domingo, 27 de outubro de 2013

Um passeio pelo Dão - 1

Almoço na Quinta da Espinhosa


  
     

Respondendo ao desafio do Pingus Vinicus, no âmbito de mais uma iniciativa do grupo do Facebook #daowinelover, no fim-de-semana de 19 e 20 de Outubro desloquei-me ao Dão para um almoço com alguns dos irredutíveis amantes do vinho do Dão, que andam à procura de vinhos diferentes e de relíquias do antigamente. Aliás, o próprio tema do encontro era subordinado aos vinhos do século XX: cada participante, para além do custo do repasto, estava comprometido a contribuir com uma garrafa de vinho do Dão do século XX.

Desta vez nenhum dos comparsas do costume se disponibilizou para alinhar na iniciativa, pelo que a deslocação se fez, pela primeira vez, em formato de casal. Aproveitando uma oferta surgida do nada, pernoitei durante o fim-de-semana com a minha mulher no Hotel Senhora do Castelo, situado no cimo dum monte em Mangualde, mesmo ao lado do santuário com o mesmo nome. Dificilmente o local poderia ser mais adequado, pois ficámos mesmo no coração da região demarcada do Dão, com acesso rápido à maioria das localidades onde se situam produtores e quintas de referência.

A viagem decorreu na 6ª feira à noite sob um temporal incessante, que se prolongou ao longo de todo o trajecto até à chegada a Mangualde. O Pingus Vinicus tinha-me dito que era fácil encontrar o hotel, bastava olhar ao longe até encontrar a cruz do Santuário da Senhora do Castelo... Mas com o céu carregado como estava, não se via além de 100 metros, pelo que santuário... nem vê-lo. Mas lá conseguimos chegar ao monte da Senhora do Castelo já para lá da meia-noite, na esperança de que o dia seguinte nos brindasse com alguma acalmia.

O amanhecer revelou-nos o esplendor do local. Em frente à janela do quarto, estendendo-se ao longo do horizonte, a Serra da Estrela marcava a paisagem para nascente. Do cimo do monte tem-se uma vista privilegiada sobre toda a zona circundante e lá em baixo avista-se Mangualde, a A25 e toda uma zona mais ou menos plana por entre as serras que caracterizam a região.

O encontro estava marcado para o meio da manhã na Quinta da Espinhosa, em Vila Nova de Tázem, onde iria decorrer o convívio e o almoço. Tomado o caminho para Gouveia, entrámos rapidamente em zona de serra e estradas sinuosas, serpenteando por entre vinhas, olivais e floresta, passando por algumas localidades com a traça típica da Beira Alta, com as suas casas de pedra. Por entre subidas e descidas várias, lá chegámos em menos de meia-hora a Vila Nova de Tázem e encontrámos a Quinta da Espinhosa, onde foi possível conhecer uma boa parte dos convivas com quem habitualmente vamos trocando impressões no grupo do Facebook.

Desde logo atacámos a mesa onde os vinhos iam sendo expostos. Tendo esgotado as relíquias que ainda restavam na garrafeira, só me restou recorrer a um exemplar do Dão Sogrape Reserva 99 que tinha sido adquirido há uns meses através duma encomenda na garrafeira Néctar das Avenidas. À volta da mesa de petiscos foram-se trocando impressões, obtendo informações de alguns produtores presentes (Luís Lourenço, da Quinta dos Roques, já lá estava e foi um dos animadores de serviço), debicando aqui e ali até ser tempo de sentar à mesa de almoço, onde pudemos entreter-nos com um cabrito feito à moda da casa e ir rodando pelos vinhos que estavam à disposição.

Na impossibilidade de provar todos os vinhos, resta dar algum destaque àqueles que mais me marcaram. Excelentes um Quinta dos Roques 1990, um 1996 do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, um Meia Encosta Garrafeira de 1995 e, aparecido já com o almoço a decorrer, um Porta dos Cavaleiros 1983, adquirido pela Joana Marta e pelo Pedro Moreira às Caves São João. Um daqueles à moda antiga, espantoso na saúde dos seus 30 anos! Já em final de repasto, um Colibri Presidencial branco de 1980 fez a sua aparição à mesa, também pleno de saúde e aromas. Foi assim baptizado em homenagem à visita do Presidente da República à Quinta da Espinhosa, em 1980, e bem mereceu o nome porque estava digno de um presidente ou de um rei!

