altas do norte alentejano. É um vinho que pede pratos fortes, como peças de caça bem temperadas, e que também necessita de tempo para ser devidamente apreciado, pois demora a desenvolver os aromas. Neste caso, apesar da idade, mostrou-se de perfeita saúde, sem qualquer sinal de declínio, parecendo estar para durar outro tanto.

O maior senão será o preço, pois na maior parte dos casos situa-se na zona dos 25 €, o que é sempre um factor dissuasor, mas vale a pena a experiência. Com alguma sorte pode ser encontrado abaixo dos 20 € nalgumas promoções, e aí a compra torna-se muito mais aliciante.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Herdade do Perdigão Reserva 2004 (T)
Região: Alentejo (Monforte - Portalegre)
Produtor: Herdade do Perdigão
Grau alcoólico: 15%
Castas: Trincadeira (80%), Aragonês (15%), Cabernet Sauvignon (5%)
Preço em feira de vinhos: 21,46 €
Nota (0 a 10): 8,5

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

No meu copo 353 - Vinha Grande 2008

Este vinho é um daqueles clássicos acerca dos quais já pouco começa a haver para dizer de novo, à medida que vamos fazendo sucessivas provas. O perfil é conhecido e vai-se mantendo de colheita para colheita, na linha da tradição da Casa Ferreirinha. São vinhos que primam sobretudo pela elegância, suavidade, muito longe das bombas de fruta e álcool que dominam a região.

Sem descurar uma boa estrutura e persistência, tem um aroma profundo a frutos vermelhos, algum floral, um toque a especiarias que lhe dá alguma vivacidade, taninos arredondados e boa integração com a madeira, em que estagia durante cerca de um ano em barricas usadas.

Dentro da gama em que se enquadra, é daqueles que por vezes se encontra a muito bom preço e um valor seguro, nunca nos deixando ficar mal. Deixe-se respirar, de preferência após decantação, para que liberte todos os aromas, e aprecie-se com carnes requintadas e não demasiado temperadas. Um bom companheiro para a mesa.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Vinha Grande 2008 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 7,23 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 15 de dezembro de 2013

No meu copo 352 - Convento da Tomina 2011

Provei este vinho pela primeira vez num restaurante da Praia da Rocha que já não existe (agora no mesmo espaço existe uma casa de refeições do tipo americano, chamada American Diner). Não é um vinho muito falado, mas a verdade é quem em termos de relação qualidade/preço deve ser do melhor que por aí anda. É um dos tais tintos de perfil moderno, mas ao qual é difícil ficar indiferente.

No primeiro contacto agradou-me, depois cruzei-me com ele esporadicamente e agora esta colheita de 2011 voltou a ser alvo de diversos elogios. O perfil mantém-se: encorpado, robusto, estruturado, uma bomba de fruta! Muito extraído, muito concentrado, muito alcoólico. Tudo aquilo contra o que tenho andado aqui a fazer campanha... Mas a verdade é que também é longo e persistente, está muito bem feito e bebe-se com agrado, pois é um vinho guloso.

Tenho alguma dificuldade em admitir isto, mas é um vinho que tendo tudo aquilo que normalmente não aprecio, gosto dele... Que se há-de fazer, então? Esqueçam-se os dogmas e beba-se, naturalmente a acompanhar pratos de carne muito bem temperados, para se bater com tanto tanino e tanto álcool. Mas cuidado ao levantar da cadeira...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Convento da Tomina 2011 (T)
Região: Alentejo (Moura)
Produtor: Francisco Nunes Garcia
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 7,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Feito num 8


Faz hoje oito anos que este blog foi criado pelos autores, em primeira medida para autonomizar o que escrevíamos sobre vinhos, comida e afins no nosso blog original, o Krónikas Tugas. Rapidamente ganhou vida própria e ultrapassou o progenitor, a ponto de lhe roubar todo o tempo que lhe dedicávamos e passando praticamente a ser o único blog em que escrevíamos.