Para finalizar ainda circulou pela mesa um licoroso da Quinta da Falorca de 2010, que em nada desmerece na comparação com alguns vinhos do Porto mais comuns, para acompanhar leite-creme, arroz doce, castanhas e maçãs assadas (estamos na terra da maça bravo de esmolfe).

Terminado o repasto, era altura de regressar à base, a Mangualde, pois o programa para o resto do dia ainda ia a meio. Os restantes convivas ficaram até à noite, todos na boa companhia uns dos outros.

Resta-me agradecer ao Pingus Vinicus por mais esta iniciativa em prol dos vinhos do Dão, que à semelhança de outras nos vão ajudando a redescobrir as preciosidades que ainda andam por aí, e nos permitem beber vinho sem ter de “gramar” com 14 graus de álcool a cada passo que damos. Assim tenhamos oportunidade de encontrá-las.

Kroniketas, enófilo itinerante

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

No meu copo 344 - Pai Abel Chumbado 2011

Continuando na Bairrada... Já tivemos oportunidade de falar de passagem deste vinho, a propósito de duas provas da Quinta das Bágeiras, na Wine O’Clock e na GN Cellar.

É um branco que, graças às originalidades da regulamentação portuguesa, conseguiu a proeza de ser reprovado como vinho DOC Bairrada da câmara de provadores da Comissão Vitivinícola Regional. O produtor, Mário Sérgio, pouco se importou com esse detalhe de ordem legal e aproveitou para baptizar o vinho com um nome que só lhe dá mais destaque: acrescentou-lhe ao nome a palavra “Chumbado”. Daí a tornar-se um caso de notoriedade foi um passo. Sabe-se como muitas vezes a publicidade negativa tem o efeito contrário sobre o objecto dessa publicidade, e o facto de ter sido chumbado pela CVR fez disparar a curiosidade sobre este vinho. A curiosidade e o preço...

Assim tivemos oportunidade de adquirir uma garrafa que já foi partilhada entre os convivas habituais, e confirmou as impressões recolhidas nas provas. É um Bairrada de perfil clássico, encorpado, cheio, de aroma algo fechado, mas que é aveludado na boca, persistente e longo. Um branco vocacionado para dias mais frios mas que tem capacidade para se bater com qualquer prato requintado. Mesmo com alguns pratos de carne poderá ser uma opção a considerar.

Em suma, um vinho excelente, por um preço algo exagerado mas que vale bem a prova para se ficar a conhecer como é, e ver como se faz um branco que pode ser de Inverno ou de todas as estações sem o carregar de madeira. Mais um produto da Quinta das Bágeiras que promete tornar-se um clássico da Bairrada.

E de seguida, vamos para os clássicos do Dão...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pai Abel Chumbado 2011 (B)
Região: Bairrada (sem denominação de origem)
Produtor: Mário Sérgio Alves Nuno
Grau alcoólico: 13,5%
Preço: 23,85 €
Nota (0 a 10): 8,5

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

No meu copo 343 - Luís Pato 2003

Para enquadrar o relato sobre o evento na Bairrada, nada melhor que voltar a provar um clássico da Bairrada, neste caso sob o lema da “tradição de inovar”: trata-se de um Luís Pato 2003, produzido apenas com a casta Baga, já com a nova roupagem que o distingue das colheitas até aos anos 90.

Tratando-se dum vinho com 10 anos, e que esperou 8 anos para ser consumido (foi adquirido em 2005, portanto ainda bastante jovem), espera-se que esteja no ponto óptimo para beber, e de facto assim aconteceu. Na boca apresentou-se cheio, estruturado e robusto, ainda com potencial para continuar em garrafa, mas ao mesmo tempo já amaciado e com taninos suaves e sedosos. Acompanhou na perfeição um frango assado no forno, batendo-se bem com alguma acidez dos temperos, ao mesmo tempo que limpou o palato e deixou sempre espaço em aberto para mais um copo.

Claro que não tem nada de parecido com os vinhos da moda, felizmente digo eu, e era isso que eu esperava dele. Só me faz confusão haver quem prefira o outro estilo a este...