Nestes oito anos muita coisa se passou, muito vinho se bebeu e analisou, muita comida foi deglutida e apreciada pelos diletantes que criaram esta baiuca e pelos associados do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos”. Neste ano que está quase a terminar passámos a colocar menos um copo na nossa mesa porque isto da vida tem que se lhe diga. Neste oitavo ano da existência das Krónikas Viníkolas conhecemos novas pessoas e novos vinhos e continuámos a libar o néctar da uva porque, além de ter o que se lhe diga, a vida também continua.

Os aniversários servem essencialmente para comemorar a existência, para agradecer o facto de estarmos vivos, tanto as pessoas como as coisas. Agradeçamos portanto mais um ano de existência ao Universo e esperemos que durante o ano que se avizinha as nossas gargantas continuem a receber o produto da terra, do sol e do homem que é o vinho.

Já dizia o outro, que não era parvo, “In Vino Veritas”!

Obrigado

tuguinho e Kroniketas, enófilos em festa

sábado, 7 de dezembro de 2013

No meu copo 351 - Domaine Felix, Sauvignon 2010; Villa Maria, Sauvignon Blanc 2012

Depois do fabuloso jantar com vinhos franceses no restaurante Jacinto, foi com alguma expectativa que voltei aos vinhos franceses, neste caso com um monocasta de Sauvignon Blanc de Saint-Bris, sub-região da Borgonha, produzido por Domaine Felix et Fils.

Sem ser um vinho excepcional como outros (a memória do fabuloso Domaine Laroche Les Vaudevey ainda estava muito presente), apresentou, como se esperava, aquela suavidade e finesse dos brancos borgonheses, que os torna diferentes de tudo aquilo que já bebi em termos de brancos. Pontuado pelos aromas da casta, com notas tropicais e algum citrino, destaca-se a frescura e elegância num conjunto muito agradável.

Já o Villa Maria foi uma repetição, depois da prova da colheita de 2011 há cerca de um ano, apresentando-se mais estruturado e marcadamente tropical e com algum floral, confirmou as impressões da prova anterior, também com bastante frescura, sendo um vinho apetitoso de que apetece beber sempre mais um copo. Entre os monocasta de Sauvignon Blanc que invadiram o planeta (e esta casta também vai tendo os seus opositores), este será porventura um dos mais conceituados e bem sucedidos. Embora de preço superior, é um vinho com todas as condições para agradar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Domaine Felix, Sauvignon 2010 (B)
Região: Saint-Bris - Borgonha (França)
Produtor: Domaine Felix et Fils – Saint-Bris-Le-Vineux
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço em hipermercado: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Villa Maria, Sauvignon Blanc 2012 (B)
Região: Marlborough (Nova Zelândia)
Produtor: Villa Maria Estate – Auckland
Grau alcoólico: 13%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço: 10,95 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Dãowinelover TN Day

    
    

Realizou-se no passado dia 23 de Novembro mais um evento do grupo #daowinelover, promovido pelos bloguistas Pingus Vinicus e Miguel Pereira, que à semelhança do Dãowhiteday decorreu no restaurante Claro do Hotel Solar Palmeiras, em Paço de Arcos.

Desta vez o tema eram os vinhos do Dão elaborados com base na Touriga Nacional, casta originária da região, trazidos pelos produtores que mais uma vez se associaram graciosamente à iniciativa. Nós voltámos a estar presentes e desta vez conseguimos juntar um contingente de 4 participantes, coisa inédita nestes eventos!

Compareceram à chamada 12 produtores, a seguir listados alfabeticamente, pela mesma ordem em que foram apresentando os seus vinhos: Caminhos cruzados, Carlos Lucas Vinhos/Magnum Vinhos, Casa da Passarela, Casa de Mouraz, Dão Sul, Fonte do Gonçalvinho, Júlia Kemper, Quinta das Marias, Quinta de Lemos, Quinta do Escudial, Quinta dos Carvalhais e Quinta dos Roques.

Porque se tornaria demasiado longo e fastidioso falar de todos os vinhos provados, e porque num evento deste género é sempre difícil fazer uma apreciação aprofundada de cada vinho, falemos um pouco de alguns que mais nos marcaram. Sendo a prova orientada para os vinhos monocasta de Touriga Nacional, não se primou exactamente por uma enorme variedade de estilos, mas foi possível descortinar algumas diferenças evidentes entre alguns dos vinhos, mesmo dentro da mesma empresa.

A função iniciou-se com o Touriga Nacional Titular, do produtor Caminhos Cruzados. Um vinho quente com aromas típicos da casta, macio na boca mas algo curto. Muito interessante revelou-se o Ribeiro Santo, de Carlos Lucas, com algum carácter mineral, mais fresco que o anterior, bem estruturado e sem vestígios do estágio em madeira. Da Casa da Passarela veio um Touriga Nacional 2008, austero, com os aromas fechados, muito extraído e concentrado, a precisar de mais tempo em garrafa, e um Villa Oliveira 2009, proveniente de vinhas velhas com mais de 80 anos, elegante e fresco, sem sinal de sobrematuração. Pessoalmente prefirimos o estilo do segundo, pois o primeiro tende a aproximar-se daquele perfil que nalgumas ocasiões torna alguns vinhos de Touriga algo chatos e cansativos.

A Casa de Mouraz, propriedade de filho de viticultores, apresentou dois vinhos, produzidos em agricultura biológica, sendo um deles de lote com Jaen e uvas de vinhas velhas, apresentando uma frescura que foge ao tom um pouco monocórdico da Touriga. Da Dão Sul vieram as duas marcas emblemáticas da casa: um Quinta de Cabriz e um Casa de Santar. O primeiro era o mesmo que tive oportunidade de provar no almoço na Quinta de Cabriz e confirmou esse perfil. Talvez uns anos em garrafas lhe façam bem. Já o Casa de Santar fez pleno jus ao perfil dos vinhos da casa: elegante, não demasiado concentrado, com notas especiadas, suave e com taninos sedosos. Um clássico com o verdadeiro perfil do Dão, dos melhores do dia.

Outra das estrelas do dia foi o vinho de Júlia Kemper, um vinho sedutor com uma longa história contada na primeira pessoa pela produtora. Da mesma forma uma colheita de 1998 da Quinta dos Carvalhais, concentrado e aromático quanto baste para fazer frente a outros bem mais jovens, e a prometer ainda um longo futuro em garrafa.

Da Fonte do Gonçalvinho veio um casal luso (ele)-francês (ela), que se apaixonou pelo Dão e apresentou um vinho ainda muito jovem e a precisar de tempo na garrafa para crescer. Por seu lado, o “jovem” casal da Quinta do Escudial falou-nos da sua experiência no mundo do vinho que começou já bem dentro da terceira idade, destacando-se a coragem de rejeitar a madeira nos seus vinhos, o que lhes mantém alguma pureza e não os mascara, mostrando o verdadeiro carácter do Dão. E para destoar apresentou-nos um excelente branco já na fase dos petiscos.

Da Quinta das Marias veio mais um estrangeiro apaixonado pelo Dão, Peter Eckert, com um vinho muito vivo e firme na boca, com bons taninos mas todo em equilíbrio. Para terminar em beleza tivemos mais uma eloquente exposição de Luís Lourenço acerca do Quinta dos Roques, ficando desde logo anunciado que para o período pós-prova haveria mais vinhos para além da Touriga Nacional...

Terminada esta fase vieram então os comes, em pequenas sanduíches de composição diversa como salmão, legumes, hamburger, abrindo-se então a possibilidade de provar outros vinhos que não foram apresentados na primeira fase.