É sem dúvida um clássico com um toque moderno por um preço muito apelativo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Luís Pato 2003 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Luís Pato
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Baga
Preço em feira de vinhos: 4,14 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (4ª parte - final)

Prova de brancos de excelência


 

Velódromo de Sangalhos, 16:00 h. O autocarro estaciona no parque e saímos apressadamente em direcção a uma porta lateral que dá entrada directa para a sala onde vai decorrer a prova de brancos de excelência. Ao comando das operações está Luís Antunes, um dos redactores da Revista de Vinhos, que conduz a prova num tom leve, simpático, descontraído e bem-disposto, bastante diferente do registo por vezes excessivamente técnico com que escreve. Dirige-se directamente aos presentes, questiona, pede opiniões, incita os presentes na prova a uma participação mais interactiva.

Em pequenas mesas fomo-nos distribuindo pela sala até esta ficar repleta, e os vinhos começaram a desfilar. 10 brancos da Bairrada, de diversos produtores e com diversos perfis, abarcando as castas mais emblemáticas da região: Bical e Maria Gomes são incontornáveis, e juntam-se o Cerceal, o Arinto, o Chardonnay, com madeira e sem madeira, com bâtonnage e sem bâtonnage, vários estilos nos vão vai passando pelos copos: Aequinoctium, Encontro 1, Filipa Pato Nossa Calcário, Frei João Reserva, Luís Pato Vinha Formal, Quinta do Ortigão Sauvignon Blanc, Quinta do Valdoeiro Chardonnay, Quinta dos Abibes Sublime, Rama Sauvignon Blanc, Volúpia...

Durante uma hora pudemos apreciar vários estilos, e em todos eles encontrámos um traço comum: frescura, boa acidez, uma envolvência na boca que pede comida, estrutura e persistência, tudo a prometer uma longevidade invulgar.

Eram 5 da tarde, e estávamos em provas praticamente desde as 11 da manhã, com um almoço de permeio. Agora finalmente íamos rumar à sala do velódromo, no piso inferior, onde decorria o festival de vinhos propriamente dito, com a presença de 32 produtores da região, desde os mais mediáticos como Aliança, Adega Cooperativa de Cantanhede, Luis Pato, Filipa Pato, Campolargo, Caves São Domingos, Caves Messias, Caves Primavera, Caves São João, Quinta das Bágeiras ou Quinta do Encontro, até outros menos badalados, como Ataíde Semedo, Casa d’Almear, Caves Arcos do Rei, Célia e Nelson Neves, Paulo Santos, Quinta da Mata Fidalga, Quinta dos Abibes, Quinta do Ortigão ou Vinícola Castelar, além de diversas empresas de sabores com produtos regionais.

Fui parando e provando aqui e ali, trocando uns dedos de conversa ali e acolá, mas o cansaço e a saturação das provas começou a fazer-se sentir. Ainda havia a possibilidade de participar no jantar “Sabores da terra”, a 35 € por cabeça, que inicialmente era um dos objectivos da viagem, mas que estava esgotado. Embora à última hora houvesse desistências e portanto abrissem vagas, considerei que já não tinha condições para mais provas nesse dia, pelo que por volta das 19 horas o meu programa terminou, abdicando do ansiado jantar temático. A solução passou por comprar umas doses de leitão na Mealhada para comer ao chegar a casa.

Deste intenso dia de provas quase em ritmo non-stop, o que fica de relevante é isto: tanto o Dão como a Bairrada, regiões esquecidas pelo grande público consumidor nos últimos 10/15 anos, estão a renovar-se e, por diversas formas – quer através das entidades oficiais, quer através de associações de produtores, quer através dos simples enófilos que promovem encontros para dinamizar e dar a conhecer o que se faz agora – a tentar recuperar o estatuto de excelência que já possuíram e sem dúvida merecem (por sinal, sempre foram as minhas duas regiões preferidas). Cada uma com um perfil muito próprio e diferenciado de todas as outras, estas são as duas regiões onde se pode apostar na longevidade, no equilíbrio e na elegância que só o tempo consegue conferir a certos vinhos. Todos aqueles que querem mais do que simplesmente beber bombas de fruta, superdoces, hiperconcentradas e hiperalcoólicas, é aqui que devem procurar a diferença em relação aos já saturantes “vinhos da moda”.