Já com o serão algo adiantado, os presentes foram-se retirando a pouco e pouco. Foi mais uma bela jornada de propaganda do Dão graças ao entusiamo dos dois organizadores, a quem mais uma vez cabe agradecer o empenho e o trabalho realizado. No entanto, fica a pergunta: que visibilidade se pode esperar destes eventos enquanto eles decorrerem em ambiente privado e sem qualquer envolvimento das entidades oficiais? Será que um grupo de algumas dezenas de entusiastas está mais interessado em divulgar os vinhos do Dão do que os responsáveis a quem esse trabalho supostamente competiria?

Kroniketas e os outros Dão Winelovers

Nota: devido a um problema com o flash, as fotos tiradas ficaram com deficiente qualidade, pelo que deixamos apenas alguns exemplos ilustrativos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

No meu copo 350 - Quinta do Gradil, Arinto e Sauvignon Blanc 2011

Continuando nos brancos, damos um salto à região de Lisboa.

A Quinta do Gradil é uma propriedade situada a poucos quilómetros do Cadaval, entre as povoações de Vilar e Martim Joanes, na região vitivinícola de Lisboa e geograficamente situada na órbita da Denominação de Origem Óbidos, num cenário maravilhoso de planície próxima do sopé da serra de Montejunto. Em tempos idos foi propriedade do Marquês de Pombal.

Nos anos recentes a Quinta do Gradil tem proporcionado aos enófilos a possibilidade de passarem um dia na vindima, tomando contacto com o mundo real que existe para além do que está dentro da garrafa. Quem sabe se um dia destes não nos candidatamos a ir lá...

No mercado dos vinhos da zona de Lisboa, marcados pelo clima atlântico devido à proximidade do mar, têm surgido novidades muito interessantes, pois são vinhos marcados por alguma frescura, ao mesmo tempo que mostram uma estrutura interessante (no caso dos tintos) e aromas com alguma predominância vegetal e bastante mineralidade. Curiosamente, continua a ser nesta região que existe uma maior incidência de apostas nos vinhos monocasta, de que tanto a Quinta do Gradil como a Casa Santos Lima são exemplos relevantes. No caso da Quinta do Gradil, a aposta tem-se centrado tanto nos mono como nos bivarietais, e neste caso foi um exemplar destes últimos que tive à mesa.

As castas Arinto e Sauvignon Blanc têm sido usadas com alguma frequência em combinação no mesmo lote, e geralmente com bons resultados. O Arinto, com a sua acidez característica e que se expressa de modo particularmente exuberante na Estremadura/região de Lisboa, é determinante para a frescura do vinho e uma evidente vivacidade na prova de boca pontuada por notas cítricas e alguma mineralidade. Entretanto o Sauvignon, por natureza com notas mais tropicais e algum perfil mais vegetal, complementa o lote com uma boa estrutura e uma macieza que contrabalança a acidez do Arinto. Daqui resulta uma combinação feliz e bem conseguida, num conjunto marcadamente fresco e apelativo, que se expressa muito bem na companhia de entradas diversas, mariscos ou peixes não demasiado temperados.

Tendo em conta o preço, estamos perante um produto que, sendo fácil de agradar, é bastante acessível e versátil. Portanto, uma boa aposta para brancos não muito pretensiosos e para beber com descontracção.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Gradil, Arinto & Sauvignon 2011 (B)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Quinta do Gradil - Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Castas: Arinto, Sauvignon Blanc
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

No meu copo 349 - Topázio Reserva 2010

Aproveitando a embalagem dos brancos franceses, continuamos a falar de brancos, agora acerca dum vinho que em tempos teve algum destaque entre os brancos portugueses, quando ainda era produzido pelas Caves Velhas. Era um daqueles brancos leves e fáceis de beber. Depois a marca desapareceu do mercado, até ressurgir nas prateleiras há 2 ou 3 anos, já sob o chapéu da Enoport mas mantendo no rótulo a menção às antigas e prestigiadas Caves Velhas.

Muito aromático, floral e citrino, elegante e com uma acidez que dá uma boa frescura na boca, é um vinho simpático, apelativo e fácil de beber. As castas usadas naturalmente ajudam: a acidez do Arinto junta-se ao aroma floral da Malvasia Fina e à estrutura do Viosinho.

Em resumo, o reencontro com este vinho, após longos anos de ausência, foi prazeroso, e o preço apresentado torna-o naturalmente uma compra recomendável para quem quiser um branco agradável e descomplicado, pelo que o juntámos à nossa lista de sugestões.

O único senão é que raramente se consegue encontrar à venda. O Continente por vezes apresenta-o nas feiras de vinhos, mas após o fim destas o vinho desaparece das prateleiras até à próxima feira...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Topázio Reserva 2010 (B)
Região: Douro
Produtor: Enoport - Produção de bebidas
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Viosinho, Malvasia Fina
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

No meu copo, na minha mesa 348 - Jantar no Jacinto com vinhos franceses

   
   
   
 

Este evento decorreu no mesmo dia do início do Encontro com o Vinho e os Sabores 2013. Tudo aconteceu de forma inesperada, após ter recebido um e-mail, proveniente dum velho conhecido ligado ao sector do vinho, com um convite para um jantar com provas comentadas de champanhe. Embora já tivesse planos para esse dia, que em parte continham uma primeira passagem pelo Encontro com o Vinho, pareceu-me que a proposta era demasiado aliciante para declinar, tendo em conta que não havia custos envolvidos.

Dito isto mudei de planos e, após a confirmação de local e horas, saí mais cedo do Centro de Congressos de Lisboa e dirigi-me a Telheiras para estar no Jacinto por volta das 21 horas. O que aconteceu, no entanto, foi que a quase totalidade dos participantes estavam no Encontro com o Vinho e foram chegando a conta-gotas, de tal forma que pelas 22 horas ainda não estávamos à mesa. Enquanto se esperava, foi-nos servido um copo de champanhe Deutz para ir passando o tempo.

Só quando toda a gente estava à mesa e foram feitas as apresentações do que se iria passar fiquei a saber que o evento era promovido pela distribuidora Mister Wine e que em vez de um produtor de champanhe iríamos ter na sala os representantes de não 1, não 2, não 3, mas 4 produtores franceses: Deutz (da região de Champagne), Delas Frères (Côtes-du-Rhone), Michel Laroche (Chablis) e Pascal Jolivet (Loire). Conversa puxa conversa, um contacto leva a outro, um é convidado para apresentar os seus vinhos e há outro que entra na conversa, e assim em vez de apenas champanhe iríamos ter também vinho branco, tinto e doce. Um verdadeiro desfile de néctares de excepção à nossa espera! E só à medida que fui identificando os presentes, quase todos ligados ao sector do vinho (jornalistas e/ou enólogos e /ou produtores, representantes da Revista de Vinhos, jornal “I”, Exame) é que me apercebi de como era um privilegiado por estar ali, eu, um mero amador que escreve num blog e de vez em quando vai conhecendo as pessoas do meio numas provas aqui e ali...

A condução das operações foi feita por José Carneiro Pinto, ligado à Quinta do Oritgão, que apresentou os representantes dos produtores presentes e anunciou o que se iria beber ao longo da refeição. Tudo em inglês, para que toda a gente percebesse...

E assim foram desfilando os pratos e os vinhos, quase todos em garrafas magnum, começando pelo champanhe Deutz Brut Classic, composto pelas castas Pinot Noir (que dá volume de boca e corpo ao vinho), Pinot Meunier e Chardonnay em partes iguais (portanto um misto de brancas e tintas, como é típico da região). Bolha fina, muito elegante, persistente (Nota: 8,5).

A partir daqui tivemos os vinhos apresentados aos pares para acompanhar cada prato. Começámos com um prato de cogumelos recheados, ovos com farinheira e queijo de cabra com mel, tudo muito bem temperado e apaladado, com os sabores muito suaves a casarem muito bem com os vinhos.