Por aquilo que se pôde ver e provar, o caminho ainda está por fazer, mas abre-se à nossa frente para ser percorrido. Assim os todos os agentes e as entidades interessadas tomem as decisões certas e puxem todos para o mesmo lado.

Kroniketas, enófilo viajante

terça-feira, 15 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (3ª parte)

Luís Pato fala sobre os seus vinhos e sobre a casta Baga


Com a devida vénia, aqui reproduzimos um excerto da exposição de Luís Pato sobre os seus vinhos e a sua devoção pela casta Baga. Este vídeo foi gravado na cave da adega. Vale a pena ouvir com atenção esta lição de sabedoria. Kroniketas, enófilo viajante

domingo, 13 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (2ª parte)

Almoço na Adega Luís Pato


        
   

O autocarro aguardava já para arrancar rumo ao próximo destino, e a Joana Pratas chamava os retardatários, que tardavam em abandonar as instalações das Caves São João...

Tomámos assento rapidamente e rumámos a Amoreira da Gândara, em Óis do Bairro, para ir ao encontro de Luís Pato. O estacionamento fez-se junto duma zona de vinhas enquanto o enólogo aguardava já à porta os visitantes. Lá dentro, na zona de recepção, mais dois elementos da Revista de Vinhos (João Afonso e Fernando Melo, alvo de leituras regulares na revista) entretinham-se já com uns brancos de Vinhas Velhas, de 1995 e 1998.

Feita a recepção aos visitantes e após uma pequena introdução por parte do “senhor Bairrada” acerca do seu projecto, descemos à cave onde se situam as salas de barricas e de armazenamento, em ambiente naturalmente fresco por estarem no piso abaixo da entrada que, no exterior, está forrada a relva, conseguindo assim uma variação anual de temperatura lenta e que oscila apenas entre os 13 e os 18 graus.

Reunidos em frente às salas de barricas, o enólogo dissertou pacientemente sobre as virtualidades da sua amada Baga, uma casta difícil mas que bem trabalhada pode guindar-se ao nível de algumas das mais famosas dos mais famosos países produtores de vinho, como o Pinot Noir, da Borgonha, e o Sangiovese, do Brunello di Montalcino. Luís Pato fez também questão de frisar que não planta castas estrangeiras a não ser as que vieram de regiões vizinhas: a Touriga Nacional, do Dão, e o Tinto Cão, do Douro (por sinal são as que utiliza no seu BTT). E deixou no ar uma pergunta: se eu tenho aqui condições para produzir com castas ao nível das melhores do mundo, porquê importá-las do estrangeiro?

A hora ia adiantada, e a fome já apertada, pelo que era tempo de voltarmos a subir para o almoço. Passámos pelo exterior para uma ampla esplanada onde pudemos servir-nos das diversas iguarias disponíveis (destaque para a originalidade duma cabidela de leitão) e dum amplo leque de vinhos, entre brancos, tintos e espumantes brancos e rosés.

À volta da mesa, fomo-nos deliciando com os néctares que conseguíamos trazer, e dos quais tirámos alguns momentos sublimes. Destaque particular para as colheitas de Luís Pato 1988, 1990 e 1995, verdadeiramente sublimes, vinhos sem idade, expoentes máximos da casta Baga que mostram como estão desfasados da excelência aqueles que lhe viraram as costas. Porque como realçam os grandes mestres do vinho, quando mais trabalho o vinho dá a fazer, mais prazer vai proporcionar no futuro. E graças ao “mister Baga” esta casta não morrerá e, mais dia menos dia, acabará por retomar o lugar de excelência que os resultados obtidos proporcionam. Assim os consumidores não queiram beber apenas o vinho do ano...

Chegámos a meio da tarde, e mais uma vez estávamos a queimar o horário. Para as 16 h estava marcada a prova de brancos de excelência, no Velódromo de Sangalhos. Ainda com o almoço a digerir, rumámos de novo apressadamente para o autocarro a caminho de Sangalhos, onde nos esperava Luís Antunes.

Kroniketas, enófilo viajante

terça-feira, 8 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (1ª parte)

Visita às Caves São João


      
   
  
   

A propósito de Bairrada, é altura de falar do evento que decorreu nos dias 13, 14 e 15 do passado mês de Setembro: o 1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada, organizado pela Revista de Vinhos e com carácter semelhante ao tradicional Encontro com o Vinho e os Sabores, que decorre anualmente há mais de uma década em Lisboa nos primeiros dias de Novembro.