Fui debicando de cada um alternadamente, acompanhando com um branco de Pascal Jolivet, Clos du Roy 2012, da região de Sancerre. Excelente acidez, macio e persistente, com boa estrutura (Nota: 8,5). A emparelhar, um Domaine Laroche, Saint Martin 2011, de Chablis (Borgonha). Mais doce e menos estruturado que o anterior, dois perfis bastante diferentes (Nota: 8).

Passámos então à pièce de résistance, com dois pratos. Primeiro veio um polvo de cebolada que depois foi ao forno, bastante suculento, bem temperado e apetitoso. Para acompanhar, novamente um vinho de Sancerre e um de Chablis, tal como na parelha anterior. Pascal Jolivet Les Caillottes 2001, suave, aromático e profundo (Nota: 9). Infelizmente perdeu na comparação com o parceiro que veio ao mesmo tempo, para mim o vinho da noite: um Chablis Premier Cru (o segundo nível de topo, apenas abaixo dos Grand Cru) Domaine Laroche Les Vaudevey 2006, 100% Chardonnay. Grande corpo, grande estrutura, aroma interminável, tudo pontuado por uma finesse notável e uma elegância soberba. Grande, grande vinho, um autêntico néctar dos deuses que nos ajuda a perceber o porquê da fama dos brancos franceses, e dos da Borgonha em particular! E que diferença em relação aos Chardonnay feitos em Portugal, carregados de madeira, pesados, amanteigados, enjoativos... No fim, como recordação, levei para casa a garrafa de 1,5 L deste vinho sublime! (Nota: 10)

Seguiu-se outro prato de resistência, uma empada de pato com salada de alface, também excelentemente temperada. Para acompanhar, um champanhe e um tinto. Champagne Deutz Brut 2006: mousse suave, fino, elegante, excepcional! (Nota: 10). A fazer parceria, o único tinto da noite: Marquise de La Tourette Delas 1999, da região de Hermitage (Côtes-du-Rhone), 100% Syrah ou não esitvessemos no berço da casta. Um vinho que se impõe pela suavidade e elegância, típica dos tintos daquela região, marcando a diferença em relação às bombas de fruta e álcool com que vamos levando por cá na última década. (Nota: 8,5)

Para as sobremesas ainda tivemos direito a mais um duo de pratos. Primeiro um folhado de morangos com natas, acompanhado com um Champanhe Deutz rosé. Elegante, suave e aromático, corpo médio. (Nota: 8).

Finalmente, uma trilogia de doces conventuais, encharcada, fidalgo e sericaia (qual deles o melhor), acompanhados por mais um duo de vinhos. O famoso Sauternes, porventura o branco doce mais emblemático do planeta, um Château Doisy Daëne 2005 (Nota: 8,5) e mais um champanhe: Cuvée William Deutz Millésime 1999, muito seco, elegante e equilibrado. (Nota: 9)

Foi um fecho em beleza para um repasto excepcional e inolvidável, com pratos de alto nível e vinhos de excepção. Lá pela 1:30 da manhã finalmente abandonei o local, ainda restando alguns minutos de convívio entre os mais resistentes, que foram ficando até ao fim.

Só me resta agradecer o convite que em boa hora me foi dirigido pelo meu amigo José Carneiro Pinto e à Mister Wine por ter organizado este magnífico jantar. Também ao restaurante Jacinto, com uma confecção, um serviço de refeição e de vinhos irrepreensível. Depois de alguma crise atravessada na década de 1980, o Jacinto renasceu em grande e tem sido palco de alguns jantares de grande nível, cotando-se como um dos locais de eleição para jantares vínicos na cidade de Lisboa  nos últimos anos já tinha lá participado num jantar da Niepoort (1ª parte e 2ª parte) e num da Dão Sul. E finalmente aos produtores que disponibilizaram os seus fantásticos vinhos e me permitiram pela primeira vez provar e degustar um painel de vinhos franceses sublimes.

Foi mais uma noite para recordar no restaurante Jacinto. Parabéns a todos.

Kroniketas, enófilo embevecido