Para além de ser dedicado exclusivamente aos sabores da região Bairradina, o programa apresentava alguns aliciantes extra, como a realização de dois jantares temáticos – um sobre os sabores do mar, no 1º dia, e outro sobre os sabores da terra, no 2º dia, naturalmente acompanhados com os vinhos da região – para além de provas comentadas, na mesma linha do que acontece no evento anual de Lisboa, e principalmente uma novidade, que consistiu na realização de visitas, ao longo dos 3 dias do certame, a dois produtores da região, estas em regime fechado, apenas dedicadas a jornalistas e bloggers.

Dada a escassez de vagas, apenas conseguimos um lugar para estas visitas, e por uma questão de gestão de calendário, dado que apenas me podia deslocar à Bairrada por um dia, escolhi o sábado, dia 14, que tive a felicidade de coincidir com a visita e provas nas Caves São João, seguida da visita com almoço na Adega Luís Pato. Não que as opções dos restantes dias fossem desinteressantes (na 6ª feira, dia 13, visita e almoço na Quinta do Encontro seguida de visita e prova na Quinta das Bágeiras; no domingo, dia 15, visita e prova na Adega Cooperativa de Cantanhede seguida de visita e almoço nas Caves São Domingos), mas esta combinação era para mim a mais aliciante, pelo que se apresentou como a escolha ideal. Pelo fascínio que tenho pelos vinhos de Luís Pato e pela figura do produtor, o “senhor Bairrada” e o “inovador na tradição”, e pela predilecção que temos neste grupo, há muitos anos, pelos vinhos das Caves São João, verdadeiros clássicos de que dificilmente se encontra igual.

Estando a hora de partida agendada para as 10 horas no Curia Palace Hotel, a saída de Lisboa teve de ser feita antes das 8 da manhã e a viagem sem grandes perdas de tempo, pois não havia folga. Da Curia, onde a nossa guia Joana Pratas nos aguardava, a deslocação fez-se de autocarro onde estavam presentes muitas caras conhecidas, entre bloggers e jornalistas com quem nos vamos cruzando aqui e ali nos eventos do género. Percorremos alguns quilómetros pelo coração da região vitivinícola, Anadia, Sangalhos, metemos por estradas secundárias e desembocámos à porta das Caves São João. Lá no cimo do edifício, a placa a indicar “Fundadas em 1920”. Uma casa quase centenária, portanto.

O grupo foi recebido numa sala que funciona como uma espécie de antecâmara para o mergulho profundo na história da casa. Foi-nos feita uma pequena apresentação da história da casa, fundada pelos antepassados dos actuais proprietários (já na quarta geração da família). Foi-nos feita uma pequena apresentação da história da casa, fundada pelos irmãos Costa (José, Manuel e Albano), antepassados dos actuais proprietários, já na quarta geração da família. Vários tipos de vinhos espalhados por diversas montras e expositores apresentam ao visitante as amostras dos vinhos mais representativos da casa, desde os vinhos de mesa às aguardentes. Nesta fase tivemos oportunidade de provar um espumante Quinta do Poço do Lobo.

Guiados então por Célia Alves, gerente da geração mais nova da casa, descemos em seguida para outra sala, profusamente decorada com diversos artefactos e onde repousavam já diversos acepipes regionais e as garrafas que iriam servir para a parte mais substancial da prova. Atravessada esta sala entrámos no coração das caves, onde passámos por algumas salas de barricas e intermináveis corredores e salas onde cerca de 700.000 garrafas não rotuladas, de colheitas com dezenas de anos (a partir de 1959) dão corpo a um enorme espólio vínico pronto a ser apreciado. Frei João, Caves São João Reserva, Quinta do Poço do Lobo ou Porta dos Cavaleiros, autênticos porta-estandartes dos clássicos da casa, de tudo um pouco vamos vendo e nalguns casos quase pisando, pois também vastas zonas do chão estão cobertas de garrafas cuidadosamente arrumadas. Ficámos a saber que aquele património inestimável está disponível para venda ao público interessado. A dificuldade é escolher.

Não faltam, como é óbvio, as aguardentes nem a imprescindível adega dos espumantes, onde o fundo de cada garrafa tem pintada uma pequena marca branca, para assinalar a posição quando se procede à rotação diária das garrafas.

Completa a volta, ainda passámos pela sala de cubas de vinificação e vimos o museu da casa onde se destaca uma das primeiras prensas de uva usadas em Portugal, há quase um século atrás.

Rumámos novamente à sala de provas, onde pudemos então apreciar um notável conjunto de vinhos, previamente apresentado pelo enólogo da casa, José Carvalheira. Não vamos enumerar cada vinho nem estender-nos em notas de prova, pois tornar-se-ia fastidioso e interminável. Vários outros bloggers deram-se ao trabalho de escrever notas de prova sobre o que iam provando, pelo que os interessados poderão procurar noutros blogs algumas descrições mais detalhadas. Assim de cabeça, creio terem estado presentes, entre outros, Copo de 3, Comer, beber e lazer, Airdiogo num copo, E tudo o vinho levou, Magna Casta, O vinho é efémero, João à mesa, Mesa marcada, Adegga Portugal, e peço desculpa se de momento não me ocorre mais nenhum no meio de tantos, mas encontrarão aqui, certamente, muita informação disponível. Os representantes da Revista de Vinhos, como não podia deixar de ser, também acompanharam as várias etapas do evento (João Paulo Martins também lá estava), e certamente teremos a competente e bem relatada reportagem num dos próximos números.

Pudemos provar um espumante tinto Caves São João, Quinta do Poço do Lobo Reserva branco (uma novidade de Arinto e Chardonnay), São João Lote Especial, Caves São João Baga-Touriga Nacional e não pode, naturalmente, ficar sem referência um vinho notável que provámos no fim: um Caves São João Reserva Particular de 1959! Um vinho com uma juventude e uma frescura notáveis, impossíveis de associar a um vinho com mais de 50 anos. Poderia dizer-se que tinha 10, que a cor, a concentração e o aroma não seriam certamente muito diferentes. Já vi vinhos muito mais novos, mesmo da Bairrada, com muito mais sinais de velhice e declínio que este. Naturalmente que, para além da qualidade do próprio vinho, as condições de armazenamento são fundamentais para que o produto consiga passar com distinção a prova do tempo. O único senão deste vinho: cada garrafa custa a módica quantia de 200 euros! Uma pequena extravagância...

No fim desta visita, que demorou mais uma hora do que estava previsto no programa, era altura de iniciar a 2ª etapa do programa, rumando à Adega Luís Pato para outro ponto alto do dia.

Kroniketas, enófilo viajante

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

No meu copo 342 - Termeão Pássaro Branco 2007

Guaraz – Pássaro brasileiro, de que se diz ser branco quando nasce e tornar-se depois vermelho.

É com base nesta filosofia que, sob a batuta de Carlos Campolargo, se produz este Termeão em duas versões: o Pássaro Branco e o Pássaro Vermelho.

Este último é o mais elaborado, com estágio prolongado em madeira, enquanto nesta versão do Pássaro Branco o estágio se fez até um máximo de 12 meses. Mas não é o menor estágio que lhe retira qualidade! Boa estrutura, pujante, longo e persistente, mas ao mesmo tempo vibrante e fresco, é um Bairrada moderno mas à moda clássica, a fazer lembrar os melhores Baga sem ter Baga... É feito com desengace total, o que lhe permite ser menos adstringente em relação ao tradicional que tanto assusta alguns consumidores mais renitentes...

É um vinho muito bem feito, a mostrar que a nova Bairrada também pode impor-se de modo a elevar a qualidade da região e recolocá-la no lugar de destaque que merece. Também se conclui daqui que, afinal, nem só duma casta vive a região, porque aqui temos claramente o famoso terroir (palavra da moda) a mostrar ao consumidor aquilo que vale.

Por esta amostra, vale a pena (re)descobrir esta “outra” Bairrada. Atreva-se, descubra, experimente. Saia da sua zona de conforto de beber sempre os mesmos e ouse experimentar algo diferente e menos usual. Talvez conclua que vale a pena.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Termeão Pássaro Branco 2007 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional (75%), Castelão (25%)
Preço: 7,50 €
Nota (0 a 10): 8